Cultura

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Preservação, produção e disseminação das narrativas revolucionárias

Afonso Machado

Campinas

terça-feira 8 de outubro| Edição do dia

Incêndios no Brasil tem levado à destruição de plantas e animais. Precisamente por estarmos atentos às ameaças feitas à vida no planeta, precisamos também impedir com que as chamas atinjam os documentos de luta dos oprimidos, queimem a memória dos trabalhadores. Todo período político conservador procura desestabilizar, sabotar, inviabilizar e reprimir a produção cultural. Uma das razões disso é que através de muitos produtos culturais, a transmissão de tradições combativas possibilita uma outra experiência política para os trabalhadores. Assim sendo rememorar a luta de classes e disseminar suas imagens, significa interromper este horrendo desfile que os conservadores da atualidade promovem: é o desfile da barbárie, um terrível elogio aos assassinos da memória. Autores como Karl Marx e Walter Benjamin fornecem munição teórica para atuarmos criticamente neste contexto. A oposição cultural a este momento conservador em que vivemos se faz a partir de algumas considerações:

1- Os sujeitos históricos necessitam do alimento estético e político fornecido pela história. Ao imaginarmos o passado, encontramos em personagens e acontecimentos elos históricos que contribuem com a consciência de classe.

2- A avalanche de informações disseminadas pela grande mídia leva a uma percepção de que fatos econômicos, políticos e culturais não possuem relações entre si. Já as narrativas históricas revolucionárias possibilitam uma experiência crítica com os acontecimentos diários e do passado: economia, política e cultura surgem articuladas para olharmos o mundo além das suas aparências.

3- Já faz mais de um século que a produção de narrativas históricas deixou de ser uma exclusividade dos especialistas na matéria. O próprio jornalismo operário que colocou fim na barreira entre escritor e leitor, revelou um espaço de atuação literária em que a exposição de acontecimentos passados podem influir sobre o presente do leitor. Com o desenvolvimento do audiovisual a produção de narrativas revolucionárias encontra inúmeros canais de comunicação.

4- Abaixo as gavetas trancadas. Na era digital narrativas, imagens e teses revolucionárias devem circular.

5- Rememorar, narrar histórias de luta, sempre foi uma necessidade do movimento dos trabalhadores. Se as classes dominantes procuram atirar terra na memória, enterrando experiências políticas do passado e comprometendo a mediação destas mesmas experiências entre as gerações de trabalhadores, a esquerda precisa insistir na rememoração. As reivindicações do presente se misturam com as lembranças daqueles que foram injustiçados, desde Rosa Luxemburgo até Marielle Franco.

6- Destacar os personagens rebeldes e revolucionários revelados recentemente pela historiografia, pela literatura e pelo cinema. Operários, camponeses, mulheres, homossexuais, negros e indígenas são personagens cujos dramas formam os eixos das narrativas de luta. Além de personagens das narrativas estes também são narradores.

7- Preservar, produzir e disseminar as narrativas dos oprimidos compõem atos de resistência e oposição política. A defesa de uma tradição cultural revolucionária mantém viva no dicionário político da atualidade a palavra Revolução.




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