Sociedade

CONTRA OS AJUSTES, AS TRAGÉDIAS E A CORRUPÇÃO

Editorial: Por uma esquerda capaz de ser uma grande voz independente na política nacional

No último sábado mais de 350 jovens e trabalhadores se reuniram no Sindicato dos Metroviários de São Paulo para conhecer a experiência da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores da Argentina com o deputado nacional Nicolás del Caño, que acabou de ficar em quarto lugar na eleição para presidente numa votação histórica para a esquerda argentina. Isso porque no Brasil, temos um cenário marcado por ajustes, tragédias capitalistas e corrupção, mas também por resistência operária, da juventude e das mulheres, o que faz despertar interesse pela experiência avançada da esquerda argentina em se constituir como uma alternativa independente da direita (Macri) e do governo (Kirchner-Scioli), que o PTS encabeça.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

Marcelo Tupinambá

São Paulo

quarta-feira 2 de dezembro de 2015| Edição do dia

Por um lado já está claro que o suposto “mal menor”, Dilma Roussef, está implementando do jeito que a burguesia quer um plano de ajustes cruel, que, diga-se de passagem, está somente no começo. Como retrato para a crise política do país basta dizer que é a primeira vez na história em que um senador em exercício é preso, e trata-se de ninguém menos que Delcídio do Amaral, líder do PT no Senado. Não bastasse essa verdadeira lama parlamentar, a tragédia capitalista de Mariana, Minas Gerais, continua espalhando morte e destruição pelo país.

Mas houve importantes mostras de resistência a todos estes ataques. Nas fábricas foram desde o início do ano dezenas de greves e paralisações, como na Volkswagen e na Mercedez Benz onde os trabalhadores se enfrentaram diretamente com o Plano de Proteção ao Emprego, um projeto pra reduzir o salário e a jornada de trabalho. Os professores do Paraná que fizeram uma greve histórica e professores de vários estados que enfrentaram todos os ataques a esta categoria. Em Correios e bancários foram importantes greves que impediram o avanço na retirada de direitos ou no arrocho salarial. Uma longa greve dos servidores federais também enfrentou o governo. Trabalhadores da USP vem lutando contra o desmonte da universidade. Os petroleiros fizeram uma das principais greves do ano, enfrentando o arrocho salarial e debatendo a privatização, e se enfrentando com a própria burocracia sindical.

Na juventude o ponto mais alto da resistência é em São Paulo onde neste momento mais de 200 escolas estão ocupadas por estudantes secundaristas que lutam contra o fechamento das escolas por parte do governo Alckmin, do PSDB. Além disso nas universidades também começam a haver lutas contra a precarização do ensino, como na Universidade Estadual do Rio de Janeiro que foi fechada temporariamente na última semana. E também neste processo todo as mulheres se levantaram e tomaram as ruas pra lutar pelo direito ao próprio corpo e contra as restrições na legislação sobre o direito ao aborto nos casos permitidos por lei.

Estas expressões de resistência colocam com muita urgência uma esquerda que se coloque como um ator independente no cenário nacional. Não há tempo a perder, não podemos desperdiçar nenhuma oportunidade de confluir com este processo de resistência que mostra que a luta de classes é o caminho.
 
É neste sentido que consideramos que a esquerda hoje tem tarefas fundamentais. Por um lado colocar de pé um verdadeiro movimento nacional contra os ajustes, como um forte polo que aglutinasse e coordenasse os setores que resistem, pra cercar de solidariedade todas as lutas e encorajar os trabalhadores e a juventude que se levantam a um sentimento classista e combativo contra o governo e a própria burocracia sindical. Essa seria a forma de enfrentar a política da burocracia de dividir e controlar os processos de luta e dar verdadeiros exemplos que sejam parâmetro de que não vão passar os ataques impunemente. Mas uma coordenação como essa poderia ir além da luta contra os ajustes, mas apresentar uma alternativa para a crise política. Causa horror à burocracia sindical e ao governo, e não menos aos patrões, que os trabalhadores e a juventude além de resistir aos ataques passem também a questionar essa podridão do regime burguês e passem a querer tomar pra si os rumos do país.

É por isso que a força que o PSTU e a CSP-Conlutas conseguem reunir em atos como o do dia 18 de setembro e em reuniões da vanguarda devem imediatamente se reverter em força orgânica na luta de classes, o que não é possível ocorrer com a agitação vazia de “greve geral” sem nem mesmo nos locais onde estão preparar grandes batalhas contra os ataques que sirva de exemplo de que é possível ir por mais. Por outro lado, a batalha para que o PSOL rompa com a Frente Povo Sem Medo, da qual fazem parte não apenas a CUT e a UNE, mas também o próprio PT, PCdoB, Rede e outros partidos burgueses – vide lançamento da Frente ao lado do “lava-jato” Lindbergh Farias, que votou pela liberdade de Delcídio – esta batalha é porque não é possível colocar de pé um verdadeiro movimento contra o ajuste estando ao lado dos ajustadores. Também não é possível lutar verdadeiramente contra a corrupção estão ao lado dos corruptos.

Ao contrário, é preciso um combate firme ao papel de contenção que a burocracia sindical da CUT e demais centrais pelegas vêm exercendo. A CSP-Conlutas tem uma responsabilidade especial nesse combate. Hoje, precisamos lutar por um movimento nacional contra os ajustes capaz de travar batalhas unificadas e exemplares que imponha um limite aos ataques e possa preparar a contraofensiva do movimento de massas contra os ajustadores.

Mas esse movimento também precisa dar uma resposta política de fundo à crise atual, o que para nós passa pela necessidade de lutar contra o conjunto da casta política, por uma Assembléia Constituinte Livre e Soberana, imposta pela mobilização das massas, que seria o caminho pra encarar seriamente problemas profundos que estão colocados em nosso país. Impedir todas as demissões e defender a redução da jornada sem redução salarial, pra que todos tenham direito ao trabalho. Que todos os políticos ganhem o salário de uma professora e que sejam revogáveis. Não ao pagamento da dívida pública e mais verbas pra educação pública e de qualidade em todos os níveis, com o fim do vestibular. Nenhum direito a menos para as mulheres, legalização do aborto já. Re-estatização da Vale do Rio Doce sob controle dos trabalhadores e confisco dos bens de todos os empresários criminosos envolvidos. Estas seriam algumas das tarefas que uma Assembléia como esta deveria levar adiante. No curso da luta por uma constituinte como esta, os próprios trabalhadores e jovens no curso deste processo iriam conhecer os limites desta democracia dos ricos para resolver estes problemas definitivamente, colocando a necessidade de avançar para organismos de poder da própria classe operária que tornem concreta a perspectiva de um governo dos trabalhadores, o único que pode resolver efetivamente problemas como estes.

Uma assembleia constituinte como essa é muito diferente da proposta de Lula e do PT de “Constituinte Exclusiva”, apoiada por setores importantes do PSOL, pra debater unicamente uma reforma política. Temos mil e uma mostras de que essa “política dos ricos” é inseparável de para quem os políticos governam e legislam. Para ficar só num exemplo: metade da assembleia legislativa de MG está literalmente “comprada” pelas mineradoras: como seria possível então legislar apenas sobre a “reforma política”, sem tocar nos interesses materiais de fundo que se expressam na “política”? A proposta de constituinte exclusiva quer justamente impedir a população de debater sobre os grandes problemas nacionais, por isso é funcional à manutenção do estado de coisas atual.

O MRT busca confluir com todos os setores que resistem ao plano de ajustes e a crise política de nosso país com um instrumento que consideramos como parte da batalha por uma alternativa independente. O Esquerda Diário que é uma rede internacional de diários digitais em diversos países e idiomas que está a serviço de colocar de pé este movimento nacional contra os ajustes contribuindo pra potencializar a voz dos setores que resistem. Desde sua fundação em setembro de 2014 a rede Esquerda Diário internacional já conta com mais de 10 milhões de acessos, a maior parte das quais no La Izquierda Diario da Argentina, mas se estendeu com novos diários digitais no Brasil, Chile, México, França e Estado Espanhol, além de seções próprias na Bolívia, Alemanha, Venezuela e Uruguai. No Brasil, são mais de 1,2 milhão de acessos desde seu lançamento em março de 2015, chegando com as idéias da esquerda socialista e revolucionárias nas principais cidades deste enorme país. Não é apenas mais um jornal da esquerda, mas um instrumento pra ser tomado por cada jovem e trabalhador, um instrumento independente e que apresenta ideias revolucionárias pra enfrentar a crise no país.

Ao mesmo tempo em que estamos e estaremos ombro a ombro junto a todos os que lutem contra as diversas expressões do ajuste, vamos insistir permanentemente em que os trabalhadores devem conquistar sua independência política, buscando construir a organização de que necessitam os trabalhadores, as mulheres e os jovens para lutar a sério para que os capitalistas peguem pela crise, uma organização revolucionária dos trabalhadores que tenha peso decisivo no cenário político nacional e seja a ponte para a militância política dos trabalhadores, independente do governo e da direita, objetivo pelo qual o MRT aposta suas forças e convida a que conheçam.




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