Teoria

A 79 ANOS

Por que se fundou a Quarta Internacional?

Em 3 de setembro de 1938 nos arredores de Paris, França, era fundada a Quarta Internacional. Sob a perseguição, as calúnias e os assassinatos do stalinismo, se erguia a herdeira das melhores tradições revolucionárias das três internacionais que a antecederam.

terça-feira 5 de setembro| Edição do dia

Com a grande consigna de luta “Proletários do mundo todo, uni-vos!" o Manifesto Comunista escrito por Marx e Engels em 1848 dotava o movimento operário com a estratégia de lutar pelo reinado da liberdade e da abundância; a sociedade comunista surgida da transformação revolucionária da sociedade contemporânea. Desde então houve uma continuidade revolucionária baseada no Manifesto Comunista que conseguiu erguer quatro internacionais com o objetivo de “tomar o céu de assalto” e colocar todos os recursos da técnica, a natureza e os grandes descobrimento científicos a serviço de emancipar os trabalhadores e os oprimidos do mundo.

O primeiro passo foi dado pela Associação Internacional dos Trabalhadores em 1864, que conseguiu difundir a solidariedade internacional do movimento operário e coordenar suas lutas, até explodir a Comuna de Paris (1871), que apoiou firmemente. Uma das lições que sobressaem é a de que o governo operário (como o da Comuna) é o mais efetivo do ponto de vista das grandes maiorias exploradas e oprimidas e que não fazem falta os políticos “de profissão” para dirigir o Estado (operário, nesse caso); assim, todos os funcionários da comuna ganhavam um salário médio de um operário e podiam ser revogados a qualquer momento se não representassem os interesses do povo trabalhador. Fruto da derrota da Comuna, a Associação Internacional dos Trabalhadores se dissolveu, ainda que o primeiro grande passo havia sido dado.

Em 1889 se funda, em Paris, a II Internacional. Uma das suas primeiras resoluções foi a de proclamar o 1º de maio como o “Dia Internacional dos Trabalhadores” e apoiar a luta pela jornada de 8 horas, consigna de luta que cravou suas raízes em trabalhadores do mundo inteiro e que perdura até os nossos dias. Houve grandes conquistas como haver construído partidos socialistas, haver colocado de pé grandes sindicatos industriais e conquistar dezenas de parlamentares. Porém, não conseguiu superar a prova mais dura: a I Guerra Mundial. Em 4 de Agosto de 1914, a socialdemocracia alemã votava no parlamento o apoio à carnificina capitalista aprovando os créditos de guerra.

Em meio à guerra estoura a revolução mais profunda de todos os tempos: a Revolução Russa de 1917. Sob o fogo irradiante desta revolução, se funda a Terceira Internacional, que remete à anterior não só na construção dos grandes partidos operários, mas no fato de que estes estivessem orientados para a luta para conquistar o governo dos trabalhadores em todo o mundo, único remédio para a enfermidade mortal chamada “capitalismo”. Seus primeiros quatro congressos, dirigidos por Lênin e Trótski, foram uma verdadeira escola de estratégia revolucionária.

Porém a ausência de novos triunfos revolucionários nos países centrais da Europa colocou a Revolução Russa numa condição de isolamento. Pouco antes de sua morte Lênin propõe a Trótski dar uma batalha contra o burocratismo encarnado pela velha guarda do Partido Comunista, em especial o trio Zinoviev, Kamenev e Stálin. A derrota da revolução alemã em 1923 e a morte de Lênin em 1924 encorajaram o trio. Lutando contra essa degeneração nasceu a Oposição de Esquerda, cujo programa chamou de Novo Curso (e que pode ser lido aqui, em espanhol). Porém, o trio responderia ao debate com uma campanha de perseguição contra os opositores que representavam uma importante minoria no partido, provocando-lhes uma primeira derrota.

Mais tarde em 1926, surgiria uma Oposição Conjunta (OC) para enfrentar a direção do partido encarnada por Stálin-Bukárin. A OC apresentou uma plataforma política comum em uma reunião do Comitê Central que proclamava o aumento do salário dos operários, devido à crises econômicas e chamava a modificar o regime de impostos para que esses recaíssem sobre os setores mais ricos do campo e da cidade; enquanto exigia um planejamento científico da industrialização, para fortalecer as bases socialistas do Estado. A OC foi silenciada em novembro do mesmo ano e expulsa do partido. Quando tudo isso parecia um escândalo aos olhos de milhares de militantes operários, em janeiro de 1927, a GPU informou a Trótski que, sob a acusação de “contrarrevolucionário” ele seria deportado a Alma Ata, perto da fronteira com a China e junto a milhares de militantes e simpatizantes da Oposição que também seriam transladados e deportados, aplicando-lhes um duro golpe.

Da morte da Internacional Comunista à fundação de uma nova internacional

Desde o exílio na Turquia, Trótski impulsionaria a criação da Oposição de Esquerda Internacional (OEI), já que suas posições encontravam simpatia e eram compartilhadas pelos mais diversos militantes e dirigentes dos partidos da IC. O objetivo desse período não era fundar uma nova internacional, mas dar uma batalha até recolocar a terceira no caminho revolucionário, porque ainda irradiava o calor da revolução de outubro de 1917 (muito apesar da pseudo-teoria de Stálin do “socialismo em um só país” que renuncia à toda experiência internacionalista desde a época do Manifesto Comunista até a própria Revolução Russa). Porém a ferida se converteu em gangrena, e em 5 de março de 1933 Hitler – que havia sido designado chanceler – e o partido nazista ganharam as eleições massivamente. O triunfo nazista foi obtido graças ao sectarismo da IC e sua negação à Frente Única com o partido socialdemocrata para esmagar o fascismo, que alimentaram a vitória dos nazistas. Esse fato era o equivalente exato da traição da socialdemocracia na Primeira Guerra Mundial. Nenhum partido da III reagiu.

Trótski sustentava que diante de semelhante traição o proletário alemão voltaria a erguer-se, mas o stalinismo jamais. Esse novo cenário impeliu a OEI a dar um passo mais profundo; lutar por novos partidos revolucionários e por uma nova internacional. Numerosos grupos e pequenos partidos ficaram por fora da IC, oscilando entre uma política reformista e uma revolucionária, que por sua vez expressaram a sensibilidade das massas no momento da ascensão do fascismo na Europa. A esse fenômeno Trótski definiu como “centrismo”.

Posteriormente os trotskistas promovem a formação de um bloco, como se conheceu como o bloco dos quatro. O acordo firmado pela OEI com grupos centristas, dois holandeses, o RSP e o OSP e o SAP alemão, continha pontos programáticos e um método comum para explorar as possibilidades de uma unificação em uma mesma organização. O denominador comum desse bloco foi a luta irreconciliável contra o stalinismo e a socialdemocracia, e em prol de construir uma nova internacional que dirija a revolução socialista. Trótski considerava que a experiência da prática comum era o único caminho para poder separar centristas de revolucionários e avançar no reagrupamento destes últimos.

Assim, a OEI muda seu nome para Liga Comunista Internacional (LCI) e se prepara para seguir avançando. Em maio de 1935 Trótski apresenta a “Carta aberta pela criação da Quarta Internacional”. Entre 29 e 31 de julho de 1936 se reuniria a Conferência Internacional clandestinamente em Paris.

O pano de fundo é o fogo ardente dos operários e camponeses espanhóis que dão impulso à guerra civil. Durante a conferência criou-se o Movimento pró Quarta Internacional e se discutiu a tese central: a nova ascensão revolucionária e as tarefas da Quarta Internacional. Nessa tese se analisa a situação mundial e as políticas das direções da classe operária, a Frente Popular e a política internacional da URSS (link aqui). E conclui-se que a chave da sorte dos processos revolucionários em curso na Europa é “a questão da direção revolucionária”.

Sobre a base destas experiências Trótski, em 1937, desde o seu exílio no México, se lança na tarefa mais importante da sua vida, inclusive mais importante que haver dirigido a vitória da insurreição de outubro de 1917 na Rússia e haver derrotado aos 14 exércitos imperialistas em defesa da revolução. Essa tarefa encarada pelo revolucionário mais perseguido do planeta era a construção de um partido mundial da revolução socialista: a Quarta Internacional.

O grande biógrafo de Trótski, Isaac Deutscher (com sua trilogia "O profeta armado", "O profeta desarmado" e "O profeta banido"), sustentava que a construção da Quarta Internacional era um ato “voluntarista”, porque não havia ascenso das massas como quando foi criada a III. Porém, para Trótski e a maioria de seus seguidores, era preciso agrupar-se para defender-se da primeira onda de “patriotismo” que a guerra desencadearia e preparar-se para as futuras revoluções que as mesmas condições da guerra desenvolveriam.

Em 3 de setembro de 1938 era fundada, nos subúrbios de Paris, a nova internacional: com a ausência de Trótski, com seu filho e companheiro assassinado – Leon Sedov – e com o organizador da conferência Rudolf Klement assassinado também pela polícia stalinista (seu cadáver foi encontrado em Paris). Sob essas duras condições nascia a Quarta Internacional. O documento essencial de sua fundação é o Programa de Transição. Este estabelece uma “ponte” entre a consciência atual do movimento operário e as massas oprimidas e a resolução definitiva de suas demandas que só poderá ser através de um governo operário e popular baseado nos organismos de autodeterminação das massas.

Se bem não é um programa acabado – escrito para o cenário de “crises, guerras e revoluções” – muitas de suas consignas são muito úteis para o desenvolvimento das lutas em uma perspectiva anticapitalista e revolucionária, como a “abertura dos livros de contabilidade” e o “controle operário da produção” que os operários das fábricas de Zanon e Donnelley utilizaram na Argentina, para dar início a” administração operária direta” quando as patronais pretendem fechar estas fábricas.

Para finalizar ilustramos com o Programa de Transição referente à juventude e à mulher trabalhadora:

(…) a IV Internacional dispensa uma atenção e um interesse especial à jovem geração do proletariado. Toda sua política se esforça em inspirar a juventude confiança em suas próprias forças e em seu futuro. Somente o fresco entusiasmo e o espírito ofensivo da juventude podem assegurar os primeiros triunfos da luta e só estes devolverão ao caminho revolucionário aos melhores elementos da velha geração. Sempre foi assim e assim será.

Todas as organizações oportunistas, por sua própria natureza, concentram seu interesse nas camadas superiores da classe operária e, em conseqüência, ignoram tanto a juventude como as mulheres trabalhadoras. Mas o período de declínio do capitalismo golpeia a mulher tanto em sua condição de trabalhadora como na de dona-de-casa. As seções da IV Internacional devem buscar apoio nos setores mais oprimidos da classe trabalhadora, e portanto, entre as mulheres que trabalham. Nelas encontrarão fontes inesgotáveis de devoção, abnegação e espírito de sacrifício.

Abaixo o burocratismo e o carreirismo!

Avante a juventude!

Avante a mulher trabalhadora!

Assim são as consignas inscritas na bandeira da IV Internacional"

Link original do texto aqui. Tradução: Zuca Falcão




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