Política

Por que, realmente, a LIT/PSTU não participou da Conferência Latino-americana e dos EUA convocada pela FIT-U?

Entre os dias 30/7 e 1/8, se realizou virtualmente a Conferência Latino-americana e dos EUA, convocada pela FIT-U, sigla em espanhol da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade, impulsionada na Argentina pelo PTS, partido irmão do MRT, junto a outras organizações.

Bruno Gilga

Diretor de Base do Sindicato de Trabalhadores da USP (SINTUSP)

domingo 9 de agosto| Edição do dia

Foto: Litci.org

A LIT/PSTU foi convidada a participar da Conferência Latino Americana e dos EUA e se recusou, inventando argumentos administrativos, burocráticos e auto-proclamatórios, alheios às necessidades colocadas pelo momento atual da luta de classes internacional, para se separar de forma sectária da Conferência. Aparentemente, para a direção da LIT/PSTU, depois de ter se dividido ao meio no Brasil - país em que a LIT tem, de muito longe, sua principal organização - como resultado do seu apoio ao golpe institucional e à Lava Jato de Sérgio Moro, a melhor maneira de esconder seus problemas é seguir negando qualquer discussão política, teórica e estratégica que permita revelar os duros balanços que há muito se nega a fazer. Isso aprofunda o enfraquecimento da LIT, já que qualquer observador atento da esquerda teria dificuldade de apontar algum aporte relevante dessa organização na reorganização da vanguarda em meio aos principais fenômenos da luta de classes do último período, tendo visto, ao contrário, sua militância e influência se reduzirem nos países atravessados pelos processos de luta mais profundos. Negando por motivos sectários o convite à Conferência, realizada em base a posições políticas de independência de classe detalhadas em uma convocatória acordada entre as correntes que compõem a FIT-U (além do PTS, o PO, a IS e o MST), a LIT/PSTU escolheu não participar dos debates abertos e fraternos das divergências e convergências na esquerda, com o objetivo de avançar na batalha por uma força política de independência de classe, o que passaria por criticar de forma clara e superar boa parte das principais posições políticas adotadas por essa organização, que não soube delimitar-se da ofensiva imperialista e do golpismo em distintos cenários da América Latina. Não deixa de ser lamentável assistir à LIT/PSTU tentar ocultar o verdadeiro conteúdo de seu desesperado isolamento, quando as organizações socialistas revolucionárias deveriam se dedicar a buscar reagrupar a vanguarda internacional sobre os princípios da independência de classe, algo que nós da Fração Trotskista buscamos discutir na Conferência em base a debates teóricos, políticos e estratégicos com a intervenção de nossos grupos.

Examinemos seus argumentos. Enquanto a Conferência estava em seu segundo dia de debates, a LIT/PSTU publicou uma nota intitulada “Por que não participamos da conferência convocada pela FIT-U?”, onde explicam que foram convidados a participar da conferência, que lhes foi oferecido o dobro do espaço de participação e tempo de fala de qualquer das demais organizações convidadas, e que por isso recusaram o convite, pois “a LIT-QI, organização internacional que na América Latina está presente em mais de uma dúzia de países, também nos Estados Unidos, sendo em vários a principal ou uma das principais correntes trotskistas, teria, segundo os organizadores, quase o mesmo tempo que um pequeno grupo convidado de algum país. Uma proposta claramente absurda”. Os companheiros explicam que, “embora não sejamos convocantes nem parte da FIT-U”, sendo “a principal ou uma das principais correntes trotskistas”, só participariam se tivessem o mesmo espaço que as organizações convocantes.

Sobre o fato de que a convocação se deu em base a um documento de convocatória - intitulado “Um novo cenário na América Latina e a necessidade de uma saída socialista e revolucionária”, posteriormente complementado e atualizado por outras declarações -, e que não se poderia ignorar ou diluir a importância dos acordos expressos nele, sendo muito importante os companheiros se posicionarem sobre seu conteúdo, a nota assinada pela LIT/PSTU afirma que “de fato, temos diferenças importantes com esse documento”, que explicam assim: “Nossa ideia de um painel sobre a atuação dos revolucionários no Parlamento se baseia justamente no fato de que a principal proposta contida em sua Convocatória inicial é a de colocar em prática em todos os países experiências como a FIT-U argentino, além da reivindicação do desempenho parlamentar de seus deputados (proposta e reivindicação com a quais não concordamos)”.

É a única questão que mencionam sobre a convocatória. Mas a criatividade para criar argumentos não chega ao ponto de apresentar o que seria, afinal, que teriam a ensinar à FIT-U sobre a atuação dos revolucionários no parlamento. E isso não deve surpreender ninguém, já que têm grande transcendência os exemplos de atuação de militantes que estão no parlamento impulsionando as lutas operárias, como Nicolás Del Caño e Christian Castillo, do PTS, colocando o próprio corpo entre os trabalhadores e a repressão nas lutas dos operários de fábricas da Lear e da Pepsi, ou Raul Godoy, também do PTS, dirigente operário da fábrica recuperada Zanon, que retornou ao trabalho no chão da fábrica depois de um período de mandato parlamentar. Exemplos que não encontramos em nenhum outro lugar, por parte de nenhuma outra organização da esquerda, muito menos da LIT.

Mais além: quem lê essa convocatória vê que ela expressa acordos importantes e posições bastante avançadas, no sentido da independência de classe dos trabalhadores, sobre tarefas chave da luta de classes frente aos processos abertos em países como Chile e Equador, frente às ofensivas da extrema direita e do imperialismo norte-americano em países como Brasil e Bolívia e suas tentativas na Venezuela, e frente à demagogia dos governos que se dizem “nacionais e populares” como na Argentina e México, delimitando-se dos governos chamados “pós-neoliberais” como Morales e Chaves, e de novas experiências reformistas como Syriza e Podemos, apontando as tarefas para superar as burocracias sindicais e avançar na luta por governos dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo. A convocatória ainda termina apresentando para discussão dez pontos de um programa para a luta.

Portanto, não somente não é verdade que “a principal proposta contida em sua Convocatória inicial é a de colocar em prática em todos os países experiências como a FIT-U”, como a reivindicação da experiência da FIT-U não é vazia de conteúdo, e isso é o principal: é a reivindicação do acordo em torno dessas posições de independência de classe e da atuação comum em torno delas. Mesmo assim, tal reivindicação aparece na convocatória em um frase, e em seguida já se lê: “No entanto, as contradições e limites da FIT-U não nos escapam: somos partidos que mantêm diferenças políticas em questões nacionais e internacionais e de práticas políticas nos movimentos de trabalhadores, desempregados e estudantes. Nosso desafio é fazer todos os esforços para melhorar e expandir o horizonte de ação da FIT-U em todas as áreas da luta de classes e da luta política, reivindicando o debate político franco, para esclarecer as diferenças”. Diferenças que não são mencionadas genericamente, mas citadas uma a uma na convocatória - sobre atuação na Venezuela, o golpe no Brasil, a caracterização de Cuba, o programa da Assembleia Constituinte Livre e Soberana, a atuação frente a “partidos amplos” que se dizem anticapitalistas, entre outras. E que foram abertamente debatidas na conferência, em discussões que mostraram que os acordos existentes entre as organizações da FIT-U em torno de seu programa e atuação na Argentina não se verificam internacionalmente, o que do nosso ponto expressa as contradições entre o que as demais organizações da FIT-U defendem como parte dela, e o que defendem e fazem em outros países, e os limites para a ampliação dessa unidade internacionalmente. Ainda assim, para além da importância dos próprios debates, o resultado da Conferência foi um conjunto de importantes Resoluções (que podem ser lidas aqui) sobre tarefas chave em distintos países e sobre ações a impulsionar em comum.

Um grande exemplo de como tratar as diferenças abertamente, unica forma principista de verificar a possibilidade e buscar construir qualquer unidade política, e que contrasta com a prática de grande parte da esquerda brasileira onde a discussão sobre diferenças importantes - como as que temos com os companheiros do PSTU em temas como seu apoio ao golpe institucional, à prisão de Lula, e aos motins policiais, inclusive de tropas milicianas e bolsonaristas, como no Ceará, ou sua relação oportunista com as burocracias sindicais, para citar alguns exemplos - é evitada, e em geral só aparece em função de outros interesses, sobre aparatos sindicais e políticos.

Frente a tudo isso, o argumento da LIT/PSTU para se separar dessa convocatória é que não concorda com a reivindicação da FIT-U, e se recusa a participar da conferência porque não lhe teria sido dado o posto de “a principal ou uma das principais correntes trotskistas”. Sua resposta tem, ao menos, o mérito de deixar claro que o motivo de sua recusa é que querem negar a experiência da FIT-U e sua importância, essencialmente para afirmar a si mesmos como “A” principal corrente trotskista, “O” trostskismo. Uma concepção que é a própria essência da auto-proclamação sectária, em função da qual usam argumentos completamente alheios às questões chave da luta de classes internacional para negar a FIT-U como uma experiência avançada de unidade política de independência de classe - o que fazem inclusive na própria Argentina, onde são um pequeno grupo com muito pouca intervenção. Isso mesmo frente a uma iniciativa de debate aberto das divergências sobre como construir uma saída política dos trabalhadores frente à maior crise econômica e social em muitas décadas, e aos grandes processos da luta de classes que nos últimos meses atravessaram concentradamente os EUA e a América-Latina. Isso mesmo frente ao curso marcado de auto-isolamento e perda de influência que essa concepção tem contribuído para que a LIT siga, combinado com as consequências de suas posições oportunistas, ou inclusive de seguidismo direto à burguesia golpista, como no caso de sua participação no "Fora Dilma".

Esse sectarismo auto-proclamatório é o oposto da batalha pela construção do partido mundial da revolução, pela reconstrução da quarta internacional, e só pode levar uma organização e se isolar cada vez mais, precisando gritar cada vez mais alto pra si mesma para se convencer de sua própria importância revolucionária. De nossa parte, só podemos lamentar essa decisão, e chamar os companheiros a reverem esse caminho, pois em particular no Brasil a batalha por um polo de independência de classe - passando pelo debate aberto das divergências e da necessidade de PSTU e PSOL abandonarem tanto políticas de apoio a movimentos impulsionados pela direita e pelo imperialismo, quando por outro lado o seguidismo ao PT e sua política de conciliação de classes, e também saídas como a política do impeachment que levaria a um governo Mourão e deixaria ilesas todas as instituições desse regime degradado do golpe - seria um passo importante no sentido de aprender e aproveitar as lições de uma experiência como a FIT-U, e com uma unidade desse tipo amplificar nossa capacidade de aportar para enfrentar, com a força da classe trabalhadora e de todos os oprimidos, não só Bolsonaro, mas todas as alas do regime que estão impondo às massas sofrimentos extremos com a pandemia, a crise, o desemprego e a miséria.




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