Teoria

RICO E POBRE

Por que o rico é tão rico e o pobre tão pobre? De onde vem a riqueza?

A desigualdade social, com a concentração de riqueza nas mãos de poucos e o empobrecimento e a vida difícil da maioria esmagadora da classe trabalhadora e do povo pobre é a marca da sociedade em que vivemos, capitalista. De onde vem essa desigualdade? Qual a explicação básica para que os ricos sejam cada vez mais ricos e a pobreza exista? Um elemento essencial para que se possa começar a entender este problema – que a mídia e as escolas escondem ao máximo – será abordado nesta nota.

Gilson Dantas

Brasília

sábado 23 de janeiro de 2016| Edição do dia

Os exploradores de qualquer época só procuram escravos ou servos por uma única razão: esses trabalhadores precisam produzir mais do que aquilo que o patrão gasta para mantê-los. O trabalhador tem que produzir um excedente, isto é, uma riqueza maior que o que recebe de volta, caso contrário não vale a pena ter escravos e nem vassalos. Mais ou menos como o boi que carrega o arado na lavoura: o boi tem que “produzir” mais do que a ração que o patrão gasta com ele. Nenhum dono de animais vai querer, na sua roça, um boi de carga que não seja “econômico”, que não gere economias, riqueza, para o dono do boi. E o trabalhador só interessa ao patrão porque é “econômico” para seu empregador, na verdade porque gera riqueza extra para o patrão.

Estamos falando de exploração: “você trabalha para mim, produz um total de 20 mas eu só te devolvo 5, 6 ou 10 do total que você produziu; eu sempre tomarei um excedente em relação àquilo que você recebe de volta”. É uma relação de classe: a classe que vive do trabalho alheio, que nada produz, posicionada, socialmente, contra a classe que se vê obrigada a viver do seu suor, do seu trabalho. Portanto, no final de contas, temos uma classe, os trabalhadores, que carregam toda a produção social nas suas costas, para que um setor, com seus privilégios de classe, possa viver o bem-bom da vida burguesa, vida de rico. Eis a mais valia. Ou, nas palavras de Trotski:

“A parte do produto que contribui para a subsistência do trabalhador é chamada por Marx de produto necessário; a parte excedente que o trabalhador produz é chamada de produto excedente ou mais-valia. O escravo tinha que produzir mais-valia, pois de outra forma o dono de escravos não os teria. O servo tinha que produzir mais-valia, pois de outro modo a servidão não teria tido nenhuma utilidade para a classe proprietária. O operário assalariado também produz mais-valia, só que numa escala muito maior, pois de outra maneira o capitalista não teria necessidade de comprar a força de trabalho. A luta de classes não é outra coisa senão a luta pela mais-valia. Quem possui a mais-valia é o dono da situação, possui a riqueza, possui o poder do Estado, tem a chave da igreja, dos tribunais, das ciências e das artes”.

A falta de consciência do operário em relação a essa questão, está no seguinte: ele costuma pensar que quando ele recebe seu salário, o patrão está lhe pagando pelo trabalho que ele fez ali, na fábrica, na empresa. Não é verdade. De fato, isso não passa de uma visão ideológica das coisas, isto é, o operário foi treinado – pela mídia, pelas escolas, pela família, pelas igrejas, pelo senso comum – a pensar com a cabeça do capitalista. O trabalhador está pensando que ali, na relação com o patrão, houve uma “troca justa”, que ele recebeu pelo seu trabalho, que ele foi à fábrica para “produzir” o seu salário e assim por diante.

Ele não consegue perceber que, no real, se ele olhar para a sociedade de conjunto, o que realmente acontece todos os dias é que a patronal fica cada dia mais rica e a família trabalhadora cada dia com menos acesso à riqueza, a condições dignas de moradia, transporte e saúde. E, portanto: todas essas coisas, essa riqueza que o patrão tem de sobra, o operário tem de menos. Qualquer “melhora de vida” por parte da família que vive do próprio trabalho, estará sempre aquém e detrás da acumulação de riqueza e de qualidade de vida cada dia maior por parte das famílias ricas, da patronal.

Ou seja, quando há “crescimento”, como há alguns anos, fazem parecer que essa desigualdade diminuirá aos poucos, pois o trabalhador ganha um pouco mais, mas na verdade ela aumenta, pois o patrão ganha muitíssimo mais. E quando há crise, como agora, os patrões dizem que estão perdendo mas, na verdade, tiram de nós, e a riqueza se concentra ainda mais, e a desigualdade também aumenta.

Este quadro mais global, social, da desigualdade galopante nos dias de hoje, está bem claro nos números revelados pelo artigo publicado nestes dias aqui no ED.

A conclusão lógica – vale repetir - é que o operário recebe, no salário, muito menos do que o que produziu. Ele produz o equivalente a vinte geladeiras por mês, mas só recebe de volta, em forma de salário, o valor de uma ou duas delas. As demais aparecem, socialmente, como riqueza do patrão. Aliás, aqui estamos de volta ao problema da sociedade dividida em classes: a classe que trabalha e a classe que vive do trabalho alheio, o que vem a ser a fonte de toda a desigualdade. Estamos de volta à história do boi de carga: a burguesia só oferece emprego ao operário apenas e exclusivamente porque vai arrancar mais valor, mais riqueza do que aquela que o trabalhador recebe de volta para levar uma vida de ... trabalhador, de explorado. O patrão só dá emprego para poder explorar o trabalhador.

O rei está nu, o enigma do trabalhador recebendo o “salário justo” está desfeito.

Vejamos o argumento de Trotski a partir de O capital de Marx:

“Marx decifrou esse enigma expondo a natureza peculiar de uma das mercadorias que é a base de todas as outras: a força de trabalho. O proprietário dos meios de produção, o capitalista, compra a força de trabalho. Como todas as outras mercadorias, a força de trabalho é valorizada de acordo com a quantidade de trabalho investida nela, isto é, dos meios de subsistência necessários para a vida e reprodução do trabalhador. Mas o consumo desta mercadoria — força de trabalho — se produz mediante o trabalho, que cria novos valores. A quantidade desses valores é maior que aquela que o próprio trabalhador recebe e necessita para sua subsistência. O capitalista compra força de trabalho para poder explorá-Ia. Essa exploração é a fonte da desigualdade”.

E daqui vem toda a riqueza que se acumula a olhos vistos nas mãos dos donos de fábricas, hospitais, empresas em geral (desde uma padaria de bairro até uma enorme empresa como a Friboi, a Mercedes, um Bradesco ou a Volks).

Ao mesmo tempo em que essa é a origem de toda a desigualdade que existe é também a fonte e a matriz de toda a violência urbana e rural, de toda a tensão que atravessa a sociedade moderna, as suas metrópoles como São Paulo, Salvador e as demais, e é portanto, a origem da luta de classes.

Luta de classes que quanto mais o trabalhador tomar consciência dela, mais poderá reagir e aprender a estratégia para se impor como sujeito político para subverter a situação a favor dos hoje explorados, isto é, daqueles que realmente fabricam tudo o que existe e que, portanto, são os que devem planificar a sociedade para que esta se torne finalmente humana. Para que deixe de ser dilacerada em classes sociais antagônicas, o rico e o pobre, na verdade e no fundo, para que se rompa o jugo entre os donos das fábricas e meios de produção e a imensa maioria que é quem, de fato, movimenta os meios de produção.

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As citações acima são extraídas do livro O marxismo e nossa época, de Trotski, que se encontra nesse momento no prelo, e será lançado brevemente pelas edições Iskra/Centelha Cultural [www.centelhacultural.com.br]. Nele, Trotski elabora um resumo de O capital e, dentre outros temas, examina a questão da origem da desigualdade e a exploração do trabalho.




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