Juventude

#UFMG RESISTE

Pixos no ICB-UFMG: protestar e existir

“Olha quem voltou”, “A UFMG tem que ser nossa” e “Pinta muro mas não paga bolsa” são as palavras de ordem da vez, mas já rolou de “Vamo conversar?” até “A UFMG mata. Você acha suicídio normal?” em lugares nada convencionais.

Pammella Teixeira

Belo Horizonte

quinta-feira 15 de junho| Edição do dia

No último domingo, dia 11, o Instituto de Ciências Biológicas da UFMG amanheceu novamente pixado. Mesmo após as pichações, o ICB ou a FACE, por exemplo, não permanecem por muito tempo pixados ou grafitados, os diretores das unidades mostram grande interesse em apagar e ignorar as intervenções ensurdecedoras dos estudantes. Mas o que essas paredes querem nos dizer?

Não foi dentro das universidades, mas foi pra isso que o pixo surgiu. Seja na Pedreira Prado Lopes, no centro de BH, na igrejinha da Pampulha, na FAFICH ou no ICB... É pra protestar e existir que pixo serve. Citando um texto de dois dos nossos companheiros de militância da USP, "nós entendemos que a pichação é uma manifestação artística e política subversiva que confronta a propriedade privada e questiona o caráter do espaço público. Se trata de um meio de agitação tradicional dos movimentos operários e estudantis, como se viu em maio de 68, entre outros levantes da juventude e da classe trabalhadora". Além disso, o pixo é usado para escancarar a barbárie dessa sociedade desigual, é instrumento para que os mais oprimidos gritem e se façam vistos. Na universidade não é diferente, a bárbarie da sociedade capitalista invade sim a bolha intelectual que muitos pensam existir em volta da UFMG. E invade com mais força em tempos de crise econômica, política e social como os que estamos vivendo.

Apesar da implantação de cotas no vestibular e da recente aprovação de cotas étnico-raciais na pós-graduação, do posiconamento da universidade contra o golpe institucional de Maio de 2016, contra os cortes na saúde educação e as reformas do governo criminoso de (Fora!) Temer, a estrutura de poder universitária continua antidemocrática e dando espaço para empresas privadas atuarem e lucrarem dentro de uma universidade (que deveria ser) pública, gratuita e de qualidade.

A nossa assistência estudantil é gerida pela FUMP, uma fundação privada que vive fechando o ano com superávits, mantendo o nosso bandejão como o segundo mais caro de país. O acesso a essa assistência estudantil, que deveria ser para todos e todas que precisem, vem de forma burocrática e a partir de avaliações conservadoras e fora da realidade. A nossa moradia não atende a todo mundo que precisa, as bolsas de assistência também não, e para [sobre]viver muitos de nós têm que escolher fazer uma graduação desgastante enquanto também trabalham fora, já que a bolsa de iniciação científica ou de extensão mal paga o almoço e o ônibus, que fica mais caro a cada ano.

Alguns pixos que amanheceram na UFMG escancaram os casos de suicídio de estudantes da universidade. Nos últimos meses foram dois estudantes e no ano passado, perdemos um colega da Biologia... Semestre após semestre, estudantes abandonam seu sonho e seus cursos, lotam a fila do atendimento psicológico da FAFICH e se entopem de antidepressivos, ansiolíticos e outras drogas. A bolha é tênue. Não! A bolha nem sequer existe! A cobrança, o competitivismo e outras misérias do capital nos atinge (os estudantes universitários, a elite intelectual de Belo Horizonte) em cheio.

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Enquanto isso, os diretores, pró-reitores e o reitor da nossa universidade continuam se fazendo de cegos (as), surdos (as) e mudos (as), comprando tinta para cobrir os nossos gritos, enquanto seguimos sem bolsas. Alguns deles dizendo que acham os pixos “feios”. Eles precisam entender que queremos mais do que prédios “bonitos”.

A nossa universidade tem muito pouco de nossa e, menos ainda, de pública e aberta. Nem festa a gente pode fazer, sob pena de jubilamento, enquanto a reitoria demagoga comemora os 90 anos da UFMG com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Dizem que aqui o estudante é ouvido, mas o voto de cada professor no conselho universitário tem o peso do voto de uns 80 de nós. A gente tem que assistir, de preferência bem pacatos, eles decidirem pelos nossos currículos, retirarem verba de nossos laboratórios, arrancarem nosso futuro, porque “temos que ser imparciais”.

A universidade, em toda a sua magnânima universalidade, não é tão universal para aqueles que necessitam da assistência estudantil, moradia e alimentação, para as estudantes mães que precisam de creche para seus filhos e filhas, para aqueles que precisam se dividir entre o emprego, a graduação e o estágio.

A estrutura da universidade, mantida em várias universidades Brasil afora, como, por exemplo, na USP,faz da UFMG cúmplice desse sistema que exclui, mata e destrói sonhos. Uma cúmplice que cumpre o papel de nos calar diante de qualquer questionamento ao capitalismo apodrecido que nem sequer pode sustentar a si mesmo.

Por isso, acreditamos que quando os estudantes se levantam para gritar as suas demandas, todos os estudantes devemos nos unir e gritar com uma só voz, seja no ICB, na FAFICH, na FACE, na EBA ou em Montes Claros. E mais: é preciso forjar a aliança com os trabalhadores que, não só querem soltar o mesmo grito que a gente, mas tem a força para transformar, além da estrutura de poder universitária, o mundo todo.

Juntemos a “loucura” e disposição da juventude, com a força de transformação dos trabalhadores, para lutar contra todo tipo de punição das estruturas de poder capitalistas, contra todo tipo de ataque, seja universitário, nacional ou até internacional.

Para que todos e todas escolham estar acordados e atentos, para nunca mais dormir.




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