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Peru: O "Plano Francke" e o giro de moderação nas propostas de Pedro Castillo

Enquanto o Júri Nacional de Eleições prorroga a data para o reconhecimento formal de Pedro Castillo como vencedor do segundo turno, seus novos aliados vêm realizando um processo de moderação da proposta que levou à sua vitória.

segunda-feira 21 de junho | Edição do dia

Como é sabido, Castillo chegou ao segundo turno como expressão da rejeição dos partidos tradicionais tanto da direita neoliberal quanto da esquerda institucional que se adaptaram aos governos de Vizcarra, Sagasti e Kuczynski. Este descrédito na chamada "classe política" como um todo, manifestou-se no primeiro turno nas altas taxas de voto nulo, branco e estragado. Da mesma forma, a maioria dos eleitores de Castillo era composta pelos setores mais atingidos pela crise, que viram no candidato a lápis uma alternativa para poder sair da difícil situação em que se encontram.

No segundo turno, houve uma moderação gradual das propostas eleitorais de Pedro Castillo, razão pela qual questões como a crítica ao modelo neoliberal e instituições que jogam a favor dos interesses do grande capital, como o Tribunal Constitucional, ou a proposta de nacionalização, foram esquecidas, e as exigências dos trabalhadores, como a revogação da suspensão perfeita do trabalho, desapareceram do discurso de campanha, ao qual se acrescentou a atenuação da exigência de uma mudança na Constituição através de uma Assembléia Constituinte. Atualmente, esta tendência à moderação tem se aprofundado, além das aparentes diferenças entre os novos convidados de Castillo da esquerda institucional e os seguidores de Vladimir Cerrón, diferenças que são patrocinadas pela mídia e pela ala direita.

Durante a reta final do segundo turno, vários especialistas técnicos se juntaram à equipe de campanha de Castillo, muitos deles do movimento Novo Peru liderado por Verónika Mendoza. Entre eles está Pedro Francke, um economista com ideias keynesianas, cuja presença foi bem recebida por vários jornalistas e políticos de direita porque, embora Francke defenda uma maior intervenção do Estado na economia, ele também é conhecido por seu respeito às instituições e por sua proximidade com as grandes empresas. Não esqueçamos que Francke e uma grande parte da nova equipe técnica que agora acompanha Castillo fazia parte da administração de Susana Villarán à frente da Prefeitura de Lima, uma administração que acabou sendo altamente questionada por suas ligações com a corrupção da Odrebrecht, o que levaria Villarán à prisão, inchando as fileiras dos muitos políticos que foram engolidos pela dinâmica empresarial. Vale mencionar também que os setores esquerdistas de onde Francke vem apoiaram com seu voto o lobista neoliberal Pedro Pablo Kuczynski no segundo turno de 2016 e lhe deram apoio político em grande parte de sua administração, como fizeram com as administrações de Martin Vizcarra e Francisco Sagasti.

Francke tornou-se nos últimos dias, um dos homens mais próximos e influentes de Pedro Castillo, por essa razão, o professor e ex dirigente do sindicato dos professores depositou nele sua confiança, como o próprio Francke aponta em uma entrevista reproduzida pelo jornal econômico Gestión onde diz: "Sou o porta-voz econômico indicado por Pedro Castillo e pela equipe de campanha e trabalhamos em conjunto com o professor Castillo. Ele tem apoiado o que temos dito, ele tem exigido estabilidade econômica e financeira. Penso que há uma conjunção de ideias muito claras".

Assumindo estas prerrogativas, Pedro Francke iniciou um desmantelamento aberto das propostas de campanha de Pedro Castillo, muitas das quais entusiasmaram os setores mais atingidos pela atual crise social e de saúde. Nesse sentido, na entrevista acima mencionada, Francke disse que acredita que o investimento privado é importante, "especialmente de homens de negócios honestos". Da mesma forma, quanto à possibilidade de nacionalização e criação de empresas públicas que Castillo propôs durante a primeira rodada para combater o espírito de lucro das empresas privadas, Francke foi muito enfático ao apontar que "Não está no Plano (do segundo turno), mas meu ponto de vista é bastante pragmático, pois não acredito que tudo privado seja ruim e tudo do Estado seja melhor". Posteriormente e para aprofundar o mesmo tema, ele expressou seu respeito pela Constituição de 1993, por esta razão afirmou que: "Devemos lembrar que, segundo a Constituição, as empresas públicas são criadas por lei expressa, ou seja, com voto majoritário no Congresso, portanto, o Poder Executivo não pode criar empresas públicas".

Sobre a necessidade de levantar recursos para o Estado a fim de reativar serviços públicos como saúde e educação, Francke delineou uma tímida proposta de reforma tributária para permitir que as empresas de mineração contribuam mais através de um aumento do imposto de renda, mas deixando claro que: "Estamos fazendo cálculos específicos e isso (a reforma tributária) tem que ser graduado de acordo com o preço e o lucro. Entretanto, ele não perdeu a oportunidade de mencionar também que "estamos cientes de que as empresas de mineração devem continuar ganhando, ninguém quer que elas deixem de ganhar". Desta forma, a possibilidade de que o governo Castillo possa implementar um imposto progressivo sobre os ricos ou a nacionalização de empresas estratégicas é removida com um golpe de caneta, enquanto a possibilidade de questionar o pagamento vergonhoso da dívida externa não figura nem mesmo entre seus planos.

Em relação à tão falada mudança da Constituição de 1993, Francke insinuou que apenas mudanças parciais poderiam ser feitas, por esta razão ele disse: "Eu acredito que existem (algumas questões) do capítulo econômico que deveriam ser mudadas, (como, por exemplo) que o investimento estrangeiro tem os mesmos direitos que o investimento nacional", note que aqui ele não fala mais em mudar a Constituição via Assembleia Constituinte, mas de "algumas questões do capítulo económico". Neste entendimento e para reforçar esta ideia de mudanças parciais, ele não hesitou em reconhecer que a Constituição elaborada e aprovada pela ditadura de Alberto Fujimori nos anos 90 teve certos "avanços", neste entendimento ele disse: "Há outras questões como - por exemplo - a descentralização que foram um avanço".

Este reposicionamento e a consequente moderação sistemática da agenda para a qual milhares de trabalhadores e setores populares votaram no primeiro e segundo turnos, levou setores da imprensa e até empresários a começarem a reconhecer o "talento" político e a "grandeza técnica" de Pedro Francke, neste entendimento, o jornalista Juan Carlos Tafur, que no segundo turno apoiou abertamente Keiko Fujimori, agora não poupa elogios ao referir-se ao Sr. Francke e seu reajuste programático, que ele solenemente chama de "o plano Francke"e exorta a defendê-lo por todos os meios e para isso ele propõe "que Castillo levante as bandeiras da Assembleia Constituinte" uma vez que, segundo este jornalista, seria "a única maneira de garantir que o período Francke não seja (apenas) uma mola rosa".




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