SAÚDE PÚBLICA/ LEISHMANIOSE

Perigosa doença, que pode ser letal, avança sobre São Paulo

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 8 de março| Edição do dia

A notícia é de quatro dias atrás: Leishmaniose se espalha pelo estado de SP e avança para a capital [FSP, 4/3/2018].

E, sim, novamente estamos diante de uma doença transmitida por mosquito - que pode se manifestar por uma febre de longa duração, aumento do fígado e baço e que se não for diagnosticada a tempo pode ser fatal: a leishmaniose [visceral ou cutânea].

Ela pode ser tratada, mas se não for diagnosticada a tempo, mata nove em cada dez pessoas infectadas e com sintomas importantes. Se a maioria não desenvolve a doença - ao ponto de chegar àquele estágio - é por conta de ter conseguido vencer a agressão do protozoário através da resistência biológica, de uma boa defesa orgânica que, por sua vez, depende da boa nutrição, repouso, e sol.

Não é nem preciso dizer que se trata de mais uma doença da pobreza, de privações nas condições de vida, de alimentação e repouso.

A leishmaniose vem bem recentemente avançando município a município do estado de SP, e, nas palavras do infectologista Luiz Euribel Prestes Carneiro “fatalmente chegará à capital. Do ponto de vista epidemiológico, é a crônica de uma morte anunciada. Quando olhamos a dispersão dos casos, eles vão na direção certinha de São Paulo. É só uma questão de tempo" [grifo nosso].

Como se dá?
O mosquito pica o cachorro infectado com o protozoário e, com mais uma picada, passa a doença [o protozoário] para o homem. O teste diagnóstico não é tão simples, implica em punção de baço, de medula ou de gânglios ou da pele, ou cultura do sangue coletado; e hemograma. E disponibilidade do kit e do preparo do médico para não confundir doença grave com uma febre qualquer.

O mais provável é que esta doença tenha chegado a São Paulo [que não era zona endêmica antes] por volta do ano 2000, na construção do gasoduto Bolívia-Brasil [1998]. Desde então já avançou em quase 100 municípios [15% do total]. Isso pelos registros/diagnóstico. Portanto, deve haver, seguramente, subnotificação.

No acumulado de que quase 18 anos já temos 3 mil casos só no estado de SP.
Em 2016 foram 118 casos de leishmaniose visceral com 10 mortos.
Em 2017, 121 casos com sete óbitos até 19 de dezembro.

“A transmissão predominante ainda é por contiguidade, ou seja, um município que possui o mosquito, cães ou indivíduos infectados transmite para o vizinho.
Em alguns casos, a transmissão em saltos tem explicação parecida: a pessoa se muda e leva o cão infectado para outra cidade. Ali ele é picado pelo mosquito, que, por sua vez, pica o homem” [FSP, 4/3/18].

O grande problema é que boa parte dos médicos – como não se trata de zona endêmica – não tem experiência com a doença, demora a diagnosticar. Segundo Angelo L Lindoso, médico do Emilio Ribas, é comum diagnóstico tardio na leishmaniose visceral. “Às vezes a pessoa passa oito vezes em consulta e ninguém faz o diagnóstico”, diz ele.

Um exemplo trágico ocorreu em 2016 em Guarujá.
“No final de agosto de 2016, os irmãos Carlos Eduardo, de um ano e sete meses, e Carlos Gabriel, de quatro anos, foram internados com febre e queda de plaquetas.
O menor morreu no dia seguinte, e o óbito foi registrado como ´morte natural´. Carlos Gabriel permaneceu internado, mas sem diagnóstico da doença, que só foi fechado após três meses.
´Disseram que ele tinha leucemia, depois leptospirose. Só no fim é que veio um laudo mostrando que era leishmaniose. Se tivessem descoberto a doença no início, tenho certeza de que eles estariam vivos´, diz a mãe, Ana Paula Gomes da Silva” [FSP 4/3/18].

O grande problema
Você pode ser picado pelo mosquito e existe um lapso entre a picada e o aparecimento dos sintomas, de dias ou meses, a depender se é leishmaniose cutânea ou visceral.

Na cutânea aparece uma ferida com elevação ou vem através de um nódulo endurecido. As feridas aparecem em lugares expostos [onde o mosquito picou] e podem durar meses, anos, e levar a cicatrizes permanentes. Outra variante da mesma doença, que ataca mucosas [boca, nariz], promove desfiguração facial do paciente.

Para variar, o mosquito, que é conhecido por vários nomes tipo mosquito palha, asa-dura, anjinho, cangalhinha e outros codinomes, a depender da região, nunca foi alvo, para valer, de nenhum desses governos capitalistas.

Novamente é uma doença de degradação urbana e de falta de atenção médica [inclusive capaz de realizar prontamente o diagnóstico, diante de uma febre sem explicação etc] e de uma doença de vinculada à precária nutrição, vida estressada e à exploração do trabalho.

Novamente a decadência do SUS, que nem sempre tem disponível o kit diagnóstico e os medicamentos. Mais uma vez é a dificuldade para uma consulta médica, sobretudo, vale repetir, de parte da população vitimada, a falta de de um bom emprego, salário e condições de saneamento. Quem tem dúvida de que estas são as verdadeiras causas da doença?

[Crédito de imagem: site www.saude.culturamix]




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