Educação

REABERTURA INSEGURA DAS ESCOLAS

"Peguei Covid-19, não me recuperei e estou tendo que trabalhar doente", relata professora

Uma professora da rede estadual de São Paulo relatou anonimamente ao Esquerda Diário que está sendo assediada a trabalhar doente, após ter contraído Covid-19 há menos de 14 dias. "Estou com sequelas, fraqueza, visão afetada e dor no peito", disse a professora que não quis se identificar por medo de represália da direção da escola. Essa é a realidade de muitos professores diante da imposição autoritária do governo Doria de reabertura das escolas.

quinta-feira 18 de fevereiro| Edição do dia

Foto: Agência Brasil

Sem máscaras e álcool em gel em quantidades suficientes para professores, funcionários e estudantes, sem testes massivos, sem funcionários da limpeza em quantidade adequada para todos os turnos, sem profissionais da saúde alocados para acompanhamento e sem um plano de vacinação universal para proteger a população: esse é o cenário da reabertura insegura que o tucano João Doria e seu secretário da Educação, Rossieli Soares, estão impondo.

São ao menos 740 casos confirmados de Covid-19 desde janeiro na rede de ensino do Estado, fora as centenas de casos não registrados por falta de testagem e sintomas aparentes. Ainda assim o governo do PSDB insiste em manter as escolas abertas, pois está respondendo à enorme pressão dos empresários da educação e donos de escolas particulares, pois querem seguir lucrando e precisam de uma aparência de "normalização", e de que há um controle da pandemia. Mas a realidade é tão outra que têm até mesmo propostas inseguras e mirabolantes como a de que a responsabilidade pela limpeza das escolas deve ser dos pais e alunos, e não do Estado.

Doria reabre as escolas sem nenhuma segurança também para reafirmar o seu plano de vacinação midiático, que está longe de garantir imunização sequer a todo o grupo prioritário — em um mês apenas 3,1% da população do Estado de São Paulo foi vacinada, com somente cerca 1,6 milhões de doses aplicadas, numa população que ultrapassa os 44 milhões.

O plano de reabertura inseguro de Doria e Rossieli é também autoritário, pois não levou em consideração a opinião das comunidades escolares que receiam uma volta sem condições elementares asseguradas. Professores, trabalhadores das escolas, crianças e adolescentes, bem como seus familiares estão temerosos, como ficou evidente nas manifestações ocorridas em diversas escolas da rede.

O assédio moral por parte das diretorias alinhadas ao governo tem sido outro fator de medo dos professores, que estão sendo obrigados a trabalhar mesmo doentes. Também os trabalhadores que são do grupo de risco estão sendo assediados e muitos estão voltando às escolas, por medo de ficarem sem salário ao serem afastados pelo INSS e terem que passar pela perícia do governo. Também os professores contratados, que foram jogados às dezenas de milhares nas ruas no início da pandemia, sem salários, estão sendo assediados.

O negacionismo de Bolsonaro levou o país a uma imensa incerteza em relação à imunização, com casos drásticos como o de Manaus e do norte do país. Mas a reabertura insegura das escolas paulistas mostra que Doria não é uma alternativa e que seu suposto combate à pandemia é uma mentira. Bolsonaro, Doria e os demais governadores não fazem mais do que administrar a catástrofe, sem um plano sério e sem investimentos na tão debilitada saúde pública, se embadeiram do SUS enquanto mais de 240 mil vidas foram arrancadas pelo vírus e sequer metade dos profissionais de saúde estão sendo vacinados.

Os professores são parte dos trabalhadores atacados pelo plano econômico do golpe institucional que abriu caminho à eleição de Bolsonaro. Desde 2016 são inúmeros ataques, com as reformas trabalhista e da previdência, ampliação da terceirização, privatizações e contratos de trabalho precários, além da inauguração da reforma administrativa no Estado de São Paulo, aplicada pelo mesmo Doria, que tramitará a nível nacional nesse ano, para saciar a sede de lucro dos capitalistas em crise e assegurar o pagamento da fraudulenta dívida pública.

Estão retirando os direitos dos trabalhadores em plena pandemia, aprofundando ainda mais a crise do desemprego e a fome que atinge em primeiro lugar as famílias trabalhadoras e as comunidades escolares da rede pública. E não nos enganemos, em favor desse plano econômico cruel estão unidos Bolsonaro, Doria e inclusive os ministros do STF.

Nessa situação de calamidade sanitária e social, os professores infelizmente não estão podendo contar com o sindicato. A Apeoesp não está fazendo o oposto de Rossieli e organizando discussões democráticas para articular uma mobilização efetiva da categoria. Isso levou a que a greve sanitária fosse desorganizada, com baixíssima adesão e uma manobra burocrática que impôs aos professores voltarem ao trabalho presencial sem qualquer proteção.

Veja também: Greve trabalhando? Sobre a posição absurda apresentada pela direção da Apeosp

É preciso dar voz aos professores e às comunidades escolares, são esses os únicos setores que de fato conhecem os chãos de escolas e que podem decidir quais são as condições adequadas para um retorno seguro. A Apeoesp precisa parar de negociar com o governo pelas costas dos professores e de ficar tratando as milhões de vidas envolvidas como trampolim para os interesses políticos da deputada Bebel, que mesmo sem pisar numa sala de aula há décadas é a presidente do sindicato. Somente a mais ampla democracia na base das escolas, a aliança com as comunidades e trabalhadores de outras categorias, como municipais da capital em greve, é que será possível enfrentar não só o autoritarismo dos governos, mas também lutar por condições sanitárias a um plano seguro de retorno em meio à pandemia.




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