Teoria

ENTREVISTA

Pedro Rossi: "o neoliberalismo só se sustenta no porrete".

Nessa entrevista exclusiva concedida pelo professor de economia da Unicamp, Pedro Rossi, ao esquerda diário, o professor faz um convite à todos para participarem do Encontro Nacional de Economia Política, e traz sua visão particular sobre o estudo da economia na academia, bem como isso se relaciona com o profundo período de crise política que vivemos hoje no país. O Esquerda Diário cobrirá o congresso que ocorre nos dias 30, 31, 1 e 2 no Instituto de Economia da Unicamp.

domingo 28 de maio| Edição do dia

Matheus Correia: Professor, como você definiria a SEP hoje relacionada ao ensino da economia tradicional vigente na maioria das universidades?

A SEP (Sociedade Brasileira de Economia Política) é uma instituição sem fins lucrativos que o objetivo é promover e a economia enquanto uma ciencia inerentemente social. Então é um espaço de discussão e desenvolvimento de vários corpos teóricos e vertentes que entendem a economia dessa forma. É um instituição com mais de 20 anos, consolidada no meio acadêmico.

O que une a Sep é uma crítica ao neoliberalismo, de uma maneira geral. Esse neoliberalismo, entendido enquanto uma corrente política que carrega toda uma política econômica por trás, ligada ao mainstream e à vertente da economia neoclássica. Que no fundo é um instrumento de legitimação da desigualdade social e dos privilégios. Digo isso uma vez que o ensino de economia predominante tenta nos convencer de que devemos aceitar a desigualdade social, trazendo o argumento da meritocracia ou mesmo de que o mercado trará o que cada um merece. No sentido do mercado ser um juiz que promove a justiça de acordo com a capacidade de cada um de gerar riqueza. Ou seja, para essa vertente a desigualdade é ruim, mas não é uma injustiça. Quando partimos do príncipio que o mercado é eficiente, temos como consequência que a desigualdade salarial, por exemplo irá refletir a contribuição de cada um para a sociedade. Ou seja, a ciência econômica que predomina nas faculdades e manuais nos ensina a legitimar a desigualdade. Outro ponto que ela nos ensina é de que o Estado não deve promover direitos sociais, no sentido que o Estado burocrático é quase que ilegítimo, ele tira a vontade das pessoas de trabalhar. Com quase um argumento moral, de que o Estado incentiva o ócio.

E nesse sentido, precisamos expor as pessoas ao risco e à concorrência para que as pessoas produzam riquezas. Submeter os trabalhadores ao risco do desemprego, à concorrência entre eles, a não ter nenhum tipo de segurança com relação trabalho e a não ter nenhum direito social garantido como moradia e saúde. De uma maneira de geral, o ensino de economia acaba por legimitar a desigualdade social e a retirada de direitos, com base em hipóteses e conceitos que são discutíveis.

A economia política promove uma crítica a esse conjunto de ideologia neoliberal. De uma maneira geral, a economia neoclássica diz que a riqueza é produzida individual e privadamente, e que o Estado de maneira quase ilegítima se apropria dessa riqueza. Uma visão alternativa como a do Marx, vai dizer que a riqueza é produzida de forma coletiva e é apropriada por relações de propriedade e de produção. Isso abre um campo de discussão muito maior, uma vez que traz a necessidade de estudar como essa riqueza é apropriada, se funciona essa relação de produção e propriedade e o impacto disso na distribuição de renda, etc. É uma discussão muito mais rica, uma vez que a economia tradicional naturaliza as relações sociais e nesse sentido não precisamos discuti-las, e apenas deixar com que o mercado funcione que a economia acontece por ela mesmo.

Já a economia política na visão marxista, por exemplo, ela precisa de um estudo das relações sociais, das relações de poder, das relações de propriedade e como isso vai impactar no funcionamento da sociedade. Então a economia política trás essa visão mais ampla do processo econômico e é isso que a SEP quer promover como objetivo principal.

E dentro da visão crítica que é acolhida pela Sociedade Brasileira de Economia Política tem várias vertentes e uma pluralidade de pensamentos. Como várias vertentes marxistas, vertentes Keynesianas e Kaleckianas. Além de outras vertentes do pensamento latino-americano sobre o desenvolvimento, que vão discutir as questões econômicas no âmbito de uma condição periferica, de uma subordinação ao capitalismo internacional, aos países centrais, ao imperialismo. Assim o ENEP é plural e tenta incorporar uma visão muito grande de temas, com uma perspectiva necessariamente social da economia. É isso que caracteriza a natureza do encontro.

A academia em geral caminha numa visão cada vez mais concentrada do objeto de estudo, uma fragmentação dos temas cada vez maior, com incentivos externos para que isso aconteça, como por exemplo a publicação de artigos acadêmicos condicionados pela linha editorial de revistas entrangeiras, é uma tendencia geral da academia essa fragmentação e especialização. Por outro lado, a economia politica necessariamente carrega uma visão holística, ou seja, o olhar o todo para entender como a sociedade distribui sua riqueza, produção e etc. Nesse sentido, a SEP também é um espaço de resistência, ao tratar de temas que estão sendo relegados há um segundo plano por esse conjunto de incentivos que promove essa fragmentação e especialização do pensamento econômico. Então a SEP tem essa tradição crítica e essa tradição de preservar, no campo da economia, um pensamento que entende a sociedade por processos complexos, com uma construção histórica e política.


Matheus Correia: E o ENEP nisso? Como você acha que o ENEP, que vai ocorrer esse ano na Unicamp, ainda mais na conjuntura econômica que estamos vivendo, pode se mostrar enquanto uma alternativa à economia que está colocada nas universidades tradicionais? Como pode reunir uma quantidade de economistas, um número de pessoas, que giram em volta da academia, para essa visão crítica, ainda mais em um momento de crise que estamos vivendo hoje com um governo ilegítimo?

O ENEP tem um sucesso, já antes de acontecer, inesperado, pois já são mil inscritos no evento, o que é um recorde? A comissão organizadora está olhando para esse resultado como um produto de vários fatores. Tem um clima instalado no país que é um clima de crise, que afeta todos os setores da sociedade inclusive a academia, e o campo de discussão da economia. Na academia há um certo coronelismo intelectual que tenta produzir falsos consensos. Existe meia dúzia de intelectuais de mercado que buscam afirmar questões que não são consensuais. E a SEP é uma prova disso. Estamos reunindo mil pessoas que são críticas à forma como estão sendo conduzidas as reformas, à condição da política econômica. São mil economistas, sejam estudantes ou professores, que estão querendo discutir esses temas com essas perspectivas. Acho que esse fator é importante. O outro fator é o interesse dos alunos de graduação no evento. Porque, de fato, o evento já está sendo organizado por alunos, pelo Centro Acadêmico da Economia, e também está sendo oferecido para os alunos, nas suas atividades, nos minicursos, na apresentação de comunicações já existe mais de oitenta trabalhos que serão apresentados por alunos da graduação. E estamos recebendo centenas de alunos de fora, que também provavelmente buscam espaços de discussão mais plurais do que os encontrados em suas respectivas faculdades. Esses fatores combinados irão produzir um espaço de discussão muito rico.

Matheus Correia: Por que participar do ENEP?

Olha, que pergunta difícil! Porque o ENEP irá oferecer um espaço de discussão dos temas mais importantes da atualidade, e um espaço de discussão crítico, que não se adequa aos padrões que tem sido divulgados na mídia tradicional. E vamos receber professores e intelectuais de altíssimo nível, e professores e estudantes de todo o Brasil que vão gerar um ambiente muito propício para uma troca de experiências e debate. Então, serão 4 dias de confraternização e envolvimento, discussão e debates que valem a pena para quem tem interesse no campo da economia.

Matheus Correia: Alguma consideração final professor?

Acho que podemos colocar a questão do Brasil relacionada ao evento. O evento mostra como a condução da política econômica e do debate econômico tem sido feitos de forma autoritária e de forma pouco plural. O Brasil está vivendo um período no qual um governo ilegítimo, golpista, em minha opinião, em vez de fazer uma transição, faz um governo de profundas reformas, destinadas a uma minoria, que tem como apoio a mídia e um conjunto de economistas serviçais, ou intelectuais serviçais, que defendem as agendas do mercado. Enquanto isso, a maior parte da população é contra as políticas que estão sendo produzidas, e há inúmeros estudos que mostram que essas reformas são concentradoras de renda e que vão piorar a desigualdade social e o bem estar da população. E isto sequer está sendo debatido, o que mostra um déficit democrático no Brasil.

Então, o evento, por reunir mil pessoas para discutir esses temas, com uma unidade em torno da crítica ao conjunto de reformas e políticas econômicas, é uma amostra que o processo está sendo conduzido de maneira autoritária. Vide as manifestações que tiveram, em Brasília, com bastante repressão, ou mesmo as outras como a greve geral do dia 28.

O neoliberalismo está em crise no mundo todo, e essas políticas não passariam em pleito eleitoral, o único mecanismo de sustentação do neoliberalismo é o mecanismo autoritário. Essas políticas só continuam sendo feitas com o avanço do Estado de exceção, ou seja, o neoliberalismo só se sustenta no porrete.




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