Negr@s

QUILOMBO VERMELHO

Passado e presente da vida e da luta negra nas Minas Gerais

Um legado que permanece até hoje em cada negro e negra que carrega nas veias o grito de guerra de seus antepassados revoltados contra o cativeiro.

Pammella Teixeira

Belo Horizonte

terça-feira 7 de novembro| Edição do dia

A história de Minas Gerais é marcada pela mineração, pelas cidades históricas, os quilombos e a resistência negra. É o segundo estado mais populoso do Brasil. A estimativa do Censo Demográfico do IBGE para 2017 foi de 21 milhões 119 mil e 536 habitantes, distribuídos em povoados, vilas, cidades pequenas, médias e grandes. A população ocupa espaço majoritariamente urbano, quase 75% da população mora nas cidades, e essa característica do estado tem suas raízes na política de colonização e bases econômicas relacionadas à mineração, com as quais o estado vem se solidificando há séculos.

Combinada com a vida urbana, a história de Minas Gerais também foi marcada pelo trabalho de africanos (vindos de Angola, de diversas etnias, ou importados da Bahia, pela Costa da Mina) e seus descendentes. A construção do estado e de suas vilas, minas, fazendas, estradas, etc., se deu graças à força de negros e negras escravizados no processo de colonização das terras mineiras durante o século XVIII. A extração de ouro e pedras preciosas na região de Vila Rica foi o motivo para a criação da famosa Estrada Real, que seguia até o Rio de Janeiro, em que havia não só um grande fluxo de escravos para a região das minas, como também um controle dos metais e pedras preciosas que saíam e dos escravos que entravam.

Leia também: Dia 18 de novembro nasce um Quilombo Vermelho contra o racismo e o capitalismo

Nesse período, a população negra africana compunha a maioria da população mineira. Isso porque a expectativa de vida de um negro nas minas era de apenas sete anos, o que obrigava os colonos a trazerem cada vez mais escravos para manter a “produção aurífera” e atender os interesses da Coroa portuguesa. A escravidão africana em Minas Gerais acompanhou o processo de mineração e sua decadência, já no final do século XVIII.

Os descendentes de africanos são muitos no estado. No começo, se deu pelos chamados “nascimentos ilegítimos”, frutos, em sua maioria, de estupros de negras escravizadas pelos seus “senhores” portugueses. Registros históricos apontam a proporção de 10 nascimentos legítimos para 100 ilegítimos. Fazendo com que a população mestiça e negra fosse praticamente maioria no estado. Em 1720, a Capitania de Minas Gerais abrigava cerca de 250 mil habitantes, calculando-se 100 mil brancos, 100 mil mulatos e 50 mil pretos. E em 1870, mesmo depois do fim do tráfico de escravos, ainda havia 300 mil escravos no estado.

Saiba mais: Um pouco da história dos escravos e do dinheiro produzido pelo garimpo no século XVIII foi preservado na Casa dos Contos de Ouro Preto e vale uma visita

Boa parte da arquitetura barroca de Minas Gerais também é uma herança dos negros como, por exemplo, o uso do que chamamos “pedra sabão” na construção de grande parte da arquitetura das cidades. Eram os negros e as negras que dominavam as técnicas, os instrumentos e as ferramentas específicas para trabalhar com a pedra sabão, desde o manuseio desse material na África.

A formação religiosa de Minas Gerais também teve influência da mão-de-obra escrava e traz consigo um forte sincretismo religioso que pode ser observado até hoje nas festas folclóricas de dezenas de municípios mineiros, como a festa do Rosário, e em danças como o candombe, a cavalhada e o congado, por exemplo.

Apesar de ser tão profundamente ligada à escravidão, a formação de Minas Gerais também foi marcada pela resistência dos povos africanos levados para lá. Muitos escravos se organizaram em quilombos e lutaram contra seus “senhores”, durante todo o período em que a escravidão era legalizada. Um dos quilombos mineiros mais conhecidos é o Quilombo do Ambrósio, situado na divisa entre os municípios de Campos Altos e Ibiá. Hoje, Minas Gerais possui mais de 500 comunidades quilombolas auto identificadas, sendo que 224 são reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares.

Mesmo após a abolição da escravidão, muitos negros e negras permaneceram nos territórios conquistados por seus antepassados ou ocuparam novos espaços, para fundar novos quilombos e começar uma vida mais próxima da liberdade. Assim, grande parte do território de Minas foi ocupado.

Um Quilombo Vermelho em Minas Gerais: seguir os exemplos históricos lutando contra o racismo e o capitalismo

Hoje, a luta pela terra quilombola permanece e está intimamente ligada à luta pelo acesso à água e pela preservação do meio ambiente. Os impactos das hidrelétricas e da mineração, as monoculturas de eucalipto e a especulação imobiliária são questões que as comunidades quilombolas (principalmente as rurais) têm que enfrentar. Indo em confronto direto com a sede de lucro de empresários e políticos, como ocorreu, por exemplo, no crime ambiental em Bento Rodrigues, que escancara o quanto as formas de mineração atuais só são benéficas aos bolsos das multinacionais, enquanto matam e destroem uma cidade e um rio inteiros.

Em Minas Gerais, os negros e negras também compõem a maior parte da população urbana e, consequentemente, da classe trabalhadora que deu exemplos históricos de lutas e greves, tanto na época da ditadura quanto em abril desse ano, e vêm protagonizando também a luta por moradia nas inúmeras ocupações urbanas do estado, principalmente em Belo Horizonte e região metropolitana. A juventude mineira também se coloca em luta contra toda forma de opressão do Estado racista, principalmente a juventude negra e periférica que resiste nas ocupações culturais dos espaços, no Duelo de MCs, nos slams, nas manifestações, como em 2013, e nas ocupações de escolas e universidades de 2016.

A resistência do povo negro em Minas Gerais é histórica e pode ser vista desde as áreas rurais até os perímetros urbanos, do interior do estado às metrópoles, em homens e mulheres que carregam o legado de escravos e escravas revoltados contra a condição de cativos. A população negra extrapolou os limites das áreas de mineração e dos quilombos e agora também ocupa as cidades, as fábricas e as salas de aula, em ocupações permanentes.

Devemos nos apropriar dos exemplos históricos que, desde que Minas era uma capitania, vêm sendo mostrados pelos negros e negras mineiros. Por isso, convidamos a todos os negros e as negras de Minas Gerais a se juntar a nós no Lançamento do coletivo Quilombo Vermelho, que será impulsionado pelo Movimento Revolucionário de Trabalhadores – MRT conjuntamente com independentes.

Vamos erguer um quilombo de luta contra o capitalismo não só em Minas Gerais, mas em cada local de trabalho, moradia e estudo do país, e construir, pelas mãos do povo negro, da classe trabalhadora, da juventude e de todos os oprimidos, um novo futuro livre de toda exploração e opressão.


Foto: Lançamento nacional Quilombo Vermelho, em SP. Divulgação.




Tópicos relacionados

Quilombo Vermelho   /    Racismo   /    Belo Horizonte   /    Negr@s   /    Política

Comentários

Comentar