Internacional

CRISE GREGA

Parlamento grego aprova pacote neocolonial da Troika e governo reprime manifestações

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

quinta-feira 16 de julho de 2015| Edição do dia

O parlamento grego aprovou o pacote de austeridade e submissão imposto pela Troika e negociado por Alexis Tsipras, por 229 votos a favor, 64 contrários e 6 abstenções. Dos 64 votos contrários, 32 foram de membros do Syriza, enquanto 6 desse mesmo partido se abstiveram e um esteve ausente. Outra parte dos votos favoráveis veio do PASOK, Nova Democracia, Potami, aos quais o Syriza fazia oposição. Enquanto isso, trabalhadores se manifestavam na Praça Syntagma, e eram reprimidos pela polícia do governo do Syriza .

Com isso, o governo de Tsipras fica qualitativamente debilitado e o capital político obtido após a vitória do "Não" no referendo da semana passada se esvai. Antes do fim da votação, Tsipras já havia dado declarações de que “ou estamos todos juntos, ou será difícil que eu seja primeiro-ministro”. Essa afirmação continha mais elementos de chantagem para fazer com que o acordo fosse aceito, tal como ele próprio fizera dias antes em Bruxelas quando se encontrou com Angela Merkel, que intenções reais de renúncia, ou de convocar novas eleições.

Como já foi discutido aqui, e aqui, esse acordo é um enorme ataque aos interesses dos trabalhadores e do povo grego. E após ter cruzado uma a uma das “linhas vermelhas” que demarcavam os limites que o Syriza afirmou que transporia, marca um salto de qualidade na submissão daquele partido ao imperialismo alemão e seus agentes, reunidos na Troika.

Agora o pacote deve ser aprovado pelos parlamentos da Alemanha, Finlândia, Áustria, Holanda, Eslováquia e Estônia. A França já havia aprovado o pacote antes mesmo do parlamento grego. Também está sendo debatido um empréstimo de emergência de 7 bilhões de euros, a serem ressarcidos em no máximo três meses, e que deve ser aprovado pelos 28 países da União Europeia, e não apenas os 19 da zona do euro. Esse empréstimo seria usado para pagar emergencialmente os 1,6 bilhões ao próprio FMI.

Isto é uma “emergência” para retornar a uma das instituições da Troika, enquanto os trabalhadores e o povo grego sofrem as privações do terrorismo econômico protagonizado por aquelas mesmas instituições. Trata-se de uma demonstração de como as “ajudas” dadas pelos países imperialistas e seus organismos à Grécia, visam retornar a eles mesmos, com o custo do aumento da intervenção que estão promovendo sobre a política e a economia do país. Em suma, uma verdadeira pilhagem neocolonial, aceita agora pelo parlamento grego e grande parte do Syriza.

Para onde vai o Syriza?

A aceitação desse plano, que na verdade é uma política absolutamente colonialista da Troika, e em especial da Alemanha e Angela Merkel, foi antecedida por muita tensão. Após a renúncia de diversos membros do governo, como a vice-ministra das Finanças, Nadia Valavani, veio à tona posição em que 52% do CC do Syriza colocavam que não se deveria votar favoravelmente o acordo. E membros do próprio governo de Tsipras votaram contra o acordo, tais como o ministro de Energia, Panayotis Lafazanis, o ex-ministro da Economia, Yanis Varoufakis, além dos da Assistência Social e da Defesa.

Apesar de terem declarado que o acordo seria “inaceitável”, Panagiotis Lafazanis, que dirige a Plataforma de Esquerda, por quanto não declarou que deixará seu cargo, e apesar da carta firmada contra a política apresentada por Tsipras, a maioria já declarou que por ora não tem intenção de deixar o governo. Isso demonstra a falácia da retórica utilizada por Tsipras dias antes em que buscava minimizar as diferenças entre o Syriza como organização partidária, e o bloco parlamentar e o governo.

Mas não está clara ainda a posição que a Plataforma de Esquerda tomará. O que sim pode-se ter certeza é que os próximos passos imediatos serão decisivos. Se a Plataforma de Esquerda seguir no governo, será mera ala auxiliar da implementação da política de ataques aos trabalhadores e ao povo. Essa trajetória já se iniciou quando aceitaram a coalizão com os nacionalistas dos Gregos Independente. Se seguem sendo parte desse governo por mais que discursivamente rechacem as medidas adotadas por Tsipras, será parte inseparável da falência completa desse reformismo, que agora passará a protagonizar os ataques exigidos pela Troika.

Governo do Syriza reprime manifestantes.

Essa votação no parlamento grego se deu em meio à paralisação dos trabalhadores do setor público, que atenderam a convocatória da ADEDY, central sindical do funcionalismo, contra os ataques previstos no acordo. Há que ver como responderão os trabalhadores e o povo grego quando os ajustes forem postos em prática, que como o aumento do imposto IVA podem custar 720 euros ao ano por lar, e quando sentirem os efeitos do aprofundamento da mesma política que lançou a Grécia à beira do abismo.

No dia de hoje, enquanto Alexis Tsipras defendia no interior da casa de governo a aceitação de um acordo ainda pior que os anteriores, milhares de trabalhadores, jovens e o povo grego foram duramente reprimidos pelo governo. Gás lacrimogêneo tingiu de branco o ar das ruas da emblemática Praça Syntagma, em Atenas, enquanto a polícia realizou pelo menos 35 detenções, que encarceraram parte daqueles que há uma semana haviam manifestado no referendo seu repúdio à política ratificada no parlamento hoje.

Além das bases do ADEDY, também houve uma manifestação do PAME ligado ao Partido Comunista Grego (KKE), que reuniu cerca de 10 mil pessoas na Praça Omonia, próxima à Syntagma, que não sofreram repressão. Devido à política das direções, as manifestações de trabalhadores não se deram de maneira unificada, o que poderia ter aberto um cenário de resistência superior aos planos de ataque.

Seguir as mobilizações dos trabalhadores, juventude e do povo

A experiência dos trabalhadores, da juventude e do povo grego com o Syriza está se acelerando. A humilhante aceitação do acordo deve ser tomada como o começo do fim das ilusões que essa formação política havia despertado. Cada vez se torna mais evidente que uma resposta à crise grega favorável aos trabalhadores não virá das cúpulas, mas da mobilização.

A classe trabalhadora que já protagonizou mais de 30 greves gerais deve aprofundar esse caminho e com seus métodos impor um plano de conjunto, que deve partir do rechaço ao acordo e pela anulação imediata da dívida grega. É uma tarefa fundamental que sejam apoiados internacionalmente, por todos aqueles que reconhecem que a crise capitalista foi criada pelos próprios capitalistas, e não pelos trabalhadores. E que, portanto, devem ser esses os que arquem com os efeitos da crise, e não o povo.




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