Internacional

ESTADO ESPANHOL

“Para nós as guerras imperialistas também são terrorismo”

Entrevistamos Aziz Faye, porta-voz do sindicato de vendedores ambulantes de Barcelona, após os atentados na via La Rambla e no município de Cambrils para que nos explique suas impressões depois do ocorrido.

segunda-feira 28 de agosto| Edição do dia

Nessa terça-feira, o Sindicato Popular de Vendedores ambulantes de Barcelona marchou em solidariedade às vítimas dos atentados de Barcelona e Cambrils. A marcha foi para denunciar os brutais atentados e também se manifestar contra a islamofobia e o racismo que vem aumentando nos últimos dias.

Recorrendo em silêncio os seiscentos metros que vão desde a Plaza Catalunya até o centro da via La Rambla, aproveitamos para dar voz a um dos setores mais oprimidos, brutalmente atacados pela Guarda Urbana e pela polícia e acusados, por grupos de extrema direita, de “saber algo” sobre os acontecimentos já que estavam vendendo na La Rambla.

Antes de tudo, por que vocês convocaram essa manifestação?

Como Sindicato Popular dos Vendedores ambulantes de Barcelona saímos para nos solidarizar com todas as vítimas dos atentados e com as suas famílias. Essa é a cidade onde vivemos, onde lutamos para sobreviver e qualquer coisa que acontece aqui nos afeta e nos dói.

O que você sente despois do ocorrido com respeito aos atentados? E com respeito à comunidade árabe/muçulmana?

Me sinto derrubado, mas ao mesmo tempo não quero ter medo. Sei que isso que aconteceu poderia ter acontecido comigo. Porque muitas vezes estou na La Rambla com meus irmãos. Por isso lutamos para frear o racismo e o terrorismo.

Depois dos atentados apareceram ataques e pichações em mesquitas e contra pessoas de origem árabe/muçulmana. Você acredita que a islamofobia e o racismo podem se aprofundar depois do atentado?

Sim. Hoje estamos também reivindicando que não se aproveitem dos atentados para aprofundar o racismo e a xenofobia. Há meios de comunicação e partidos políticos que se aproveitaram para criar discursos racistas e gerar ódio. Isso nós não devemos permitir.

Os grupos fascistas aproveitam a violência para argumentar e apresentar suas políticas xenófobas. Queremos que o ato de hoje sirva também como um chamado para que deixem de sujar a imagem das pessoas muçulmanas que vivem aqui e que deixem de atacar as mesquitas e agredir pessoas.

Os ataques também causaram polêmica nas redes sociais, acusando que vocês sabiam de algo sobre os atentados e que por isso não estavam na La Rambla. O que você pode dizer sobre isso?

Nós não queremos entrar em discussões que para mim são para gente ignorante. O que nós queremos dizer é que faz meses que a polícia não nos deixa vender na La Rambla. Essa é a única razão pela qual não estávamos ali e tivemos que ir a outros lugares para vender.

Queremos que não se relacione o terrorismo com o Islamismo. A maioria de nós é muçulmano e não somos terroristas. Estamos contra isso. E as pessoas que reivindicam o Islamismo e praticam atentados não são muçulmanos, porque o Islamismo não permite isso. Nada pode justificar a matança de seres humanos.

Vocês notam que o aumento da islamofobia pretende culpabilizar a população árabe/muçulmana?

Exatamente. Não têm porquê acusar alguém. Que acusem aos autores, mas os autores não são somente esses três rapazes que passaram por aqui. Também são os dirigentes políticos dos exércitos que estão nas zonas de conflito matando as pessoas.

Você acredita que o militarismo imperialista que atua no Oriente Médio é uma das causas do terror que se sofre aqui?

Sim, sim. Isso é o resultado de tudo o que está acontecendo no Oriente Médio e na África. Inclusive, se aprofundar a análise, muitas vezes as pessoas que fazem os atentados terroristas, também têm uma família que foi morta por bombas, pelas guerras que o imperialismo gerou. O ISIS não é solução, mas é consequência das guerras imperialistas. A violência nunca resolve nada.

O que aconteceu em Barcelona acontece todos os dias no Oriente Médio e na África. Essa é a mensagem que eu quero que seja entendida. É preciso lutar para frear isso, porque senão ninguém se salvará.

Você sente que há solidariedade para com a população árabe/muçulmana depois dos atentados por parte de alguns setores da sociedade?

Sim. Porque isso afeta a todos. Além de imigrantes, nós também somos muçulmanos e tudo o que afeta a sua imagem, nós recebemos. Por isso estamos dispostos a defender a liberdade de religião, de defender a todos os seres humanos e buscar uma maneira de frear a violência. Lutamos para frear o ódio e o racismo.
Recebemos solidariedade em todas as partes. Eu acredito que quando se trata de seres humanos que foram mortos, todos temos que ser um só. Lutar contra a xenofobia que segue crescendo e que as autoridades não fazem nada para frear. Não gerar mais ódio.

A grande unidade nacional com o Rei e o Governo espanhol e catalão é a “unidade” do mesmo regime e instituições que marginalizam e reprimem os imigrantes. Como você vê a manifestação convocada por eles nesse sábado?

O povo é o único que pode lutar para colocar uma pessoa que olhe pelos mais fracos. Não temos que votar em pessoas que são piores que os animais. Gente que só quer acumular riqueza e controlar o mundo.

Não sei quem vai estar na manifestação. Mas se as autoridades, os partidos políticos que estão no poder, estiverem nessa manifestação, minha mensagem vai até eles. Porque são os que dominam o mundo e são os que estão controlando tudo.
Além do mais, alguns dos que estarão presentes na manifestação de sábado são amigos da Monarquia saudita, por exemplo, com vínculos com grupos terroristas. Eu falo do Rei.

Quem financia esses grupos não sei quem são. O que eu sei é que as armas que estão sendo utilizadas para matar as pessoas em suas guerras foram fabricadas aqui. Todo o mundo deve saber que o conflito que foi aberto no Oriente Médio não foi produzido ali. Vão lá, dividem o país e cada um busca sua maneira de roubar as riquezas.

E com respeito à venda ambulante. Qual é a situação atual que sofrem os vendedores ambulantes além dos atentados?

Digamos que estamos em uma crise. Podemos dizer que a repressão física, as agressões que recebíamos por parte da polícia diminuíram, mas a perseguição que sofremos se transformou em uma ocupação territorial. Todos os lugares onde nós vendíamos agora estão cheios, com muito mais vigilância policial ocupando nossas zonas com diferentes políticas dissuasoras da prefeitura.

A verdade é que muitos de nós levamos muito tempo sem poder sair na rua. Por isso seguimos buscando mais saídas para que as pessoas possam deixar de estar na rua durante todo o dia.

Depois dos atentados, o partido Barcelona em Comú voltou a disseminar um discurso multirracial. Entretanto, vem criminalizando vocês desde sua chegada à prefeitura. O que você opina sobre isso?

Nós vendedores ambulantes somos vítimas da perseguição aqui em Barcelona. Entretanto, para nós é o mesmo que ser vítima do terrorismo, porque há muitos imigrantes que saem de nossos países pelas guerras ou pela perseguição que sofrem. Há pessoas que estão ameaçadas ou que morrem pelo sistema capitalista. E isso para nós é o terrorismo também. Terrorismo imperialista. Isso é gerar medo, retirar sua dignidade, tirar a vida de uma pessoa. Para mudar tudo isso, é preciso lutar.

Então se pode dizer que vocês também são vítimas?

Claramente. E além disso, o dano que o sistema está nos provocando também nos leva à morte. Se não se resolve esse problema nós acabaremos mortos também.




Tópicos relacionados

Imigração   /    Europa   /    Internacional

Comentários

Comentar