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Páginas do diário de Frida Kahlo

Railin G

Páginas do diário de Frida Kahlo

Railin G

Na última semana comemoramos os 114 anos de Frida Kahlo y Calderón e há três anos atrás eu ganhei o seu diário intitulado “O diário de Frida Kahlo: um autorretrato íntimo” que é um grande acervo sensível e pessoal de escritos e desenhos feitos por ela, para ela e mais ninguém, mas que se encontra nas estantes de milhares de pessoas pelo mundo todo e hoje trarei alguns escritos da artista em seu diário.

Eu demorei para ler o diário, é um tanto difícil para mim encarar tamanha exposição de alguém, uma artista que já não se pertence mais e tudo que Frida já fez virou produto, até mesmo seus escritos e desabafos pessoais estão sendo vendidos, além de seu rosto que está estampado por tudo. Porém, também é interessante conhecer um pouco mais de Frida Kahlo, ir no profundo dessa mulher exposta e sentir um pouco do que sentia, mas nem tudo é lindo, todas suas contradições e chagas também se encontram a céu aberto.

Os olhos de Frida

Gosto de refletir sobre os olhos, acho um tanto poético e silencioso pensar sobre essa parte do corpo, olhar as fotos e os quadros da Frida sempre foi uma experiência sentimental pra mim. Fico me perguntando se eles eram capazes de guardar algo que suas mãos não diziam ao papel, se aqueles dois pequenos olhos teriam algum segredo a contar, como foi se ver no espelho tanto tempo na mesma posição quando se acidentou? Deitada na cama e olhando para a única coisa que sempre esteve com ela, que é ela mesma. Como foi olhar para as manchas que vivem e ajudam a viver? Tinta, sangue, cheiro. Sério, o quão perturbador foi ter os olhos de Frida? Seus olhos só viam Diego?

Na página 29 e 30 de seu diário, tem uma carta que ela escreveu para uma mulher que foi embora em um barco e Frida sente sua falta. Frida Kahlo era bissexual e casada com Diego Rivera, a relação de ambos era cheia de contradições que se expressavam de diversas formas, a relação deles não era monogâmica, ao mesmo tempo que existe relatos em que Diego assediava Frida psicologicamente sempre que a mesma se relacionava com outros homens, e isso não ocorria quando ela se relacionava com outras mulheres, mas mesmo assim, não existia nenhum tipo de liberdade para Frida nessa relação. Nessa carta, isso aparece um pouco:

"Também sabes que tudo que meus olhos veem e que tudo o que em mim mesmo toco, de todas as distâncias, é Diego. A carícia das telas, as cores, os fios, os nervos, os lápis, as folhas, o pó, as células, a guerra e o sol, tudo aquilo que se vive nos minutos dos não relógios e dos não calendário e dos não olhares vazios, é ele."

Ao mesmo tempo que ela dizia para essa mesma mulher:

"Desde que me escreveste, naquele dia tão claro e distante, quis explicar-te que não posso fugir da minha vida, nem regressar a tempo ao outro tempo. Não te esqueci - as noites são longas e difíceis. A água. O barco e o cais e a partida, que te foi fazendo tão pequena aos meus olhos, encarcerados naquela janela redonda, que olhavas para me guardar em teu coração. Tudo isso está intacto. Depois, vieram os dias, novos de ti. Hoje, gostaria que meu sol te tocasse."

São dezenas de escritos em que Frida endeusa Diego, fala como se ele fosse o ser mais esplêndido e único da vida, porém é triste saber que ela passou tantos anos enclausurada em uma relação que a prendeu dentro de si mesma.

Sem esperança (1945)
Sem esperança (1945) Quadro: Sem esperança (1945)

Você já percebeu que ela está sempre olhando nos seus olhos? Não importa o que está acontecendo, ela está lá, te olhando. Pode ser que esteja vomitando tudo que guarda dentro de si enquanto segue deitada na cama engessada e sem muita autonomia, mas ela segue te olhando fundo. Isso, para mim, faz da Frida a mais viva das vivas, impossibilitada de morrer e eternizada nos seus olhos de quem pede algo.

A Frida e o comunismo

Frida não é conhecida somente por ser artista visual, mas também por ser comunista, a mulher que pintou o símbolo do comunismo gigante em seu peito engessado após cirurgia. Ela entrou em 1928 para o Partido Comunista de México, onde Diego também era filiado, apesar de ter sido expulso do partido em 1929 por ter se aproximado das ideias de Trótski, entre outros motivos. Em uma de suas declarações, Frida diz:

A emoção clara e precisa que eu guardo da Revolução Mexicana foi a base para que aos 13 anos de idade eu ingressasse na juventude comunista [do partido comunista mexicano]

Ao longo da vida a pintora escreveu e pintou muito sobre a libertação da humanidade. Ela não se considerava surrealista, André Breton chegou a dizer que as obras de Frida eram sim surrealistas, porém a pintora dizia detestar o surrealismo. Ao final de sua vida, em 1952, Frida declarou que para ela o surrealismo nada mais era do que a manifestação decadente da arte burguesa, uma visão bastante influenciada pela imposição contra revolucionária de Stalin que tornou o realismo socialista como estética oficial do regime soviético em 1934, o que também se tornou a estética-política oficial de todos os PCs.

Alguns críticos tentaram me classificar como surrealista; mas eu não me considero surrealista. (…) Eu detesto o surrealismo. Pra mim, parece uma manifestação decadente de arte burguesa. (…) Eu quero que minha obra seja uma contribuição para a luta das pessoas em seu esforço pela paz e a liberdade.

Frida também dizia que não pintava sonhos, mas sim sua própria realidade. Na página 65 do seu diário, ela escreve:

"Quem diria que as manchas vivem e ajudam a viver? Tinta, sangue, cheiro. Não sei que tinta usar qual delas gostaria de deixar desse modo o seu vestígio. Respeito-lhes a vontade e farei tudo o que puder para escapar do meu próprio mundo.
Mundos cobertos de tinta - terra livre e minha. sóis distantes que me chamam porque faço parte de seus núcleos. Tolices. O que eu poderia fazer sem o absurdo e sem o efêmero? 1953 há muitos anos compreendo o materialismo dialético."

Em seu diário, a intrínseca ligação da arte e da revolução também se faz presente. Na página 95, diz:

"A revolução é a harmonia da forma e da cor
e tudo se encontra e se move sob a mesma lei
= a vida =
Ninguém está a parte de ninguém.
Ninguém luta por si mesmo.
Tudo é todos e é um
A angústia e a dor, o prazer e a morte
nada mais são
do que um processo
para existir
a luta revolucionária
nesse processo
é uma porta
aberta para inteligência."

Página do diário de Frida
Página do diário de Frida Página do diário de Frida

Infelizmente Frida não seguiu o marxismo revolucionário, mas sim a tradição stalinista que destroçou a luta pela libertação total da humanidade, levada a frente pelos bolcheviques que foram mortos e perseguidos por Stálin. Em um dos exílios do dirigente do exército vermelho, o revolucionário Léon Trotsky e Natália Sedova estavam fugindo da perseguição sangrenta dos stalinistas e foram recebidos no México, na casa de Frida e Diego.

Frida relata que reconheceu o erro de Trotsky quando ele chegou no México, porém nunca disse qual, e colocava Marx, Lenin, Engels ao lado de Stalin e Mao Tsé como os pilares do novo mundo, porém a realidade e a compreensão da história nos mostra outra verdade. Stalin nada tinha a ver com a continuidade do marxismo revolucionário, pelo contrário, foi um grande organizador de derrotas da classe trabalhadora, parte da degeneração do marxismo. Frida, apesar de se considerar marxista e acreditar na revolução, depositou sua confiança política em uma estratégia que aniquilou a vanguarda da revolução de 17, como Léon Trotsky, e que traiu revoluções pelo mundo, assim como a própria URSS.

Frida foi a vida toda muito doente. Foi submetida a 22 cirurgias, viveu uma série de abortos espontâneos, teve poliomelite na infância que deixou uma lesão irreparável na sua perna e disse que por isso nunca realmente foi útil ao PCM. Porém, podemos dizer hoje que Frida sublimou muito bem através da sua arte, como o marxismo é a única saída para a humanidade, e seguirá viva em nossas memórias com esse legado. Mais de 100 anos depois, Frida ainda é símbolo da luta contra o sistema que tanto a oprimiu e oprime mulheres até hoje. Apesar de ter sua trajetória revolucionária frequentemente apagada, assim como suas contradições escondidas, para que seja mais palpável a venda de suas imagens pelo lucro capitalista, Frida nos lembra que a libertação humana não é descolada de uma luta anticapitalista, que dê fim a esse sistema, para que seja possível a completa emancipação da arte, das mulheres e de toda a humanidade.

O marxismo dará saúde aos doentes (1954)
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Railin G

Coordenadora do Centro Acadêmico Dionísio do Teatro/UFRGS
Coordenadora do Centro Acadêmico Dionísio do Teatro/UFRGS
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