Internacional

NEGOCIAÇÕES PARA FORMAR GOVERNO

Pablo Iglesias a Pedro Sánchez: “olhe mais à sua esquerda do que à sua direita”

É evidente que entre Unidos Podemos e PP não há nenhuma possibilidade de acordo para a candidatura de Rajoy. Ainda assim, Pablo Iglesias sentou-se com Rajoy na tarde de terça-feira para reafirmar sua negativa ao presidente em função. A nomeação foi um trâmite, porém as declarações posteriores de Iglesias se voltaram com sua localização a Pedro Sánchez para que tome iniciativa e tente formar um governo progressista. Para Iglesias, há uma alternativa ao PP se os socialistas olham “à sua esquerda”.

Diego Lotito

Madri | @diegolotito

quinta-feira 14 de julho de 2016| Edição do dia

Foto: EFE/Kiko Huesca

A tática do líder roxo é puro discurso, mas tem o objetivo de aumentar o custo de uma possível abstenção do PSOE para que Rajoy siga na Moncloa, como exige não apenas o PP, como também alguns pesos pesados de seu próprio partido.

Por ele, Iglesias se encarregou de profetizar que, se o PSOE se abstém para que Rajoy siga governando, será “um sócio mais ou menos intenso” do PP e que o Unidos Podemos assumirá o papel de “leal” oposição.

“Sánchez deve escolher entre Rajoy, uma alternativa de esquerda ou terceiras eleições”, advertiu Iglesias. “Em política, não é possível uma coisa e sua contrária. O PSOE tem que escolher”, enfatizou o líder do Podemos.

Para Iglesias, Sánchez deveria olhar “mais à sua esquerda do que à sua direita”, advertindo que se Rajoy segue na Moncloa graças a todos ou a uma parte dos votos socialistas, será “muito difícil explicar que é oposição ao mesmo tempo em que facilita a candidatura” do candidato do PP.

O PP, por sua vez, emitiu um comunicado ao término da reunião de Rajoy com Iglesias, explicando que o presidente em função reiterou a Iglesias “a imperiosa necessidade de evitar que voltem a se repetir as eleições, a urgência de contar com um governo que aprove em agosto o teto de gasto para as administrações e inicie os trabalhos para a elaboração dos orçamentos e a conveniência de ter um horizonte de estabilidade capaz de gerar confiança dentro e fora da Espanha”.

O comunicado termina assegurando que, apesar das “profundas diferenças ideológicas” que separam o presidente em função do líder do Podemos, agradece a “disposição ao diálogo” do líder do Unidos Podemos “em benefício de todos os espanhóis”.

“Se o senhor Rajoy se ligasse ao Podemos, melhor seria nossa relação, mas creio que isso não é possível”, brincou Iglesias na Cadena Ser após a reunião.

A verdadeira notícia da reunião do líder de Podemos com Rajoy foi, definitivamente, sua “nova” oferta a Sánchez para explorar um governo alternativo que ninguém vê possível. E isso é assim, tanto pelo nível de enfrentamento que houve entre ambas as organizações durante as negociações pós-20D - ainda que Iglesias se encarregou amplamente de suavizar seu discurso e ganhar a aprovação dos sociais liberais -, como porque um acordo iria requerer necessariamente o respaldo de forças nacionalistas catalãs e bascas, algo muito improvável de o PSOE aceitar, um fiel defensor da sacrossanta “unidade da Espanha”.

A oferta de Iglesias a Sánchez, não obstante, reflete não só a tentativa de fazer mais custosa qualquer decisão do PSOE, localizando Podemos, assim, como a “verdadeira oposição” de Rajoy, como também de seguir no centro dos debates políticos e não ficar marginalizado na nova fase de negociações, nas quais obviamente Unidos Podemos cumpre já um papel secundário em comparação com o que teve depois do 20D.

Com a disposição à abstenção por parte de Ciudadanos, como ratificou Rivera em sua reunião com Rajoy nessa mesma terça-feira, não está descartado que o PP possa encontrar alguma “solução” para ser investida sem o concurso de todo o PSOE. Contudo, seja como for, o governo que surja sofrerá de uma extrema debilidade.

Como dizíamos em outro artigo do ED, uma nova expressão das “dificuldades desse regime para ricos para formar um governo ’estável’ que siga cumprindo as obrigações da Troika e siga garantindo os benefícios empresariais às custas dos trabalhadores e trabalhadoras”.

Nesse cenário, é de se esperar que nos próximos meses se expressem novas crises “por cima”, que podem dar lugar a um ressurgimento da “crise por baixo”.

Tradução: Vitória Camargo




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