Política

POLÊMICA NA ESQUERDA

PSTU e Luciana Genro se unirão num mesmo partido?

Surge um novo partido morenista no Brasil?

Daniel Matos

São Paulo | @DanielMatos1917

sexta-feira 25 de março de 2016| Edição do dia

É notável a semelhança entre a política e os argumentos do PSTU e do MES (corrente de Luciana Genro dentro do PSOL) frente à crise política que atravessa o país. Ambos escrevem notas para os pequenos círculos da esquerda dizendo que são contrários ao impeachment porque um governo de Temer com o PSDB seria tão ou mais ajustador e corrupto que o governo Dilma. Mas depois vemos Luciana Genro tratar a Lava Jato como uma solução quase anticapitalista. Ao mesmo tempo em que os sindicatos dirigidos pelo PSTU e a Conlutas fazem um pequeno ato na GM de São José dos Campos defendendo o “Fora Todos”, mas sem falar uma palavra em oposição ao impeachment e Sérgio Moro.

No lugar do impeachment (ou complementar a ele?), as duas correntes defendem novas eleições gerais como o grande elixir para a crise. Os morenistas liquidaram a política de classe para dividir o país em “honestos” e “desonestos”? Será Marina Silva a líder da “revolução democrática” (ou “revolução política”, como disse Luciana Genro)? Seguiram os passos de Heloisa Helena que alguns anos atrás era a candidata preferida do MES e do PSTU, e que com uma política como essa foi parar muito longe da esquerda?

Divergência tática

A única diferença séria que se expressa hoje entre o MES e o PSTU está na tática para alcançar as eleições gerais. O MES defende já diretamente uma emenda constitucional que institua um plebiscito para a revogação de mandatos, num projeto de lei apresentado recentemente no Congresso pela Rede de Marina Silva. O PSTU, por sua vez, ainda não declarou adesão a essa proposta. Diferentemente, defendem uma curiosa “greve geral” para conseguir as eleições gerais.

O que não ficou claro ainda é se nos planos do PSTU para preparar sua greve geral está incluída uma possível unidade de ação com a FIESP ao estilo da unidade na ação que defenderam com as bombas e tropas terrestres da OTAN na Líbia para derrubar Kadafi. A FIESP e a Força Sindical não estariam contra “todos”, e sim pelo impeachment de Dilma. Mas seria um “mal menor” que quiçá estejam dispostos a tolerar, já que a “greve geral” de que falam não vai muito além de seu site (que por sinal se atualiza de vez em nunca).

Mas essa divergência tática momentânea, caso avance o projeto de Marina Silva, pode resultar complementar. No final das contas, o PSTU estaria aportando seu pequeno peso sindical para ampliar com camadas mais operárias e populares a base social da direita, por agora concentrada na classe média alta e acomodada.

A dúvida que fica pendente é se no caso da aprovação do plebiscito revogatório o PSTU e o MES buscariam as assinaturas junto com Kim Kataguiri e os delegados da Polícia Federal; ou se formariam brigadas independentes de cor vermelha.

Entre a Síndrome de Estocolmo e a fobia infantil

O PSTU e o MES se defendem das críticas denunciando o fantasma propagado pelo PT de que estaria em curso um golpe militar. Com medo de serem confundidos com o PT, consideram legítimo que o poder judiciário atue em comum com a grande imprensa e a oposição de direita para remover um governo de conciliação de classes ao arrepio dos direitos democráticos mais elementares.

Ou seja, a direita já não é mais tão de direita; e o PT já não é mais um governo de conciliação de classe: tudo passou a ser uma coisa só, homogênea (como dizem: “duas caras de uma mesma moeda”, ou “farinha do mesmo saco”). O problema é que falsificar a realidade não faz a existência mais fácil, pelo menos não em política, um terreno em que confundir “navio” com “banana” pode ser perigoso.

O diagnóstico: algo entre uma “Síndrome de Estocolmo” da direita, que de tanto serem golpeados parece ter provocado alguma admiração nos morenistas; combinado com uma fobia infantil do petismo, ao qual depois de tanto tempo de submissão parece que precisam evitar ao máximo o contato, para não provocar contaminações. Assim, deixando a burocracia sindical cutista de mãos livres para atuar, cumprem um papel essencial na preservação do poder do PT junto às suas bases, justamente quando este poder está questionado e em crise. Como o papel da CUT em impedir que os sindicatos lutem é decisivo para o fortalecimento da direita, aqui novamente o PSTU e o MES prestam um enorme favor ao PSDB, à Globo e ao “Partido Judiciário”.

A consequência é que o MES e o PSTU tratam como parte “normal” dos métodos da democracia burguesa que o poder judiciário viole os direitos democráticos elementares não somente dos pobres e negros nas favelas mas agora inclusive de Lula (que apesar do que nós consideremos, ainda segue sendo a principal referência política para amplos setores populares). Consideram igualmente “normal” que um bando de parlamentares fichados na polícia utilize essa situação para depor o governo do PT por motivos que justificariam a deposição de todos os governos do PSDB, PMDB etc.

É compreensível. Se o PSTU e o MES trabalhassem com a categoria de “golpe institucional” (também conhecido como “golpe branco”, “golpe judicial” ou “golpe parlamentar”) entrariam em curto-circuito. Se considerassem que por mais direitista que seja o governo do PT, por mais corruptos e ajustadores que sejam Dilma e Lula, ainda assim a ofensiva da Globo, do PSDB e de Moro buscam impor um “projeto de país” de ataques ainda maiores à classe trabalhadora, entrariam num terreno muito complicado. Teriam que explicar que existem algumas diferenças entre os distintos projetos capitalistas em disputa. E isso quiçá seria muito complexo para eles. Muito além do risco que correriam de, denunciando o golpismo institucional da direita, serem associados ao PT.

Não queremos que nossos companheiros se vejam numa situação difícil como essa.

Mas olhando do ângulo dos operários conscientes, (e não contaminados pela emoção dos pequenos burgueses histéricos) fica mais fácil compreender por que tanto esforço do PSTU em amalgamar as caracterizações e a política do MRT com a dos petistas. Para eles, nossa denúncia ao golpe institucional, num mesmo parágrafo, se transforma magicamente no discurso petista de “golpe militar”. Como todo aquele que faz amálgamas, não podem mostrar uma só linha onde nós falemos do suposto golpe militar que nos imputam. Além disso, nossa política de Assembleia Constituinte Livre e Soberana imposta pela mobilização das massas é criativamente interpretada como “Fica Dilma”. Sem amálgamas desse tipo seria mais difícil esconder, por trás de sua crítica ao PT, o efetivo seguidismo à direita. Teriam que responder por que preferem uma política de direita a uma política operária independente como a que levantamos.

No final das contas, em defesa do impeachment

O delírio é tamanho que em seu grande argumento “matador” dizem que considerar a ofensiva atual da direita como um golpe institucional significaria afirmar que Collor teria sido vítima do mesmo tipo de golpe. Espanta a incapacidade de diferenciar um processo de mobilização popular progressista com a consigna “Fora Collor”, oposto a um governo que começava a implementar o neoliberalismo sem suficiente base de apoio social; e por outro lado a atual tentativa de apoiar-se sobre as classes médias acomodadas para depor um governo que, por mais impopular que seja, ainda guarda um relação com os sindicatos.

É incrível como reivindicam sem nenhuma crítica o impeachment que levou Collor a renunciar. Este processo permitiu lavar a cara dos partidos patronais como PMDB e o PSDB (com o silêncio cúmplice do PT) para um projeto muito mais abertamente neoliberal com o governo de Itamar Franco, que teve como ministro da economia a Fernando Henrique Cardoso e impôs o neoliberalismo com mais força que a tentativa prematura de Collor. Ainda nesse caso, onde as massas intervieram progressivamente, o “impeachment” que o obrigou a renunciar permitiu reunir forças maiores para aplicar o mesmo plano em seguida.

A “teoria” da revolução democrática de aliar-se com qualquer um para derrubar o governo de plantão levou a esquerda naquele momento a ser funcional aos que buscavam uma solução neoliberal mais forte. Hoje é ainda muito pior, já que o que se derrubaria seria um governo de conciliação de classes de um partido operário-burguês. Seja na variante do “velho regime” (Temer-PSDB) ou em uma variante “nova” com Marina Silva à cabeça, resultará em um governo mais abertamente anti-operário e anti-sindical. Se o impeachment contra Collor foi o desvio de uma mobilização popular por parte dos capitalistas, o atual significa aliar-se diretamente aos capitalistas desde o começo.

O que já nem mesmo provoca espanto mas sim lástima é ver gente inteligente comparando o “que se vayan todos” na Argentina de 2001 com as marchas que embelezaram Sérgio Moro no dia 13/03. Na Argentina, a classe média havia sido expropriada pelos bancos. Isso criava um ódio que a fazia confluir não somente com os trabalhadores, mas também com os desempregados. A consigna era “piquete y cacerola, la lucha es una sola”. Alguém pode crer que na Paulista do dia 13 a classe média teria gritado “nossa luta e a dos negros e pobres das favelas é uma só”? Como dissemos, um verdadeiro delírio que não consegue diferenciar um fenômeno de esquerda de um de direita.

Ao invés de ter uma política independente, o MES e o PSTU, ainda que criticando os “excessos”, preferem deixar (ou diretamente pedir no caso de Luciana) que Moro dirija as investigações também contra o PSDB. Preferem colocar seus (poucos) parlamentares e seus (poucos) sindicatos a serviço de uma política que é funcional ao golpismo institucional da direita. O resultado é que fica pairando no ar a dúvida: a esquerda tem que colocar-se sob a direção de Sérgio Moro ou de Marina Silva?

Não esqueçamos que isso é traduzir ao português a política que defenderam no Egito, onde aplaudiram a derrubada do governo da Irmandade Mulçumana pelos militares que davam continuidade à ditadura de Mubarak, pedindo que os membros desse partido (que tinha milhões de simpatizantes e militantes) não fossem condenados à morte e sim “apenas” à prisão.

Uma reunificação dos morenistas?

A única explicação plausível para tamanha deriva estratégica é que não estão preocupados de fato em como os trabalhadores e a juventude possam dar uma saída pela esquerda para a crise, mas sim em sua preparação para as eleições municipais de outubro.

Mas chamamos os companheiros a refletirem seriamente aonde vão no atual cenário sul-americano de fortalecimento superestrutural da direita. Se seguem atuando como quinta roda dos “gusanos” cubanos em Miami, dos esquálidos na Venezuela e dos tucanos no Brasil... onde vão parar? Vão ser o “último vagão” de Macri na Argentina também? Nesse país é mais difícil porque tem a Frente de Esquerda com o PTS à cabeça, que instala uma posição de independência política dos trabalhadores com peso nacional a partir do qual todas as demais correntes da esquerda são obrigadas a se balizar. Mas não seria algo de todo estranho tendo em vista que os amigos do MES nesse país ficaram (des)conhecidos por sua aliança com a direita latifundiária na crise de 2008. Na Argentina também houve em 2012 e 2014 panelaços onde participavam centenas de milhares de pessoas “contra a corrupção” do governo dos Kirchner, e a ninguém da esquerda ocorreu a ideia de participar, ainda que os morenistas, que são pequenos grupos na Argentina opinavam que essas marchas eram “contraditórias” e não se atreviam em denunciar que eram abertamente reacionárias.

Há quem diga que a debandada de militantes, quadros e dirigentes do PSTU para o PSOL nos últimos meses já é parte de uma negociação com o MES. Esta poderia ser de índole tática, visando apenas as eleições de outubro; ou até mesmo ter dimensões mais estratégicas, com a possibilidade de se unirem num mesmo partido, caso as alas mais petistas do PSOL queiram se separar das sensibilidades mais flexíveis à direita. A CST (ou suas duas partes), como integrantes da família morenista, poderiam fazer parte do empreendimento. Para o PSTU, seria uma via de voltar à existência depois de seu desbarranque eleitoral em 2014 e das derrotas sem luta na GM de São José dos Campos.




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