Teoria

DEBATES NA ESQUERDA

PSTU: Discurso vermelho para encobrir adaptação à democracia burguesa

Quando um partido erra de forma tão grosseira quanto o PSTU errou durante todo o episódio do golpe institucional, é natural que surja a tentação de querer “virar a página” aproveitando as modificações posteriores na situação política.

Edison Urbano

São Paulo

quinta-feira 1º de junho| Edição do dia

Foto: Reprodução/Facebook

O problema é que os erros do passado continuam a atormentar a política do presente, quando não são reconhecidos, chamados pelo nome e superados pela raiz. Por isso é que Lenin, o maior construtor de partido que a história revolucionária conheceu, insistiu tanto nessa ideia ao longo de toda a sua vida.

Porém longe de se autocriticar pela política de adaptação à Lava Jato e ao impeachment, o PSTU segue seu caminho de sindicalismo “apolítico” por um lado, e por outro de adaptação aos “opositores da vez” no terreno político. Com um discurso aparentemente revolucionário e vermelho, tenta mascarar uma política sem norte, de adaptação permanente à burocracia sindical, e que no terreno político oscilou entre a adaptação, ano passado, à direita golpista, e agora ao petismo na oposição.

Da adaptação aos golpistas à adaptação ao petismo

Na época do golpe institucional, a política do PSTU se adaptou sem nenhuma vergonha aos golpistas, tanto os engravatados da “república de Curitiba” e da Rede Globo, quanto os “descolados” do MBL e do Vem Pra Rua – com os quais compartilhava inclusive a palavra de ordem central de “Fora Todos”. Na prática, o PSTU comemorou o impeachment protagonizado pela corja de inimigos do povo de Brasília como uma espécie de primeiro passo, limitando-se a dizer que “era insuficiente” e que “trocava seis por meia dúzia”. É certo que o partido nunca chegou ao extremo do MES de Luciana Genro, que gritava “Viva a Lava Jato” enquanto essa operação cumpria o duplo papel reacionário de fortalecer o autoritarismo do Poder Judiciário e de favorecer a penetração imperialista ainda mais esmagadora no país – via enfraquecimento dos maiores monopólios “nacionais” como Petrobras, Odebrecht e JBS-Friboi. Mas essa diferença de tática é secundária, já que ambos escolheram estar, estrategicamente, ligados à locomotiva golpista.

Como já prevíamos então, uma vez consumado o golpe institucional, o PSTU em sua lógica simplista (“objetivista”), iria passar a se aliar aos petistas agora na oposição, para combater “o governo de turno”. A chave para decifrar esse enigma é muito simples: o PSTU abandonou os pressupostos necessários para uma estratégia proletária independente. Caminham de tática em tática, à deriva e à mercê de quem esteja à cabeça da “mobilização das massas” em cada momento.

Uma ‘Frente única diplomática’ com a burocracia sindical

A contrapartida para essa total falta de personalidade política – que vai muito além dos resultados eleitorais desastrosos, mas que sim, se expressa também neles – é a adaptação sindicalista à burocracia traidora das grandes Centrais. Uma adaptação que, no caso do PSTU, vem de longe, mas que deu um salto depois de Junho de 2013.

Seria absurdo acreditar que são as palavras conciliatórias ou os gestos diplomáticos que obrigam à ação os dirigentes de Centrais como CUT e CTB, e nem falar da Força Sindical, UGT e companhia.

As importantes paralisações nacionais de 15/3, e especialmente 28/4, estão longe de expressar um “triunfo da diplomacia” entre os dirigentes sindicais, como querem alguns. Ao contrário, mostram que, mesmo tentando conter e adiar ao máximo a luta de classes, a “guerra aberta” que a burguesia declarou contra os direitos históricos dos trabalhadores obrigou mesmo os burocratas mais resistentes a ter que fazer alguma coisa, sob pena de serem atropelados.

No entanto, o PSTU, que tem um papel dirigente na CSP-Conlutas, insiste naquela visão que privilegia a “diplomacia sindical”.

Mesmo depois do papel das direções tradicionais no ato de Brasília em 24/5, Zé Maria em seu artigo de balanço não apenas não critica abertamente essas direções, mas literalmente “passa o pano” para esses dirigentes.

Para espanto de todos que estiveram lá ou acompanharam vivamente a ação, diz Zé Maria:

“Na verdade, da mesma forma que aqueles operários nos anos 1970 e 80, os manifestantes que estiveram em Brasília e enfrentaram a truculência policial para defender seus direitos – não só os milhares de trabalhadores, trabalhadoras e jovens da CSP-Conlutas, mas também os da Força Sindical, da UGT, da NCST, da CUT, da CTB que participaram da resistência – estão de parabéns.”

Mais ainda, Zé Maria diz que todos esses setores, além de “estar de parabéns”, são um “exemplo a ser seguido” e deram uma “linda demonstração de disposição e determinação”. Claro que um militante do partido dirá que ele fala “dos trabalhadores da base dessas centrais”, mas a ausência de qualquer nota crítica ao papel concreto das direções traidoras no terreno, mostra que aqui o objetivo central permanece sendo a diplomacia. O que é uma pena, pois o episódio poderia ser uma chance ímpar de afirmar a CSP-Conlutas como uma alternativa para setores de massas, e não só para quem estava lá e sabe que as coisas “não foram bem assim”, já que as centrais abertamente se negaram a qualquer tipo de resistência mínima à repressão e até a condenaram publicamente.

Debate de estratégias...

Recentemente, o dirigente histórico do PSTU, Eduardo Almeida, assinou um editorial com o sugestivo título: “O momento é de ações unitárias e de debater as diferenças estratégicas”.

Depois de falar algumas frase gerais sobre a necessidade da unidade de ação contra as reformas (algo que ninguém ousaria questionar), Eduardo Almeida afirma:“Nesses dias se enfrentam duas políticas diferentes. Mesmo no marco da unidade de ação, é preciso debater essas estratégias.”

E segue: “De um lado estão aqueles aferrados aos governos petistas e ao bloco lulista de hoje. Esses defenderam o governo Dilma, disseram que as denúncias de corrupção e a sua derrubada foram um “golpe” que expressava uma “onda reacionária”, um giro à direita na realidade política.”

Eduardo Almeida, em sua simplificação um tanto desesperada, acaba tendo que igualar o PT e o PSOL... e fingir desconhecer a existência não somente do MRT, mas inclusive do MAIS, apesar de que esse grupo represente a ruptura de algo próximo à metade das fileiras do velho PSTU.

“Em essência, eles defendem uma saída eleitoral. Basta defender “Lula 2018” ou “Chico Alencar 2018” e tudo estará resolvido”

Mas qual é a saída política proposta pelo PSTU então?

Apesar das aparências, a verborragia esquerdista de Eduardo Almeida, com todo seu ímpeto “anti-eleitoral”, termina mais uma vez em... Eleições Gerais. Uma política que mais do que nunca favorece o petismo e a aplicação "à sua maneira" dos ajustes contra os trabalhadores e o povo pobre.

É a Zé Maria, a figura pública operária do partido, que cabe ter que defender semelhante política em seus discursos e também em vídeo: “Se na falta de uma alternativa melhor nesse momento, tivermos que recorrer às eleições, vamos recorrer às eleições gerais: presidente, senador, deputado, governador, dar a oportunidade ao povo de trocar todo mundo (... ) Não fica melhor assim?” [vídeo de Zé Maria, destaque para o trecho em 1m20s]

Eis o “xis” da questão. Toda a propaganda vermelha do PSTU sobre os “conselhos populares” e os “operários ao poder” não cumpre outro papel que o de cobertura a uma política totalmente adaptada ao regime democrático burguês e ao PT. Em outras palavras, se a corrente de Zé Maria fosse uma corrente meramente sindical, nossa crítica se assemelharia à critica dos revolucionários bolcheviques às correntes “sindicalistas revolucionárias”, que se negavam à atuar no campo político. Porém o PSTU não é uma corrente sindical, apesar de atuar como se fosse. É um partido político, e por isso sua adaptação à política burguesa não é apenas uma (perigosa) insuficiência, é uma decisão consciente, baseada numa estratégia e numa teoria que já se mostraram erradas uma e várias vezes.

... ou uma tentativa desastrada de encobrir a capitulação ao golpe?

Vejamos o que Eduardo Almeida tem a dizer na tentativa de definir o seu próprio bloco político, no artigo já citado:

“De outro lado estão aqueles que, como os militantes do PSTU, defenderam Fora Dilma, Fora Temer, Fora Todos [esqueceu de citar: como o MBL e o Vem Pra Rua, etc]. Estão aqueles que não apoiaram o governo burguês e corrupto de Dilma. Os que diziam que o impeachment não era solução porque a alternativa seria colocar Temer pela via indireta, trocar seis por meia dúzia. Mas que estavam a favor de sua derrubada pelo movimento de massas” [esqueceu de dizer: pelas massas trabalhadoras, ou pelas “massas verde-amarelas” da Casa Grande?].

A diferenciação superficial, manipuladora, que Almeida tenta colocar se resume a dizer:

“não achamos que elegendo Lula ou Chico Alencar vamos resolver os problemas do país. Porque as eleições são controladas pela burguesia, como a trágica história do PT demonstrou. Nós apostamos na mobilização de massas, na organização dos comitês pela base, na Greve Geral para ir construindo outro poder, uma outra estratégia.”

Porém aqui nesse parágrafo se resume toda a impotência do partido: na parte final, onde se afirma a mobilização das massas, fica a pergunta: como fazê-la sem dar exemplos concretos de auto-organização nos comitês pela base? E sem dar uma luta concreta, furibunda, mortal, para desmascarar as direções traidoras que são hoje a maior, para não dizer a única, “garantia” de estabilidade do regime (a menos da força das armas, é claro, mas que a confusão mostrada no 24/5 entre Temer e Rodrigo Maia já mostra o quanto é mais fácil nomear do que tentar usar de fato). E onde deveria dar pelo menos alguma alternativa política concreta, o PSTU se omite ao máximo que pode (a velha “tática do avestruz”), mas quando já não consegue mais se esconder, é obrigado a dizer: que então as eleições sejam “não só pra presidente, mas também para senadores, deputados, governadores...”. Ou seja, sob o mesmo regime burguês, que continuaria pairando sobre nós e dando as regras.

Conclusão: Um partido sem rumo estratégico?

Nos idos do primeiro governo Lula (2002-2003), o PSTU aparecia como principal alternativa política à esquerda do PT, que depois da década de “oposição passiva” à ofensiva neoliberal de FHC nos anos 1990, dava um passo ainda mais à direita com o programa ajustador do primeiro governo Lula, cujo ministro da Fazenda era ninguém menos que o mesmo Henrique Meirelles que hoje encabeça o governo golpista.

A posição do PSTU, ainda que evidentemente muito minoritária, dava a ele uma visibilidade que chegou a alimentar a doce ilusão de que poderia capitanear todo o processo de “ruptura de massas com o PT”, que o partido vaticinava como prognóstico imediato – não sem uma boa dose do velho “objetivismo morenista”. Tão fortes se sentiam, que imaginavam que o processo que deu origem ao PSOL poderia se dar sob a sua batuta. E que, fundando uma nova Central Sindical, a Conlutas, iriam guiar uma maioria a romper com a CUT, numa espécie de repetição mecânica (ou seja, fantasiosa) com o processo de construção da CUT em ruptura com os pelegos da ditadura, no início dos anos 1980.

Não podemos tratar desses temas aqui, mas é importante que toda a vanguarda tenha a dimensão da decadência histórica a que a insistência arrogante em não reconhecer os erros levou tal partido.

Eduardo Almeida e seu partido, que já se viu como “farol” da esquerda brasileira, caminha hoje sem rumo, reduzido a um “aglutinador sindical” sem política independente.




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