Sociedade

ZONA METROPOLITANA DE PORTO ALEGRE

PAZ ENTRE NÓS GUERRA AOS SENHORES

segunda-feira 18 de julho de 2016| Edição do dia

Na última sexta feira dia 15 de julho em Esteio na região metropolitana de Porto Alegre no Rio Grande do Sul aconteceu um fato lamentável: diferentes grupos de jovens brigaram entre si nos arredores do Boteco do Chopp. O Boteco do Chopp também conhecido como Boteco Bier fica na Rua 24 de Agosto em frente à Praça do Soldado. Essa briga possibilitou ainda que a polícia interviesse com uma violência ainda maior e muita treta. O motivo inicial é ainda desconhecido, mas poucos motivos justificariam aquela cena. A ideia de olho por olho dente por dente entre o próprio povo é própria de sociedades antigas, mas infelizmente ainda muito comum nos dias de hoje. Em meio a essa situação, ainda houve pequenos furtos de pertences do Boteco. Felizmente até agora pelo que se saiba não houve feridos gravemente. Comentam os assíduos frequentadores do Boteco que é a primeira vez desde que o Boteco foi fundado que ocorre uma briga assim.

A importância do Boteco

A importância do Boteco do Chopp na cidade é monumental. Fazia muitos anos que não havia um local de encontro da juventude esteiense, e possivelmente nunca houve um local de encontro para discussões culturais e promoção da arte com tanta audiência entre a população jovem da cidade. O Boteco também é o local preferido dos ativistas de esquerda. A existência do boteco animou inclusive o surgimento de novos estabelecimentos culturais na cidade, algo inédito na história recente de Esteio. É parte de um “movimento” que está surgindo em Esteio e em menor medida também em Sapucaia, cidades tradicionalmente usadas apenas como dormitório, para atividades de cunho político e cultural e em defesa da revitalização dos espaços públicos, alimentada pela Lei Seca que dificultou o acesso dos jovens à Porto Alegre.

O fato é que situações como a da última sexta feira colocam em risco esse movimento. Por um lado pois não é novidade que as elites locais e setores conservadores da cidade jamais quiseram que houvesse encontros da juventude. Uma parte significativa do estudo da história da vida cultural de Esteio e região é o da repressão à cultura. O próprio Boteco já sofreu inúmeras hostilidades das autoridades. Desde a escravidão negra o controle social dos de baixo é arma fundamental para a preservação da ordem. E se utilizarão portanto dessa brecha para alimentar o discurso de que não se pode ter vida cultural na cidade e reprimir a existência desse espaço e do próprio movimento.

E por outro lado pois era visível entre muitos dos frequentadores do Boteco a frustração de "estar acontecendo o que sempre aconteceu". De alguns ouvimos até que não frequentariam mais o Boteco. E essa frustração pessoal pode se transformar em desmoralização coletiva caso isso se torne frequente.

Mas porque aconteceu essa briga? Quais são as origens?

Apresenta-se uma primeira interpretação sobre o ocorrido. Uma pista portanto. Entender as origens é vital para solucionar o problema. Parece que os setores em briga ontem são novos segmentos da juventude local, não tradicionalmente vinculados ao Boteco. Logo menos influenciados pela cultura de paz que reinava no local. São setores socialmente mais explorados, mais precarizados e mais periféricos. E – não como resultado de sua condição social mas sim simultaneamente – ao mesmo tempo setores ideologicamente mais atrasados e politicamente mais dominados. Pedaços da juventude local em que ideias muito mais reacionárias tem muito mais espaço, por isso o machismo e a LGBTfobia (preconceito contra quem tem uma sexualidade “diferente” como lésbicas, gays, etc) são mais fortes. Lugares que o Estado jamais chega com serviços públicos mas apenas através da polícia e da repressão. E onde a violência é quase a ferramenta diária de solução de conflitos e opiniões. E como já cantava Edy Rock dos Racionais Mc’s em “Tempos Difíceis”

Menores carentes se tornam delinquentes.
E ninguém nada faz pelo futuro dessa gente.
A saída é essa vida bandida que levam.
Roubando, matando, morrendo.
Entre si se acabando.
Enquanto homens de poder fingem não ver.
Não querem saber.
Faz o que bem entender.
E assim... aumenta a violência.

Soma se a isso o triste hábito machista dos homens chamarem a atenção apelando para um padrão socialmente construído de "resolverem na porrada" como afirmação de uma pretensa masculinidade. Sabemos que há um recrudescimento da violência urbana nas grandes metrópoles fruto das consequências da crise econômica como aumento do desemprego e menos acesso aos serviços públicos e isso é mais um dos motivos.

Os dois riscos perante essa situação:
O primeiro risco é concluir que o melhor é que a juventude da periferia não desça ao centro. E como postura lógica acabar apostando na polícia para resolver essa questão. Diante de um fato muito progressivo que é a união da juventude trabalhadora com camadas da classe media num movimento de fortalecimento da cultura num espaço político cultural com influências de esquerda, seria uma tragédia que apostássemos na fragmentação dos nossos e na polícia como sujeito da solução. E além de ser uma postura excludente, racista e elitista, não funciona pois opera somente sobre as consequências e não sobre as causas. Enxerga a possibilidade de resolver o problema da violência urbana de forma segmentada, em último caso individual, como o é quando há cada vez muros mais altos, cada vez mais empresas de segurança privada, cada vez mais falsas barreiras. O problema da violência urbana é um problema coletivo que só pode ser resolvido como tal. E vejam, a juventude da periferia é a maioria da juventude. E não é porque ela é da periferia que é automaticamente e de forma imutável violenta. Muitos de nós frequentadores do Boteco também somos da periferia e não agimos assim. E quantos playboy também não são violentos? Ou na Padre Chagas em Porto Alegre não tem briga? Ou quantos de nós vínhamos de anos de uma cultura de violência e hoje somos diferentes?

O segundo risco é a omissão e a inércia. É perante o ocorrido não fazer nada ou simplesmente não frequentar mais o Boteco. Não podemos aceitar a destruição desse fantástico movimento cultural em Esteio. Amanhã ou depois pode ter tiros e então feridos e daí é tarde.

O que fazer?
Umas primeiras ideias sobre o que fazer. Devemos se posicionar para uma cultura de não violência nos espaços culturais. Que possamos todos nos acertar apenas discutindo as coisas. Para isso o grosso da nossa atitude deve ser de natureza pedagógica. Isto é, precisamos convencer uns aos outros de que tipo de espaço queremos. Devemos aproveitar para falar sobre preconceito, pois também é algo que não queremos. Não queremos que dominem hábitos machistas e de assédio à mulher como na maioria das “noites” por aí, que fortalecem a cultura do estupro. Queremos um lugar livre de violência e também de preconceito. Que os jovens negros da periferia também sejam nossos manos. Que reine a paz entre nós para fomentarmos a guerra aos senhores. A luta contra o 1% da sociedade que manda, controla, explora e oprime os 99%.

Podíamos distribuir folhetos na próxima sexta conversando com os grupos sobre o fato e o que fazer. Podíamos fazer varais com cartazes sobre uma cultura de paz entre nós. Podíamos ver com o pessoal do Boteco se não rola fazer um show de reggae para falar da violência. Se não podemos fazer outras intervenções artísticas como forma de alentar essas ideias. Enfim, tudo que possamos fazer no sentido de reagir pra defender o boteco defendendo a aliança de vários setores da juventude para que o boteco sirva como espaço político cultural da cidade e de apoio às expressões de resistência ao sistema.




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