Teoria

100 anos da Revolução Russa: o ano de 1917, a tomada do poder - parte 2

Os sovietes apoiam um governo liberal-socialista: Lenin discute as tarefas da revolução proletária [Teses de abril]

Com este artigo seguimos uma série de quatro artigos que, juntos, compõem uma versão curta do relato do ano de 1917, seus antecedentes e os acontecimentos cruciais da revolução de Outubro.

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 23 de maio| Edição do dia

Tendo brotado do movimento de massas, o governo provisório – em seus três formatos sucessivos - irá protelar indefinidamente a solução dos problemas da grande massa: o fim da guerra, o direito à própria terra e o fim da crise de desabastecimento, do esfacelamento do país, da inflação, do arrocho salarial. O soviete de Petrogrado (Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado), que representava operários e soldados sublevados, criou, em todo caso, as condições para o surgimento do Governo Provisório. E, sob direção não-bolchevique (os bolcheviques ainda não eram maioria nos sovietes) optou por, prontamente, sustentar aquele governo formatado pela velha casta política [burguesa].

O governo provisório: impotência do liberalismo e do socialismo reformista

Nem a pressão de massas fará o governo mudar de rumo, e esta será a crônica do seu colapso.

Organizados em sovietes, os trabalhadores e soldados mais combativos, as massas revolucionárias, vão estabelecer um duplo poder.

O Governo Provisório, ao longo dos meses seguintes, mesmo com mudanças de gabinetes, de ministros e de presidente (foram três ao todo: Lvov, Miliukov, e o socialista Kerenski) só tomava uma ou outra medida – mas jamais as essenciais para uma revolução burguesa, por exemplo - por imposição do proletariado em luta. Eram governos vacilantes, de colaboração de classe.

Estes sucessivos governos liberais, ao longo de meses, não atenderam a qualquer reivindicação operária ou camponesa séria (mesmo as liberdades democráticas foram violadas sistemática e maciçamente por parte do governo “socialista” a cada vez que o proletariado reclamava mais espaço e solução para seus problemas).

No entanto, por um tempo, encarnou a esperança popular por mudanças, sobretudo de medidas para resolver a grave questão social. O paradoxo estava em que ele, o governo, era tão débil quanto a própria burguesia russa. Sua força política não era própria, era emprestada pelos par¬tidos que foram eleitos para a direção do soviete: nominalmente socialistas, os mencheviques e socialistas-revolucionários, na verdade socialistas de direita ou moderados, conciliadores todos, adotaram a política de sustentar até o fim, o Governo Provisório, tanto o de Lvov, Miliukov antes quanto o de Kerenski depois.

Declaradamente socialistas, no entanto, para eles, a revolução “tinha que ser” burguesa; daí o seu papel concreto – para além do palavreado - foi o de sustentar o governo liberal. Sua concepção era simples assim: a revolução era burguesa, não era proletária, nem socialista e, portanto, a classe trabalhadora, no máximo, só poderia ser oposição democrática e parlamentar. Era preciso apoiar e amparar a todo custo o governo (burguês), garantir a democracia, a revolução, acumular forças. Ser oposição leal.

O problema, por outro lado, era o de que, para a burguesia liberal e seus apoiadores, aqueles partidos de conciliação de classe [mencheviques e socialistas-revolucionários] eram base de apoio fundamentalmente problemática na medida em que subtraiam ou enfraqueciam a “governabilidade” dos capitalistas ao terem os sovietes detrás de si.

Na Rússia tinha se instalado um evidente equilíbrio instável (próprio do duplo poder).
Para aqueles partidos (socialistas) defensistas em relação à guerra [isto é, continuavam a guerra, só que agora em nome da “revolução”], negligentes com a questão agrária e apoiadores da repressão política contra os bolcheviques, nos momentos mais acalorados, não havia contradição alguma: continuavam pensando que sovietes e burguesia poderiam conviver.

Para esses socialistas, os sovietes permaneceriam, só que como oposição crítica aos liberais, como parte de um “governo em disputa”. E faziam política, dirigiam o movimento de massas girando em torno desta miragem. E, em torno dela, na prática e de fato, agiam como tábua de salvação da burguesia, a quem garantiam o básico de governabilidade que a burguesia, em si, por conta própria, jamais teria.

O que fazer com os sovietes? Reformistas e burguesia na encruzilhada de classe
Mas a história não se detém para nada: se ao longo daqueles meses que vão de fevereiro a outubro, a questão social e agrária, questão estratégica e crucial da revolução democrática de fevereiro, não se resolvia – pelas mãos da impotente burguesia liberal – por outro lado, o que fazer com os sovietes passou a ser o mais sério e ex¬plosivo nó político a ser desatado. Pelos dois lados (pela burgue¬sia liberal, pró-imperialista e pela direção política moderada dos próprios sovietes). Estes se espalhavam por toda a Rússia, eram indóceis politicamente e cresciam em poder e influência.

Os partidos conciliadores, “resolviam” o duplo poder simplesmente apoiando o governo parlamentar burguês, funcionando como sua ala esquerda: aqui e ali colocavam um dos seus como ministro, ou seja, ocupavam mais presença no governo, sempre em posição subalterna. Assim procederam de fevereiro a outubro.
Acreditavam, portanto, na miragem ou ficção política de que a burguesia pró-imperialista russa iria tolerar “sob o mesmo teto”, o poder dos socialistas ou mesmo admitir por mais tempo algum duplo poder.

O problema desse tipo de cálculo (ou “estratégia”) é que burguesia alguma admite isso.

Na Alemanha, pouco depois, em 1918/9, essa “estratégia” foi cumprida pelos socialistas de direita de lá, com as mais trágicas consequências para a classe trabalhadora. Os sovietes alemães foram esmagados, os dirigentes mais simpáticos aos bolcheviques foram assassinados impiedosamente pelo governo social-democrata, sendo o exemplo de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht demasiado conhecidos.

Voltemos a abril de 1917 e, neste caso, a um dos momentos mais emblemáticos da história da Revolução Russa, de viragem e rearmamento do partido bolchevique.
Na tarde do dia 3, Lenin voltou à Rússia, chegou em Petrogrado, de trem; descendo na célebre estação Finlândia, ele falou à multidão bolchevique na praça; mais tarde, na sede do partido fará discurso de duas horas chamando a uma mudança de política do partido. Até abril, o partido oscilava entre apoio e oposição ao Governo Provisório. A linha política do diário do partido [Pravda], dirigido por Kamenev/Stalin, era de “apoio crítico”.

A verdade é que o bolchevismo na Rússia, antes da chegada de Lenin, desde fevereiro, conciliava com o governo liberal que se conformara nos primeiros dias de abril – com o desmoronamento da monarquia – governo que contava, como foi mencionado, com o apoio político das direções dos sovietes e com grande expectativa popular de que ele, o novo regime, apoiado pelos socialistas, conduzisse às mudanças. Que realizasse a revolução democrático-burguesa.

Que política adotar frente ao novo governo, liberal? Essa era, naquele momento, para Lenin, a tarefa das tarefas.

A política dos bolcheviques: o decisivo debate interno

Os bolcheviques organizam a conferência nacional do partido. Lenin chegara da Suíça, a tempo apenas de participar do seu final e ali lançar suas Teses de Abril com a nova e impactante consigna de todo o poder aos sovietes e nenhum apoio ao governo liberal. De início ele estará em absoluta minoria no partido. O discurso de Lenin no encontro do partido é interrompido por Bogdanov e desqualificando como “delírio de um louco”. Uma hora depois Lenin reiterará seu discurso na sessão conjunta bolchevique-menchevique.

Como falar em derrubar o governo se Lenin reconhece que somos uma minoria? Era a reação de quase toda a ala conservadora do partido.

Concentrando todas suas energias, Lenin procurará convencer aos camaradas do partido, ao congresso nacional do partido, sobre as suas teses.

Após um forte embate de ideias, a nova política será aprovada ao final, quando a conferência, sob intensa pressão de Lenin, dá uma reviravolta. O argumento de Lenin era o de que a re¬alidade política estava fraturada: lado a lado com o governo real (onde a burguesia recebeu o poder, como que encabeçando, formalmente, uma revolução democrático-burguesa do tipo usual) tinha-se um poder paralelo, de operários e camponeses, que empresta apoio político ao governo, mas que também dele ficava refém.

É preciso começar a lutar – argumenta Lenin – para que o poder passe todo ele para o proletariado organizado nos sovietes, sem dividi-lo com a burguesia. Quanto à burguesia, ela não poderá ir além de promessas, mesmo em relação às tarefas democrático-burguesas.

Lenin, na verdade, não estava só

É importante ressalvar que, desde março, a base operá¬ria do partido – como por exemplo o comitê bolchevique do bairro operário de Viborg – protestava contra certas posições do partido e tendia à defesa do poder soviético. Desejava descartar a burguesia liberal do governo. Lenin, em suas Cartas de longe, em março, conscientemente ia na mesma direção (seu telegrama de 6/3/1917: “nossa tática: desconfiança absoluta, negar todo apoio ao novo governo” etc.).

Ao final da Conferência de Abril, do partido bolchevique, Lenin também propõe não continuar mais usando o mesmo velho nome de partido (social-democrata) que os mencheviques. Propõe jogar fora a velha “camisa suja” - do menchevismo e da II Inter¬nacional - e mudar o nome de social-democrata para partido comunista. “Não se agarrem a uma velha palavra que está totalmente podre”, argumentava ele.
Naquela conferência do partido, vale reiterar, Lenin expôs suas posições através de um documento que a partir daquele mo¬mento ficou conhecido como Teses de Abril.

Como disse Trotski, “as teses expressavam ideias simples em palavras não menos simples, acessíveis a todo mundo. A república, fruto da insurreição de fevereiro, não é nossa república, nem a guerra que se mantém é nossa guerra. A missão dos bolcheviques consiste em derrubar o governo imperialista. Este se sustenta graças ao apoio dos social-revolucionários e mencheviques, que por sua vez se apoiam na confiança que as massas populares depositam neles. Nós re¬presentamos uma minoria. Nessas condições não se pode nem sequer falar do emprego da violência de nossa parte. É preciso ensinar as massas a desconfiar dos conciliadores e defensistas. É preciso aclarar a situação pacientemente. O êxito desta política imposta pela situação é certo e nos conduzirá à ditadura do proletariado, e, com ela, à superação do regime burguês. Romperemos completamente com o capital, publicaremos seus tratados secretos e chamaremos os operários de todo o mundo a romper com a burguesia e pôr fim à guerra. Iniciaremos a revolução internacional. Só o triunfo desta consolidará o nosso e assegurará o caminho para o regime socialista”.

Para os bolcheviques – e apenas para eles no meio do espectro dos partidos de esquerda –, a partir da chegada de Lenin, todo o poder deveria ser dos sovietes e era preciso, mês a mês explicar “pacientemente” à classe trabalhado¬ra e às massas que este “não é nosso governo”. Explicar, organizar forças, ganhar influência no proletariado, até que se pudesse der¬rubar aquele governo pró-imperialista.
Em certo sentido, o significado das Teses de abril [ As tarefas do proletariado na atual revolução] e dos documentos afins [Cartas de longe, Cartas sobre a tática, O duplo poder, As tarefas do proletariado em nossa revolução – Projeto de plataforma do partido proletário ] era o da necessidade de persuadir ao próprio partido que nem a democracia liberal e nem a influência dos bolcheviques iria crescer de forma linear e que, em determinado momento, se não fosse organizada a insurreição armada que daria todo poder aos sovietes, perder-se-ia o momento mais propício e também ... a revolução.

A burguesia esmagaria, sem piedade aos bolcheviques, e inclusive aos socialistas de direita, para impor seu poder centralizado, sua governabilidade perdida. Os sovietes seriam reduzidos à impotência. Esta dinâmica, social e política, exigia uma estratégia revolucionária.

Esta perspectiva era bem clara para Lenin. E o partido foi sendo ganho para ela a partir do debate intenso sobre as Teses de abril, pela autoridade e argumentação de Lenin.

Assim transcorreram os meses seguintes: o partido bolchevique buscando influência junto às forças vivas da revolução e em oposição aberta ao Governo Provisório. [Para que se possa ter um apanhado geral da Revolução Russa, você pode querer assistir à palestra de Iuri Tonelo aqui]

A impotência dos socialistas reformistas: impaciência popular e o golpe da direita

Quanto à burguesia, revelou-se completamente impotente para abrir mão da guerra (por razões internas mas também por interesses imperialistas, externos) e, em todas as frentes, revela¬va sua fraqueza ou impotência, como burguesia retardatária, no sentido de realizar qualquer reforma. Só os socialistas de direita acreditavam na sua “potência” democrática e social. E pretendiam seguir atrelados ao seu destino.

Ainda em abril, forte crise política do governo confirmou a linha de Lenin: o chanceler do governo provisório (Miliukov) reiterou a participação da Rússia na guerra. Sofreu prontamente o impacto de manifestações de rua que pressionaram ao soviete, levaram à renúncia do chanceler e à formação de um governo, digamos, de “frente popular”: cadetes [democratas-constitucionalistas] e todos os socialistas exceto os bolcheviques; Kerenski, socialista-revolucionário, seria o chefe deste governo.

Compondo este novo governo, os liberais-burgueses apenas procuravam ganhar tempo para na primeira oportunidade, esmagar e/ou controlar direta¬mente a incômoda revolução, esmagar a ousadia e a insurgência de operários, soldados e camponeses e varrer com a subversão e a “anarquia” bolcheviques.
(Deste caldo de cultura é que surgiu o militar golpista Kor¬nilov em agosto).
Mês a mês, a guerra trazia mais estragos, o campesinato se sublevava, as cidades viviam privações. Reinava fome, inflação, crise de transporte, desabastecimento no front e na retaguarda, lock out de patrões contra os sovietes, crescente desemprego.
E mais que tudo: a desmoralização política do governo; seus auxiliares socialistas – na verdade provedores políticos da burguesia – também começaram a se “queimar”, cair em certa descrença no meio operário. A paciência das classes oprimidas se esgotava.

Em junho acontece o I Congresso dos Sovietes de toda a Rússia. São mil delegados de 305 sovietes locais e organizações camponesas e de soldados. Os partidos socialistas de colabora¬ção de classe são esmagadora maioria (mencheviques e socialis¬tas-revolucionários) e os bolcheviques só contam com menos de um quinto dos delegados. Os sovietes seguem, portanto, a uma liderança política moderada [leia-se, que concilia com a burguesia liberal].

Trotski relata que “foi em junho de 1917 que se realizou a primeira reunião de delegados de comitês de fábrica. Naquela época, os comitês mal tinham se espalhado além de Petrogrado. Foi uma reunião notável, composta de delegados realmente operários, a maioria deles bolcheviques, com muitos anarco-sindicalistas, e seu caráter foi de protesto contra as táticas dos sindicatos. No mundo político, os bolcheviques reiteravam que nenhum socialista tinha o direito de participar do governo de coalizão com a burguesia.

A reunião de delegados de comitês de fábrica ficou famosa por adotar a mesma atitude em relação à indústria. Em outras palavras, a classe patronal e os operários não tinham interesses em comum; nenhum operário com consciência de classe poderia ser membro das comissões de arbitra-mento ou conciliação, a não ser para informar aos patrões as exigências dos operários. Não haveria contratos entre patrões e operários. A produção industrial tinha de ser absolutamente controlada pelos operários.

A princípio, os sindicatos combateram duramente os comitês de fábrica.
Mas estes, que estavam em condições de assumir o comando da indústria em seu âmago, aumentaram e consolidaram facilmente seu poder. Muitos trabalhadores não conseguiam ver a necessidade de se filiar ao sindicato, mas to¬dos viam a necessidade de participar das eleições do comitê de fábrica, que controlava seu emprego imediato. Por outro lado, os comitês de fábrica reconheciam o valor dos sindicatos; nenhum operário novo era contratado se não apresentasse a carteira do sindicato; eram os comitês de fábrica que aplicavam localmente os regulamentos dos diversos sindicatos” (TROTSKI, História da Revolução Russa, 146-147).
Em julho, a impaciência dos setores mais combativos do proletariado chegou ao limite: saíram em campo aberto, em uma manifestação armada (menos que uma insurreição e mais que uma manifestação dizia Trotski) contra o governo e para pressionar os partidos dos sovietes, os mencheviques e socialistas-revolucionários a irem ao governo.

Os bolcheviques criticaram a precipitação daquela insurgência – não era o momento, não temos ainda os camponeses etc – mas no dia seguinte, diante do impacto das manifestações incontroláveis de parte dos trabalhadores, marcharam nas ruas, ao lado do proletariado procurando limitar o alcance do movi¬mento, contornar a precipitação.

Uma vez refluído o movimento, a repressão do Governo Provisório veio maciça.
Os bolcheviques foram criminalizados, presos, sua im¬prensa empastelada, Trotski foi para a cadeia, Lenin teve que voltar à clandestinidade fora do país (só pôde voltar à Rússia nos dias da revolução).

O partido iria ter dificuldades para reagrupar-se. Seus lí¬deres são acusados de tentar um golpe de Estado e de serem agentes do governo alemão [usual acusação a Lenin e, ironicamente, em seu tempo, a Marx]. Quanto aos socialistas de direita, integrados ao governo, foram indiscutivelmente complacentes com essa repressão.

G Dantas
Brasília 15/5/17

[continua na Parte 3 de 4]

Bibliografia citada – Trotski, Leon, História da Revolução Russa, Sundermann, 2007.

Você pode querer assistir ao vídeo a seguir, que narra o período da Revolução Russa depois da chegada de Lenin do exterior, até o golpe militar de Kornilov:

*****




Tópicos relacionados

100 anos da Revolução Russa   /    Revolução Russa   /    Teoria

Comentários

Comentar