Política

DEBATE NA ESQUERDA

Os revolucionários, a frente ampla e a luta contra o regime do golpe

Thiago Flamé

São Paulo

segunda-feira 28 de dezembro de 2020| Edição do dia

Na resposta às nossas críticas, os companheiros da CST colocam um grande peso em que supostamente ignoramos às críticas que fazem aos projetos de frente ampla e alianças de conciliação de classes. Não ignoramos a existência de críticas, o problema é que elas não vão no fundamental. O regime político não é uma abstração, que contenha somente “formas puras” ditadura ou democracia burguesa. Ele se expressa em instituições estatais bem concretas, que exercem distintos graus de bonapartismos, num sistema partidário específico e onde as classes sociais e suas organizações ocupam uma determinada posição no seu interior, sendo de especial importância a posição que cabe no interior do regime à classe operária e suas organizações. Ao não reconhecer que o golpe institucional de 2016, levado adiante pela Lava Jato e pelo Judiciário, pelo parlamento, pela Globo, com o apoio do imperialismo norte americano (ainda sob o comando de Barack Obama) foi dado para modificar qualitativamente à direita essas relações, a CST tem se adaptado em cada oportunidade às instituições do regime do golpe institucional, e apesar das críticas, deixado de dar uma batalha coerente pela independência de classe.

Comparar a palavra de ordem “que se vayan todos” das jornadas revolucionárias de 2001, na Argentina, com a mesma consigna em 2015/16 no Brasil é um erro enorme. Na Argentina, ela vinha do movimento de massas que obrigou o presidente De La Rua a fugir de helicóptero do palácio do governo. Apesar de não se terem ido todos, e do tradicional peronismo ter surgido o kirchnerismo, nos anos seguintes a queda do presidente se deram processos como o de fábricas ocupadas e as assembleias populares nos bairros da classe média empobrecida. No Brasil do golpe institucional, o “fora todos” confluía – por menos que fosse essa a intenção dos companheiros - com as alas mais radicais do golpe, os que pediam intervenção militar ou os que queriam o país governado pela Lava Jato. Na sequência do golpe, se fortaleceu o poder do judiciário, das forças armadas, das Igrejas Evangélicas e um movimento de extrema direita que terminou ganhando a presidência.

Não se trata de uma discussão do passado. A luta pela independência de classe passou nos últimos anos por lutar contra o conjunto dos atores e instituições golpistas do regime político que vieram operando com distintos graus de bonapartismo, ao mesmo tempo em que se mantém a necessidade de ter independência política do PT. Algumas correntes que não souberam identificar essa realidade entraram em crise e passaram por rachas, estancaram ou retrocederam, mas todas se tornaram incapazes de combater a extrema direita e construir uma alternativa à esquerda do PT porque se adaptaram a ter um lugar dentro desse regime podre. O próprio PT fala cada vez menos de golpe, por que não quer combater o regime que vai se formando, mas se integrar a ele mostrando que pode se adaptar às novas circunstâncias. Desde a posse de Bolsonaro, como dissemos à época, um filho indesejado do golpe, o cenário político tem sido ocupado pelas disputas entre a direita e a extrema direita e entre diversas instituições bonapartistas (em especial as disputas entre a presidência e o STF). Esse bloco burguês é heterogêneo e a única coisa que os unifica é a sanha para atacar a classe trabalhadora e o povo.

A política da Frente Ampla é a da aceitação desta nova situação, pela via de uma aliança entre a direita neoliberal, a centro direita e a esquerda reformista (bem expressa agora nas eleições para a presidência da Câmara). É um processo novo, não é “mais do mesmo”, as críticas do passado não bastam, ainda que um balanço crítico do passado seja fundamental para não repetir em escala ampliada velhos equívocos.

A própria caracterização da CST sobre o significado da candidatura Boulos não corresponde à realidade e serve de fundamentação para uma política de adaptação à Boulos. Os companheiros embelezam a candidatura de Boulos como expressão das lutas recentes e como um fenômeno de massas a esquerda do PT. Realmente, seria outra situação se isso fosse assim, a discussão sobre voto crítico se colocaria de outra forma. As lutas, importantes, foram muito de vanguarda para impactar um processo de massas tão amplo como a eleição. A candidatura de Boulos esteve longe de se identificar e convocar processos de mobilização, se esforçou o tempo todo por apresentar sua participação no MTST da forma mais institucional possível. Não existem também setores amplos de massas buscando uma alternativa à esquerda do PT. Foi Boulos que adotou de forma ainda mais aberta um programa petista e construiu uma frente ampla contra Bolsonaro, tomando a prefeitura de Erundina como grande exemplo, para ocupar o espaço eleitoral do PT que saiu com um péssimo candidato. E como não questionou em nada o regime político do golpe institucional, foi muito bem recebido pela grande mídia e na Faria Lima. Basta comparar o mapa eleitoral da disputa entre Haddad e Bolsonaro para ver como Boulos ocupou o espaço eleitoral petista, dando para isso um giro ainda mais pronunciado à direita e se apresentando como moderado, seguindo os mesmos erros de sempre do PT, evitando que pudesse se desenvolver um processo progressista de um giro à esquerda de setores buscando uma alternativa de conteúdo à esquerda do PT.

Um governo com PT, PCdoB e partidos burgueses para combater a direita e os ataques?

Em todo o país, a CST lançou seus candidatos a vereadores, mesmo onde, como em Belém e Florianópolis, o PSOL estava coligado como parte da frente ampla e apoiou as candidaturas aos cargos executivos de conciliação de classes. E ainda exigiam do PT e do PCdoB no Pará que rompessem com o governo de Helder Barbalho do MDB para fazer a frente com o PSOL. Por acaso uma ruptura com o MDB no Pará mudaria o fato de que o PT e o PCdoB aplicam a reforma da previdência nos estados em que governam? A CST se omite de fazer críticas à Edmilson e prefere direcionar as críticas ao PT e PCdoB, como se não fosse o próprio PSOL que constrói essa política de conciliação. Esse curso do PSOL repete a trajetória do Syriza e do municipalismo do Podemos, que governou Madrid e Barcelona em aliança com o PSOE.

Na situação brasileira e no regime do golpe, ainda menos margem de manobra resta para um municipalismo reformista como o que propunha Boulos. Na medida em que PSOL ia afirmando seu curso de integração à frente ampla era necessário ajustar a política anterior e aumentar o tom das críticas e oposição a esse projeto. A CST, por exemplo, no segundo turno quando Boulos se torna o candidato da Frente Ampla, solta apenas uma crítica para constar, e segue com a mesma política de antes.

No seu último artigo discutindo a eleição em Bélem, a CST comemorou a vitória de Edmilson e defendeu um governo com independência de classe e contra os empresários. Como se a campanha toda de Edmilson não tivesse se apoiado numa aliança de conciliação de classes e como se o seu secretariado não estivesse sendo nesse momento discutido de forma a integrar os partidos coligados e talvez outros mais – a secretaria de planejamento já foi indicada ao PT e a de esportes ao PDT, por exemplo.

Se em outubro a CST nos informava que o Diretório Nacional os respondeu com evasivas quando questionaram se os secretários do PT e PCdoB na prefeitura aplicariam o programa do PSOL ou do governador Helder Barbalho, o que dirão agora? Ao contrário, perguntamos nós aos companheiros da CST, se houver confluência entre a política de Helder Barbalho e do governo do PSOL em aliança com PT, PCdoB, Rede e PDT, o que farão os companheiros?

Ao não levar em conta a política do conjunto do regime político, a CST acaba se adaptando às correntes opositoras em cada momento. Durante o golpe institucional, se adaptou diretamente à Lava Jato. Agora, quando uma ala do novo regime que está se conformando busca integrar uma nova esquerda como parte de uma frente ampla contra Bolsonaro, os companheiros vão pelo caminho da adaptação a esse processo.

A Frente Ampla que foi feita pelo PSOL em São Paulo, Florianópolis e Belém – obtendo êxito eleitoral com Edmilson, nessa última – representa a debilidade do PT pós-golpe em ser o agente da conciliação de classe, uma vez que a direita teme o anti-petismo. Frente a isso, o PSOL se apresenta como o agente mais viável para conciliação de classes e é justamente o que Juliano Medeiros anunciou querer aplicar em 2022, infelizmente com o apoio da CST.

Frente ampla, partido amplo e a política dos revolucionários

Não basta reivindicar e compor a FIT-U na Argentina e nos demais países onde atua fazer o contrário de uma política de independência de classe. A FIT só é hoje a principal referência da esquerda na Argentina, por que soube se opor e se manter independente de projetos de alianças com partidos de centro esquerda, tentados seguidamente e sem sucesso pelo MST, que hoje integra a FIT-U.

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Os companheiros da CST mantêm essa contradição. Na Argentina integram a FIT e não defendem que esta se amplie para setores da centro esquerda. O contrário do que fazem no Perú, onde até poucas semanas atrás integravam a Frente Ampla, uma aliança de partidos reformistas e de conciliação de classes que são parte do regime político peruano. Ou, como explicamos ao longo deste artigo, sua política de adaptação a frente ampla no Brasil.

Nós, em todos os lugares em que atuamos, buscamos aplicar uma política de independência de classe coerente nas palavras e nos atos. No Brasil isso passou pelo combate ao giro a direita do PSOL e a política de frente ampla. Em todos os lugares em que o PSOL se lançou coligado com partidos burgueses como em Santo André, ou no caso do Rio de Janeiro em que saiu com um coronel e ex-comandante do PM de vice, nós retiramos nossas candidaturas. Em São Paulo, longe de nos abster, travamos uma batalha frontal contra o bolsonarismo e o tucanato, marcando em dezenas de artigos de ampla divulgação do Esquerda Diário, nossa divergência com a frente ampla encabeçada por Boulos no segundo turno e sua impotência para derrotar os tucanos, sem combater os empresários e se adaptando ao regime do golpe.

Na França, participamos do NPA, que não pode ser comparado a Frente Ampla do Perú e é um partido muito diferente do próprio PSOL. A antiga direção da LCR não conseguiu impor o curso oportunista que pretendia e o surgimento da França insubmissa de Mélenchon cortou o caminho para a entrada em peso de setores reformistas no partido, colocando o projeto inicial em crise e frente ao crescimento da ala esquerda, que agora lhe disputa a direção, ameaçam com a ruptura ou a implosão do partido. Diante desse empasse, o grupo da FT na França e o jornal Révolution Permanente estão se construindo entre o melhor da vanguarda das últimas lutas na França e se tornando um peso real nas disputas internas. Trata-se de uma lógica bem diferente da que a CST atua dentro do PSOL.

Da nossa parte reivindicamos os passos para criar um espaço de debate que significou a Conferência Internacional e na Argentina seguimos tendo iniciativa pela unificação dos revolucionários, divulgando publicamente as teses de preparação da Conferencia do PTS e chamando os partidos da FIT-U a debaterem. Seguimos também a proposta de iniciar os debates para a conformação de um partido revolucionário unificado na Argentina. No Brasil, consideramos urgente a necessidade de um polo de independência de classe e achamos fundamental o debate com todos que compõe o Bloco de Esquerda Revolucionária do PSOL para iniciar a conformação de um polo assim, que aglutine forças em torno de uma política de independência de classes e que tenha a possibilidade de impor uma verdadeira frente única dos trabalhadores, superando as burocracias das centrais sindicais. Quanto mais as alternativas frente amplistas se fortalecem, mais urgente se torna a necessidade de constituir um polo como esse para apresentar uma alternativa classista e independente.




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