Negr@s

Editorial MRT

Os desafios da luta anti-racista neste mês da consciência negra

Leticia Parks

Brasília - DF

Marcello Pablito - Trabalhador do Bandejão da USP e diretor do SINTUSP

dirigente do MRT e fundador do Quilombo Vermelho

terça-feira 19 de novembro| Edição do dia

Apesar de celebrado como data de luta pelo movimento negro desde 1970 – em meio à ditadura militar - o 20 de novembro foi reconhecido como parte do calendário oficial como Dia da Consciência Negra há muito pouco tempo, em 2011. O reconhecimento da data pelo governo federal foi apenas a concretização de uma dinâmica crescente de celebração desse dia por meios não oficiais, já que por força da luta de classes e da tradição, esse dia já era feriado em algumas regiões do país. Alagoas, por exemplo, formada em grande parte por herdeiros da memória do Quilombo de Palmares, que nasceu e cresceu na sua Serra da Barriga, o 20 de novembro é feriado desde 1955. A razão da data está ligada ao dia atribuído à morte de Zumbi, um dos principais líderes reconhecidos desse que foi o maior Quilombo da história da luta anti-escravidão brasileira.

A crise capitalista faz recrudescer os discursos racistas internacionalmente, e isso vem acompanhado do questionamento por alas da burguesia nacional – em especial Bolsonaro e seus bolsominions – da razão de existência dessa celebração. O sentido desses ataques tem tudo a ver com o rumo da própria crise. A enorme ofensiva neoliberal precisa se apegar profundamente ao racismo para justificar ataques, o que no caso brasileiro, leva a um enorme choque à direita nas relações raciais.

O governo Lula ficou marcado para importantes setores do povo negro no Brasil como um momento onde se obteve algumas conquistas. Sendo um povo marcado pela escravidão e por todas as mazelas que ainda sofremos nos marcos do capitalismo, que arrasta enormes heranças escravistas, muitos celebram conquistas como o acesso de uma parte de nosso povo às universidades através de cotas raciais. Para quem sempre negaram tudo, sem dúvida, ver parte de nós na universidade, é uma conquista que não devemos deixar que ataquem. Se trata de um direito, entretanto, que atinge ainda uma pequena parcela da juventude negra. É preciso ver ainda que essas medidas do governo Lula foram no auge de um ciclo de crescimento econômico, que tentam nos convencer sempre de que é “o possível”, mesmo que no governo Lula os bancos tiveram lucros recordes, como ele mesmo insiste em destacar. Ao se negar a atacar os capitalistas e as bases estruturais do racismo, sempre conciliando com a burguesia e políticos da direita elitista e racista, Lula e o PT passaram longe de encarar os problemas estruturais do nosso povo.

Lula não levou adiante nenhuma reforma urbana, deixando a maioria do nosso povo nas favelas. Triplicaram dois dados assustadores: o da terceirização do trabalho e o de internos no sistema prisional, sendo 40% deles presos sem julgamento. Lula também liderou a ocupação militar do Haiti, que foi comandada nada menos que pelo General Heleno em seu começo, e depois por diversos generais que são parte da cúpula do governo Bolsonaro hoje, como Azevedo e Silva, Tarcisio de Freitas e outros. Foi no governo Lula também que deu um salto à militarização das favelas no Rio, com as UPPs e a brutalidade da revitalização do BOPE, que foi base essencial do fortalecimento das milicias cariocas e sua ampliação no estado.

Mas isso não impediu que nosso povo, e em especial a juventude, aumentassem seu orgulho pela via da identidade negra, que se vê nas ruas, na nossa cultura e na curva ascendente nas pesquisas dos últimos 10 anos do IBGE, um feito marcante em um país marcado historicamente pela tese da democracia racial, que negava a existência do racismo.

O governo Bolsonaro se encontrou, portanto, frente a uma contradição profunda: implementar políticas racistas frente a uma massa que já rompeu com a ideia de que o racismo não existe. Todas as forças desse regime – sejam as de extrema direita aliadas mais diretas de Bolsonaro, sejam as da direita tradicional - vem atuando no curso dos últimos anos, desde o golpe, para reafirmar ou a inexistência do racismo ou a reconhecer sua existência e fortalecer a imagem do negro criminoso, perigoso, irrecuperável.

As vias sensíveis desse choque nas relações sociais pela direita são várias. São as negras e negros os que estão pagando mais caro pelas medidas neoliberais de privatização, precarização do trabalho e da vida, em meio a toda a classe trabalhadora e juventude atacados conjuntamente. Se antes dos ataques as mulheres negras já recebiam 60% a menos que os homens brancos, com reforma atrás de reforma a tendência é de aprofundamento desse apartheid social e trabalhista. Quando Maia diz que “qualquer um consegue trabalhar até os 80 anos”, certamente está tirando da sua ideia de humano todas aquelas negras e negros que vivem décadas a menos porque estão sob condições precárias de moradia, de trabalho sem registro em carteira e em condições brutais de violência contra o corpo e a mente, e sob a constante ameaça da violência policial e miliciana.

A expressão concreta desse choque está em várias vias da institucionalidade golpista. As reformas da previdência e trabalhista, a perseguição às cotas raciais, o ataque ao funcionalismo público, às ofensivas contra a lei 10.639 que institui a educação de África e Afro-brasilidade nas escolas, a militarização das escolas que visa domesticar corpos e mentes e impedir a livre expressão de nossxs jovens. Uma das vias mais atrozes é o próprio Pacote Anti-crime de Moro, que legaliza o gatilho fácil e o massacre contra jovens negras e negros, que deve ser repudiado pela nossa luta, carregando junto a bandeira da memória de todas as nossas crianças, irmãs, irmãos, mães, pais e avós levados pela violência do Estado.

Pela revogação das reformas da previdência e trabalhista!

Abaixo o apartheid social e trabalhista: por igualdade salarial para homens e mulheres, negrxs e brancxs!

Em defesa das cotas raciais em concursos e universidades. Pelas cotas raciais proporcionais ao número de negros em cada estado, no marco da luta pelo fim do ensino privado e do vestibular, única forma da juventude negra ter acesso verdadeiramente democrático à universidade.

Pela permanência estudantil para toda a demanda e em defesa da lei 10.639!

Abaixo a militarização das escolas! Onde há botas policiais não sobrevive o pensamento livre!

Por um 20 de novembro internacionalista. Viva a rebelião no Haiti e de todos os povos oprimidos da América Latina! Abaixo o golpe de estado na Bolívia!

Nosso povo se levanta em várias partes do mundo. Desde o Sudão, ao Haiti, estamos à frente de rebeliões populares contra este sistema de miséria, que quer nos deixar para sempre com as heranças da escravidão. Neste 20 de novembro e no mês da consciência negra, levantamos bem alto o grito de solidariedade e apoio ativo a todo o povo negro que se levanta pelo mundo.

Nós brasileiros temos um papel especial em apoio à luta do povo haitiano, pois o governo do PT liderou uma mal chamada “Missão de paz”, que até Bolsonaro no seu discurso na ONU recente reivindicou e serviu para promover uma camada de generais bolsonaristas e golpistas. O PT terminou o governo Dilma sem nunca ter retirado as tropas. Tudo pela ilusão de uma cadeira na ONU. Felizmente o povo haitiano expulsou as tropas, que tiveram que se retirar em 2017. Mas obviamente a situação de miséria do povo seguiu, e agora estão novamente numa rebelião contra seus governantes e o imperialismo, rebelião esta que merece de nós todo apoio.

Apoiar a luta no Haiti é parte para nós da defesa das rebeliões de todos os povos oprimidos da América Latina que se levantam, como contra a direita racista na Bolívia que deu um golpe de estado apoiado por Trump e Bolsonaro, com cenas de uma violência racista que eixigem nossa resposta contundente.

A nossa luta por um 20 de novembro que atue contra a direita, a extrema-direita, deve ser também uma enorme unidade continental contra o imperialismo e os efeitos reacionários que a sede de lucro yankee causam em nosso continente. Se Palmares foi a unidade dos oprimidos construindo sua própria socialização e economia, o Dia da Consciência Negra deve ser expressão dessa herança de unidade dos oprimidos contra os colonizadores e escravistas de nosso tempo.

Precisamos mobilizar para arrancar justiça por Marielle Franco

Não podemos mais aturar a espera de justiça por Marielle. Está mais do que demonstrado que não podemos confiar nem por um segundo nesses canalhas da justiça e polícia como se fossem trazer a verdade. É a mesma justiça que prende o Rafael Braga e Renan da Penha, que também só vão ter justiça com a nossa mobilização. Temos que impor com uma grande mobilização para que a investigação e punição dos culpados pelo assassinato da Marielle seja efetivada, sem deixar que se naturalize que o Estado burguês possa seguir fazendo o que quiser com nossos mortos, até mesmo quando se trata de uma vereadora de esquerda. Mas ao mesmo tempo não podemos ter nenhuma ilusão de que sem uma investigação independente, que trabalhe em paralelo e controle todo o processo, será possível chegar a alguma verdade. A investigação do Estado deve ser acompanhada e fiscalizada rigorosamente por uma investigação que seja independente, composta por defensores notórios dos direitos humanos, sindicatos, familiares, parlamentares do PSOL, movimentos sociais e todos aqueles que, ao contrário da polícia e do judiciário, não tem rabo preso com os capitalistas, com milícias e nem nenhum interesse em deixar impune alguém que matou uma parlamentar negra e de esquerda

Basta de assassinar nossa juventude negra!

As nossas crianças com seu futuro roubado, seja no RJ com os verdadeiros símbolos desse massacre que são Ágatha Félix, Ketellen, Maria Eduarda, seja em SP com o desaparecimento sumário de Lucas, assim como as anônimas, devem todas ser estandartes da nossa luta por memória, justiça e pelo fim da impunidade policial. O exército também cumpre sua parcela nesse massacre, e por isso não esquecemos Evaldo Rosa, sambista, pai de família, assassinado no RJ por 80 tiros que acertaram seu corpo, dentre os 257 que foram disparados contra toda a família.

Não nos permitem ser mães, mas também não querem que nossos corpos sejam livres. Enquanto nossas crianças são assassinadas, nossas mulheres são também as maiores vítimas do aborto clandestino, sendo cerca de 2/3 das mulheres que perdem suas vidas tentanto decidir sobre o próprio corpo. Essa, que é uma triste decisão, deveria ser prevenida com educação sexual e de gênero, assim como condições materiais de prevenção adequadas, com acesso universal a todos os métodos de prevenção para que a mulher, branca e negra, possa escolher.

Abaixo o Pacote Anti-crime de Moro!

Lucas (Santo André), Ketellen, Ágatha, Maria Eduarda, Evaldo (RJ), Mestre Moa (BA) mortos pelo ódio bolsonarista e pela institucionalidade racista: PRESENTES!

Por educação sexual para decidir, métodos contraceptivos para prevenir, aborto legal, seguro e gratuito para não morrer.

Participe dos lançamentos do livro “A revolução e o Negro” e venha lutar conosco contra o racismo junto com o Quilombo Vermelho

Vem aí a segunda edição de A revolução e o negro – textos do trotskismo sobre a questão negra, com escritos de Leon Trótski, C. L. R. James, George Breitman, entre outros, uma contribuição das Edições Iskra, do Esquerda Diário e do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) aos debates em torno do marxismo e da questão negra.

Veja mais: Edições ISKRA lançam A revolução e o negro: um diálogo entre os negros do mundo

Acompanhe pelo Esquerda Diário a agenda e venha conosco batalhar por uma perspectiva socialista e revolucionária da luta anti-racista com o Quilombo Vermelho.




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