Opinião

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"Os complexos processos da consciência" e os erros do morenismo

No dia 1 de abril a LIT-QI, organização internacional ao qual pertence o PSTU, publicou extenso artigo em polêmica com o MRT e sua caracterização da situação nacional. Dentro das múltiplas questões que aparecem no artigo buscarei debater com uma particular que penso expressar de maneira mais profunda a lógica errada através da qual analisam a realidade aqueles que reivindicam como base para seu pensamento o morenismo e seu objetivismo histórico, e as conseqüências políticas de tal forma de analisar a realidade.

sábado 9 de abril de 2016| Edição do dia

Giro à direita na superestrutura política no subcontinente?

A primeira coisa que devemos ter claro para entendermos as diferenças nessa questão específica entre MRT e PSTU é sobre a caracterização feita por nossa organização de giro à direita na superestrutura política do subcontinente sul-americano.

Alejandro Iturbe, que foi quem escreveu o artigo com o qual polemizamos aqui, busca tentar passar que a análise feita por nossa corrente parte do pressuposto que esse giro à direita que caracterizamos no subcontinente se expressaria num giro à direita também na consciência das massas.

Não entraremos aqui no mérito se isso é uma distorção consciente de nossa posição ou se é falta de compreensão, mas apenas deixaremos claro o debate. O giro à direita por que passa o subcontinente sul americano se dá na superestrutura política e compreender esse fato é essencial para nos movimentarmos na realidade. A vitória de Nestor Macri nas eleições Argentinas, a vitória da oposição de direita nas legislativas venezuelanas, o fortalecimento da direita no Brasil, todos demonstram claramente esse giro à direita na superestrutura política.

Isso quer dizer que esse giro à direita na superestrutura, nas mediações através das quais a burguesia constrói sua hegemonia sobre as classes subalternas, necessariamente se expressa num giro à direita na consciência das massas? De forma alguma. Esse momento de mudança, de transformação dos instrumentos e ferramentas através dos quais a burguesia legitima sua dominação, constrói sua hegemonia, cria uma instabilidade e uma crise relativa, uma fissura momentânea entre a consciência imediata dos trabalhadores e demais setores oprimidos e os instrumentos ideológico/políticos através dos quais a burguesia mantém esses setores sob seu domínio.

Esse momento de transição, em que a burguesia busca construir uma nova correlação de forças no subcontinente abre possibilidades, tanto à esquerda quanto à direita. Se a burguesia consegue impor que esse giro à direita na superestrutura se torne algo orgânico entre os trabalhadores e os oprimidos, consegue impor uma importante derrota ao movimento de massas e tem a possibilidade de resolver a crise econômico/política do subcontinente pela direita, através de ataques aos trabalhadores que possibilitem a recomposição de sua taxa de lucro.

Mas essa crise das antigas ferramentas de construção de hegemonia da burguesia que são os governos de conciliação de classe do que se convencionou chamar de pós-neoliberalismo (Lula, Chaves, Kirchner) também abre possibilidades para o avanço de forças efetivamente revolucionárias, que busquem responder pela esquerda essa crise criando possibilidades de construção de hegemonia a partir do ponto de vista dos trabalhadores.

Assim, longe de buscar expressar que esse giro à direita na superestrutura política do subcontinente represente necessariamente um giro à direita na consciência das massas mostramos com a constatação de um fato óbvio que se abre um período mais agudo de lutas onde ou a burguesia consegue tornar realmente orgânico e estrutural esse giro à direita ou o movimento de massas, aproveitando a crise das antigas mediações, conquista posições importantes no campo de batalha. A distancia entre o giro à direita na superestrutura e a consciência imediata dos trabalhadores pode criar o espaço para um salto na influencia dos revolucionários no subcontinente.

A ruptura dos setores de massas com o petismo é algo necessariamente positivo e progressivo?

Tendo esclarecido a questão anterior entremos no debate central com o articulista da LIT-QI. O autor do artigo tenta mostrar como algo necessariamente positivo e progressivo a ruptura cada vez maior das massas com o petismo. A baixa popularidade de Dilma, a crise do petismo, são vistos como imediatamente um avanço na consciência dos trabalhadores.

“Esta ruptura es un gran avance en su conciencia. Pero no es un avance lineal sino altamente contradictorio porque frente a la falsa polarización un sector se detiene a “defender lo conquistado” y otro se confunde con que “cualquiera es mejor” y apoya electoralmente a la derecha (o simpatiza con sus movilizaciones).

Pero esa ruptura de los trabajadores y las masas con el kirchnerismo, el chavismo, el PT o Evo es el proceso más importante que se está dando en la conciencia de las masas porque sin él no habría posibilidad de construir una fuerte alternativa obrera, revolucionaria y socialista a la crisis del capitalismo. Esta ruptura política es el proceso que esperamos durante años”. http://litci.org/es/mundo/latinoamerica/brasil/brasil-la-capitulacion-del-mrt-al-frente-popular/

Nessa passagem se expressam todas as contradições e erros do morenismo. É a partir dessa concepção objetivista que os companheiros do PSTU defendem que a luta contra o impeachment hoje é algo na prática desimportante, talvez até negativo, que não devemos nos colocar claramente contra ele, pois é através do impeachment hoje que se expressa essa ruptura de massas com o petismo.

A partir das possibilidades reais que se criam com a crise do petismo os morenistas, em seu objetivismo, tiram a conclusão de que essas possibilidades necessariamente se concretizarão e que a crise necessariamente se resolverá à esquerda, independente de que política seja predominante e consiga dirigir a crise do petismo.

Se entendemos a realidade não a partir desse ingênuo prisma otimista, que vê a resolução da crise do petismo e dos governos pós-neoliberais como se dando necessariamente á esquerda, mas pelo prisma da luta real e concreta entre as classes, luta que pode ser vitoriosa ou derrotada, vemos que certamente a crise política do petismo abre amplas oportunidades para a esquerda revolucionária, mas que abre uma série de riscos também e que a única maneira de aproveitarmos essas oportunidades é nos posicionando de forma correta no campo de batalha.

É necessário nos colocarmos clara e agudamente contra o impeachment, mas de forma independente do governo

A única forma de ocuparmos a posição correta nesse campo de batalha cada vez mais complexo é a partir de um campo independente do petismo nos colocarmos claramente contra o impeachment. Devemos nas marchas, atos, em jornais, assembléias, na propaganda e agitação nos colocarmos contra o impeachment mostrando para nossa classe que através dessa manobra reacionária um setor da patronal busca mudar a correlação de forças entre as classes no país para atacar de forma mais contundente e rápida os trabalhadores.

É possível que companheiros do PSTU digam que seu partido está contra o impeachment; mas se é verdade porque nos atos do espaço unidade e ação, onde são a principal corrente, suas faixas, cartazes, palavras de ordem não se colocam claramente contra o impeachment mas falam apenas em Fora Todos e Eleições Gerais? Porque nos materiais que chamavam para o ato não aparecia sequer uma vez a palavra impeachment? Porque em seu site não defendem em artigos de forma clara a política contra o impeachment?

Colocarmo-nos contra o impeachment não deve significar frentes com o petismo, mas a luta por um campo independente dos trabalhadores

A luta contra o impeachment como manobra reacionária da patronal para estabelecer uma correlação de forças mais favorável para passar ataques mais profundos e rápidos sobre os trabalhadores em nada deve significar frentes com o petismo, mas a luta por uma resposta independente dos trabalhadores para a crise política e econômica que atravessamos.

Frente ao legítimo, mas difuso, sentimento entre os trabalhadores e oprimidos de que é necessária uma resposta independente tanto do petismo quanto da direita reacionária nossa política não pode ser um abstrato "Fora Todos", que além de despolitizado, pois se adapta a consciência imediata dos trabalhadores, não tentando desenvolver sua perspectiva política, pode ser manipulado pela direita, nem a ainda mais absurda consigna de " Eleições Gerais", que no melhor dos casos representaria uma forma de a burguesia recompor sua hegemonia reconfigurando o regime e o legitimando através do voto, mas sim uma saída que sintetizando consignas democrático-radicais e consignas transitórias eleve a consciência imediata dos trabalhadores para um patamar mais político, de resposta global e hegemônica às questões mais candentes da situação nacional.

A consigna que melhor responde a essa necessidade é a de Assembléia Constituinte Livre e Soberana sobre as ruínas do Regime, onde seja votado um programa transitório de combate as crises política e econômica por que passa o país.




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