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Os cinco discursos do Encontro Anticapitalista no Chile que reuniu candidatos a deputado e dirigentes sociais

A atividade se realizou no sábado, dia 21 de outubro, e com mais de 300 pessoas no público, dirigentes dos trabalhadores, estudantes e candidatos a deputado de Antofagasta e Santiago expuseram o projeto político que estão por trás das campanhas.

sexta-feira 27 de outubro| Edição do dia

Foram mais de 300 pessoas as que assistiram o Encontro de trabalhadores, mulheres e juventude por uma Esquerda Anticapitalista, realizado no sábado, dia 21 de outubro, no Teatro Camilo Henríquez, na capital chilena.

Na instância não só participaram pessoas que vivem em Santiago, mas também dezenas de estudantes, trabalhadores e dirigentes sindicais que viajaram desde Arica e Antofagasta, cidades do norte do país, Valparaíso, Temuco e Puerto Montt, ao sul:

“Um dos propósitos principais da atividade era plantear claramente um projeto político nacional e internacional anticapitalista, desde e para o povo trabalhador. Queremos entrar com força no cenário nacional e propor uma alternativa de classe, que enfrente a direita e os empresários. Não queremos ser mais do mesmo e nos mover nas estreitas margens desse regime político podre”, comentou William Muñoz, trabalhador da indústria e presidente do Sindicato Komatsu Reman Center.

O ato contou com a presença de dois animadores, a atriz e militante do Partido de Trabalhadores Revolucionários (PTR), organização-irmã do MRT do Brasil, Valeria Yáñez, e o professor e integrante da agrupação docente Nossa Classe, Gabriel Muñoz. Além disso, a atividade foi acompanhada de vídeos spot das campanhas anticapitalistas de deputados pelo distrito 3 (Antofagasta) e da candidatura independente de Dauno Tótoro, pelo distrito 10 (Santiago).

Galia Aguilera, candidata a deputada pelo distrito 3 de Antofagasta

O discurso que abriu o ato foi o da professora Galia Aguilera, que se postula a deputada pelo distrito 3 e é militante do Partido de Trabalhadores Revolucionários. Aguilera se caracterizou pela intervenção que teve na cidade durante o processo de “rebelião das bases”, além de ser uma das principais impulsoras e fundadoras da agrupação de mulheres e diversidade sexual Pão e Rosas Teresa Flores.

“Hoje o povo trabalhador se sente cada vez menos representado pelos partidos dos ricos, suas próprias enquetes o demonstram; pois se oferece mais do mesmo: a exploração do trabalho pelo pão de cada dia, com salários que não alcançam cobrir as necessidades básicas, com a incerteza se vamos chegar ao fim do mês ou se a família acabará se endividando para pagar a educação dos filhos ou alguma doença que se apresente. Oferecem o saque dos recursos naturais, com milhões destinados às casas matrizes imperialistas e dos grandes empresários nacionais, como Angloamerican, BHP Billiton ou o grupo Luksic”, iniciou desse modo a professora.

Aguilera fez uma dura crítica à Nova Maioria e sua atuação ante os ataques da direita: “enquanto a direita está contra toda reforma que afete os interesses dos chamados ‘cidadãos poderosos’, como se autodenominou Luksic, a Nova Maioria propõe reformas que não afetam seus interesses e que logo moderam, ao compasso da direita. Por isso não são uma alternativa à direita, e sim são parte da mesma casta ligada aos Penta, aos Luksic e SQM”, continuou a docente.

“É por isso que nós, os trabalhadores, necessitamos de uma política própria, um partido de trabalhadores, baseado nos sindicatos e independente dos empresários e seus políticos. Planteamos também que todo parlamentário e autoridade política ganhe o mesmo que um trabalhador qualificado”, enfatizou Aguilera.

Bárbara Brito, vice-presidente da FECH (Federação de Estudantes da Universidade do Chile) e dirigente nacional do Pão e Rosas

A segunda personalidade que subiu ao palco foi a vice-presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile, atual postulante à presidência pela dita casa de estudos, e militante da agrupação Pão e Rosas, Bárbara Brito.

A estudante e reconhecida feminista realizou um potente discurso que enfatizou no aumento da violência contra as mulheres no país e no mundo: “Diante do horror dos brutais feminicídios, que até o dia de hoje cobram a vida de 57 mulheres chilenas, superando o número total de feminicídios de todo o ano de 2016, dizemos que o Estado também é responsável e exigimos um plano nacional de emergência contra a violência às mulheres”.

Brito, que atualmente se postula à presidência da FECH, fez menção ao papel que tem a juventude nas transformações sociais no país, e nos profundos questionamentos do atual regime político: “nos últimos anos, nós jovens fomos protagonistas de novos fenômenos políticos e enormes lutas em todo o mundo; pois são os capitalistas e sua casta de políticos corruptos que levam a milhares de jovens à pobreza. E se a juventude se levanta em defesa da educação, do trabalho, por Nem Uma a Menos, ou pelo direito a tempo livre e lazer, a viver nossa sexualidade como queiramos, ou pela legalização da maconha, obtemos como resposta a repressão”, manifestou a estudante em relação a atuação das autoridades.

A dirigente estudantil também criticou o papel da Nova Maioria e do Partido Comunista no desenvolvimento das mobilizações e das demandas da população: “Quero saber do que fala o governo, do que fala Guillier e o Partido Comunista quando dizem defender os direitos dos estudantes e trabalhadores, se são parte de um governo que gasta milhões em bombas lacrimogêneas e repressão para impedir que nossas demandas se expressem nas ruas”, denunciou Bárbara Brito.

Em relação ao atual debate estudantil, Brito foi clara em denunciar o papel do governo que “buscou nos dividir partindo em três a reforma educativa. A reforma às universidades estatais não integrou a gratuidade universal, buscou precarizar o trabalho dos funcionários e dos acadêmicos ameaçando com o transpasso do estatuto administrativo ao código laboral e arrebatando a autonomia universitária”, agregando que a organização Frente Ampla “se dedicou a negociar nossas demandas e incidir numa reforma que é estruturalmente neoliberal, que tem como fim regular o mercado educativo”.

Patricia Romo, candidata ao Conselho Regional do Chile (CORE) e presidente do comunal de Antofagasta do Colégio de Professores, e Lester Calderón, candidato ao CORE e presidente do Sindicato Orica.

Patricia Romo começou o terceiro discurso do ato se referindo aos ataques da ditadura de Pinochet contra os trabalhadores e sua organização: “a ditadura de Pinochet abriu um período de reação neoliberal. O movimento operário esteve marcado pelos ritmos da transição pactuada dos partidos da antiga Concertação – hoje Nova Maioria – que, junto à direita, buscaram frear sua organização com práticas antisindicais, como promessas de melhoras em suas condições de vida que nunca se realizaram”.

A dirigente do grêmio docente realizou uma crítica às atuais dirigências da CUT que “com fraude eleitoral e com uma política de chegar a acordos com o governo, postergou as grandes necessidades das e dos trabalhadores. (...) Em 2014 os professores se atreveram a superar sua direção oficial pela primeira vez na história do magistério em uma grande paralisação nacional que conhecemos como a ‘rebelião das bases’”, enfatizou Romo.

“Para dar essa luta é que impulsamos a agrupação Nossa Classe, porque a luta por essa unidade e as batalhas contra os abusos de chefes e sustentadores, requer urgentemente uma alternativa para sair a arrebatar nossos direitos das mãos da classe privilegiada desse país”, finalizou Patricia Romo.

Logo foi a vez de Calderón, trabalhador e dirigente sindical da indústria, que manifestou que desde “o Partido de Trabalhadores Revolucionários, hoje apresentamos candidaturas para fazer política nacional desde as e os trabalhadores (...) Temos sido parte de exemplos de recuperação de sindicatos, como viemos desenvolvendo em Antofagasta, no Colégio de Professores e no sindicato de embarcadores do Ferrocarril, onde enfrentamos a burocracia sindical que usufrui dos cargos sindicais sob interesses pessoais, alheios aos interesses da classe trabalhadora”, enfatizou Calderón.

“Somos conscientes de que não podemos nos limitar a essa luta em comum com setores combativos da classe operária. Essa tem que ser a base para construir um partido muito mais forte. É algo que necessitamos estrategicamente para vencer os capitalistas”, declarou o dirigente sindical.

Dauno Tótoro, candidato independente a deputado pelo distrito 10, Santiago

Por fim, foi a vez do candidato independente, Dauno Tótoro, ex-dirigente estudantil da Universidade do Chile, que iniciou seu discurso fazendo menção ao jovem Santiago Maldonado, desaparecido e assassinado pela Polícia Militar nacional da Argentina, em cumplicidade com o governo e as autoridades.

“Hoje está aberta a possibilidade de que Piñera e a direita chilena voltem ao governo no próximo ano e, com eles, toda uma agenda de ataques, como faz Temer no Brasil ou Macri na Argentina. Já vivemos o ano de 2011. Eu vivi nas ruas, na luta pela educação gratuita, quando desataram a repressão e assassinaram Manuel Gutiérrez”, denunciou Tótoro.

Tótoro criticou a atuação do governo no avanço da direita. “Se Piñera tem novas oportunidades de ser presidente, mesmo sendo totalmente rechaçado pela grande maioria da população, é porque a Nova Maioria, enquanto buscou frear as mobilizações nas ruas, moderou todas as suas reformas, negociando-as com os parlamentários corruptos, junto à Igreja e os grandes empresários, abrindo o terreno para a direita”.

Para o candidato a deputado pelo distrito 10, “se algo demonstrou o primeiro governo de Piñera (de 2010-2014), é que a verdadeira oposição à direita foi o movimento estudantil organizado nas ruas, com tomas, paralisações e luta”, remarcou.

No discurso também fez alusão à Frente Ampla e sua estratégia política: “se algo mostram as negociações para a segunda volta é que a Frente Ampla tenta recriar um caminho que já fracassou: fazer acordos com setores da centro-esquerda e do progressismo, os mesmos que nesses quatro anos afirmaram o ‘realismo sem renúncia’ que renunciou a tudo no Senado, os mesmos que administraram a herança da ditadura, os mesmos que têm inversões e negócios nas AFP, na educação, na mineração”, afirmou Tótoro.

“Não queremos nos limitar a jogar nas margens até agora infranqueáveis do capitalismo. Ser anticapitalista é estar contra uma sociedade em que um pequeno grupo de milionários, não eleitos por ninguém, decide o destino de milhões. Enquanto a grande maioria da humanidade, que trabalha e produz, vive em condições de pobreza. E é justamente essa grande maioria, a classe trabalhadora, a que pode terminar com o domínio dos exploradores”, rematou o jovem.

Assista o vídeo completo do Encontro Anticapitalista (em espanhol):

LINK DO VÍDEO: -
https://www.facebook.com/Laizquierdadiariochile/videos/2050891201807847/




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