Cultura

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Os Saltimbancos e como falar da revolução para crianças

quarta-feira 27 de julho de 2016| Edição do dia

Muitas vezes, quando é feita a tentativa de se discutir os grandes temas políticos na arte voltada para o público infantil, o resultado são obras ora panfletárias, moralistas, ora simplórias, condescendentes. Mas Os Saltimbancos é a prova de que não precisa ser sempre assim. Chico Buarque conseguiu, tanto no disco que adaptou de Sergio Bardotti, quanto na peça que veio a partir disso, atingir o ponto certo para que a linguagem lúdica e sensível, fundamental ao diálogo com crianças, pudesse ser usada para introduzir questões profundas. Em cada música, e nos diálogos que as intermeiam, é possível encontrar essas ideias, que em muitos momentos ecoam a tradição marxista, dando à história um subtexto anticapitalista e revolucionário, ainda que o próprio Chico hoje não siga todas as suas lições.

Bicharia

Uma espécie de prólogo à história, essa música serve como introdução e apresentação dos protagonistas e antagonistas. Os animais são retratados como aqueles que estão rompendo suas amarras, e as figuras humanas são quem os oprime e explora.

O Jumento

O primeiro animal a ser apresentado é o Jumento. É o personagem central da peça, e representa a classe trabalhadora, o proletariado, que na teoria marxista também tem centralidade. Sua primeira fala, transformando a onomatopeia ih-oh no pronome eu, é a representação do surgimento de uma consciência de si como sujeito revolucionário. Em sua caracterização, é possível notar que carrega também um dos grandes defeitos que precisam ser combatidos nos trabalhadores: seu pensamento machista. Isso se percebe quando o Jumento aceita ser chamado de burro ou jegue, mas o estopim para sua fuga é ser chamado de mula, ou seja, ser comparado ou confundido com uma mulher, como se isso fosse algum demérito. Além disso, o paralelo com o proletariado, que não acumula riquezas e precisou conquistar o direito à aposentadoria por meio de muitas lutas, se aprofunda na fala minha pensão, nem uma cenoura. Por fim, fica o recado, que serve também para quem duvida do potencial explosivo da classe trabalhadora: Quando a carcaça ameaça rachar, que coices que dá!

Um dia de Cão

O segundo animal a entrar na história é o Cachorro. Sua descrição é a de um soldado raso, treinado para sempre obedecer e seguir ordens, o que fica explícito nos seguintes trechos, e no uso dos termos destacados: Parecia que tinha acabado de chegar da guerra, Entrar na caserna, e Fidelidade à minha farda. Também traz uma grande contradição, assim como as organizações militares que representa: se um exército forte e bem organizado é fundamental para garantir a soberania contra os interesses imperialistas, a existência das polícias é uma ferramenta de repressão e manutenção das desigualdades e de toda opressão. Por isso, é necessário que seu poder seja contido, o que se dá pelo controle sobre suas instituições, que deve estar na mão dos trabalhadores. Na história isso se reflete pelo papel de liderança que o Cachorro confere ao Jumento, que mesmo não querendo acaba sendo quem direciona suas ações.

A Galinha

A próxima a entrar na turma é a Galinha, que foge da granja por ser desvalorizada após passar da idade reprodutiva. Sua música de apresentação gira muito em torno da figura do ovo (Todo ovo que eu choco), que evoca duas coisas, alimentação e reprodução. Esses são os dois principais papeis historicamente atribuídos às mulheres. Isso suscita a interpretação de que a galinha representa as mulheres em sua luta por emancipação da sociedade patriarcal, o que fica ainda mais claro quando é expresso o desejo de estar na crista da onda. A palavra crista não está aí por acaso: além desse sentido marinho, no mundo das galinhas, quem tem crista é o galo, ou seja, o homem.

Isso dá a entender que só aos homens é permitida a plena liberdade, e que é necessário que as mulheres lutem para poderem ter acesso aos mesmos direitos que eles. Por meio de sua música, convence o Jumento a aceitar que formem um trio, o que demonstra que pela luta das mulheres é possível combater o machismo enraizado nos trabalhadores, e criar uma luta conjunta pela emancipação total.

História de uma Gata

Por fim, temos a apresentação da Gata, uma artista que tinha uma vida confortável, mas foi impedida de voltar para casa após uma noite de cantoria junto aos gatos de rua. Sua música traz as ideias de liberdade e rebeldia como algo positivo (Nós gatos já nascemos pobres, porém já nascemos livres. Senhor, senhora, senhorio: felino, não reconhecerás). Além da relação mais óbvia e direta com os exilados no período da ditadura que sua caracterização traz, a distinção entre a Gata do apartamento e os gatos de rua pode ser entendida como o abismo que existe entre a cultura da elite e a das massas, questionando diretamente o papel que a arte cumpre na sociedade.

Parte desse questionamento também é qual a função de uma atividade que não está inserida no processo produtivo e que não serve para produzir lucro (ou pelo menos não deveria estar, ainda que no capitalismo mesmo a arte seja transformada em mercadoria...). Isso leva a uma discussão mais profunda sobre o significado de todas as atividades que realizamos. Nesse sentido, a figura da Gata se aproxima também da juventude, cujos laços com o mundo do trabalho não se estabeleceram por completo, e em boa parte por isso se encontra numa posição mais propícia para questionarem o funcionamento do sistema que outros setores.

Assim como a Galinha serviu para escancarar a contradição do Jumento, estar diante da Gata despertou o lado mais policial do Cachorro, de maneira semelhante à adversidade que as polícias demonstram em relação aos jovens. Para combater essa tendência, o Jumento dá a lição: O melhor amigo do bicho é o bicho.

A cidade ideal

Depois de todas as apresentações, o grupo finalmente inicia sua jornada em direção à cidade. O destino não é por acaso. O meio urbano moderno é a forma de organização social e espacial típica do capitalismo, que o cristaliza e perpetua. Ir à cidade é se dirigir ao coração desse sistema. Mas os animais conversam sobre como cada um imagina que a cidade deveria ser, e só o Jumento não tem ilusões sobre o que ela é. Pela caracterização de cada personagem, pode-se dizer que isso é porque a classe trabalhadora é a que sente mais diretamente a exploração capitalista, enquanto os outros grupos têm um nível de adaptação maior.

Por essa conversa, chegam a conclusão de que não basta ir à cidade, pois nela não há espaço para suas necessidades. Ou seja, se nós quisermos uma sociedade livre de toda a exploração e opressão, devemos criar um outro sistema, pois o capitalismo não dá.

Nessa música é feita uma outra discussão: se os animais são uma metáfora para os oprimidos e os humanos representam os opressores, as crianças são uma exceção. Isso reflete uma visão recorrente na arte, onde a presença das crianças é usada para transmitir as ideias de inocência no presente e de confiança num futuro melhor.

Minha canção

Nesse ponto da história, os animais resolvem ensaiar sua música, mas antes disso demonstram o pouco domínio que têm do assunto. Novamente é o Jumento quem tem a sabedoria, e quem lidera o conjunto no aprendizado das notas musicais. Essa canção não tem um conteúdo claramente revolucionário, mas merece ser mencionada porque nela se encontram vários conceitos interessantes.

O primeiro é o uso de camadas dentro de camadas similares, como uma cebola. Quando você ouve esta música, você está ouvindo artistas (a primeira camada, das pessoas que no mundo real gravaram a canção) representando animais artistas (a segunda camada, dos saltimbancos) que estão cantando sobre um artista e seu processo de criação (a terceira camada). Dessa forma, em uma canção na verdade há três (a que inclui os diálogos dos animais, a que eles cantam, e a que é composta pelo personagem dessa última). Além disso, a canção cantada pelos animais segue um padrão musical único, em que cada verso é formado por uma nota, na ordem da escala, e além disso a primeira sílaba da primeira palavra de cada verso é o nome dessa nota.

Pousada do bom barão

Depois desse quase interlúdio, os animais estão no fim de seu dia de caminhada, e procuram um lugar para pernoitar. Encontram a Pousada do Bom Barão, que além do nome pouco promissor tem um aviso que proíbe a entrada dos animais. O fato de terem o acesso bloqueado por uma placa, e não diretamente por uma pessoa, pode ser interpretado como uma alusão às leis no Estado burguês, que não acomodam as necessidades dos oprimidos, porque foram escritas pelos opressores. A primeira reação dos saltimbancos é tentar apenas burlar a lei; ver se conseguem entrar na pousada sem serem percebidos.

No entanto, do lado de dentro estão os quatro antigos donos dos animais, que então têm de decidir entre a fuga e a luta. Por estarem cansados de uma vida de exploração, decidem que o melhor é aproveitar a chance e se libertarem de uma vez por todas, expulsando os patrões e controlando a pousada eles mesmos.

Então, os animais planejam seu ataque, e partem para executá-lo. Após um breve confronto, os humanos fogem do local e os animais conquistam a pousada.

Todos juntos

Surpresos com sua vitória, os animais fazem uma pausa para refletir e compreender o porquê de terem sido capazes de atingir seu objetivo. Além de isso ser raro em histórias infantis mais rasas, onde o protagonista vence simplesmente por ser "do bem", essa reflexão é uma oportunidade para o Jumento ensinar mais uma lição aos colegas: Um bicho só é só um bicho, agora, todos juntos somos fortes. O que isso significa? Que somando nossas foças podemos atingir muito mais do que cada um numa luta separada. Ou seja, que a luta pela emancipação dos diferentes setores oprimidos e a luta contra o sistema de exploração de uma classe sobre a outra se fortalecem quando feitas de maneira conjunta.

Nessa canção, são enumeradas as qualidades de cada bicho. O Jumento é paciente, o Cachorro é leal, a Galinha é teimosa e a Gata é esperta. Cada uma dessas qualidades também tem um equivalente nos valores que devemos ter como revolucionários. A paciência nos ensina a preparar corretamente nossas forças e agir no momento certo. A lealdade nos mantém independentes da burguesia, confiando apenas no potencial que nós explorados e oprimidos temos para nos emanciparmos sem atalhos. A teimosia é o que nos faz continuar lutando mesmo nos momentos mais difíceis, de refluxo da luta de classes, de hegemonia ideológica burguesa, pois não basta esperar e confiar que um dia a maré suba, é necessário fomentar o ascenso operário. E a esperteza é a capacidade de identificarmos em que tipo de momento estamos, quais as forças temos e quais as batalhas que podemos dar.

Esconde-esconde

Após a noite de descanso, os animais decidem permanecer na casa que conquistaram, e desistem de ir à cidade. A primeira tarefa do dia, então, é defender seu território, pois, como diz o Jumento em sua última lição: Os homens sempre voltam. Quer dizer, é necessário consolidar nossas posições, pois a contrarrevolução virá para apagar nossas conquistas.

Infelizmente, uma falha na história é não perceber que a decisão de se fecharem na pousada, contando que sempre poderiam se defender, não tem como dar certo a longo prazo. É a mesma situação que se deu pelo desvio ideológico, profundamente antirrevolucionário, proposto por Stalin, quando defendeu a possibilidade da existência do socialismo em um só país. Esse isolamento foi um dos maiores fatores que causou a degeneração e burocratização do Estado Soviético, levando ao retrocesso de tudo o que tinha sido conquistado a partir de 1917, e com o tempo tornando a URSS um país imperialista à sua própria maneira.

Dentro da história, um final mais de acordo com as ideias revolucionárias seria se os animais, em vez de desistirem de ir à cidade, usassem a pousada como uma base de operações, de onde pudessem utilizar os recursos obtidos para fortalecer a luta de todos os outros animais, servindo como um exemplo para os explorados e oprimidos, para os excluídos e marginalizados, de que é possível lutar e vencer, sempre com a perspectiva de conquista e construção de um outro tipo de cidade, onde a ganância não tenha espaço e a injustiça não exista.




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