Política

LULA E TRIPLEX

O significado da “nova fase” do Lava Jato

Está sendo chamada de "nova fase da Lava Jato" a investigação sobre Lula e um apartamento triplex que sua família teria sido dona. O que estas investigações apontam dos rumos da Lava Jato e sobre o regime político no país.

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

sexta-feira 29 de janeiro de 2016| Edição do dia

As páginas dos principais jornais do país foram tomadas pelo que está sendo definido como a “nova fase da operação Lava Jato”. Essa nova fase se caracteriza por colocar cada vez mais Lula no olho do furacão. Tudo começou com uma investigação sobre a possível lavagem de dinheiro com negócios imobiliários pela empreiteira OAS, que teria assim atuado para favorecer ao ex-tesoureiro do PT João Vacari Neto, detido desde o meio do ano passado.

O esquema envolve a empresa panamenha de offshore Murray, proprietária de apartamento que de luxo suspeito de ser um local usado para lavagem de dinheiro, e alvo de propina. O apartamento está situado no condomínio Solaris no Guarujá, e todos os proprietários desses imóveis estão sendo investigados. O condomínio começou a ser construído pela Bancoop (Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo) que foi presidida por Vacari Neto. Quando a Bancoop, que também é suspeita de desvios durante a gestão de Vacari Neto para financiar as campanhas do PT, entrou em crise financeira o projeto foi repassado para a OAS. Inicialmente (e declaradamente) o alvo das investigações era a publicitária Nelci Warken, que também já havia prestado serviços para a Bancoop. Ela está detida e é investigada pela suspeita de comandar os negócios da offshore Murray no país, que teria servido para lavar dinheiro de Vacari Neto.

Lula como alvo

Mas fica claro que o alvo real dessa etapa das operações é Lula. Mesmo sem produzir provas decisivas contra o ex presidente petista, a entrada em cena de Lula se dá por diversas vias. Sabe-se que um dos apartamentos do condomínio Solaris teria sido reservado para a família de Lula. E há suspeitas de que durante a passagem em 2009 do condomínio ainda em construção da Bancoop para a OAS a empreiteira teria arcado com o pagamento da reforma do apartamento da família de Lula, como propina, totalizando um valor de 777 mil reais.

Lula adquiriu uma cota de participação da Bancoop em 2005, que funcionava sob o sistema em que os cooperados dividiam os custos dos imóveis que seriam construídos. Nas eleições de 2006, Lula declarou que havia pago a Bancoop um valor em torno de 50 mil reais pelo apartamento, enquanto corretores avaliavam o imóvel com o valor de pelo menos 1,5 milhão de reais. Posteriormente, o imóvel foi devolvido por Marisa Letícia, esposa de Lula.

A Promotoria também tomou o depoimento do zelador José Afonso Pinheiro, que trabalha no condomínio desde 2013. Questionado se Lula esteve no prédio, o funcionário confirmou. Segundo ele, Lula chegava normalmente em dois carros com seguranças que "prendiam" o elevador para a família, o que provocava reclamações de outros moradores.

O zelador relatou que a OAS "limpava o prédio, colocava flores para receber a família do ex-presidente". Segundo ele, um funcionário da empreiteira lhe pediu que não falasse que o apartamento era de Lula e da mulher, "mas da OAS". Depois que as investigações sobre o apartamento foram tornadas públicas a família de Lula não retornou ao prédio, segundo o zelador.

A investigação sobre o apartamento que seria de Lula estão sendo realizadas pelo promotor de Justiça Cássio Conserino, do Ministério Público paulista. O promotor diz ter indícios de que houve tentativa de esconder a identidade do verdadeiro dono do tríplex, o que pode caracterizar crime de lavagem de dinheiro.

A corrupção como modus operandi dos partidos da burguesia

Esse novo capítulo da operação Lava Jato está sendo amplamente alimentado pelos grandes meios da imprensa, e coloca Dilma, que se negou a dar declarações sobre o caso envolvendo Lula, na defensiva. Porém, mesmo com os resultados ainda não definidos é uma demonstração de que setores da burguesia e da grande imprensa estão determinados em seguir a sangria do governo do PT. Também servem para colocar limites na atuação política do ex presidente Lula, em meio a crise econômica e política que assola o país.

Ainda não se pode saber se as investigações envolvendo Lula serão levadas até o final, resultando em acusações, pelo custo político evidente que isso acarretaria. Esse custo implica não apenas nas eleições de 2018, ainda longínquas, mas porque colaboraria para minar ainda mais um dos mais importantes elementos de capital político com o qual Dilma conta: o próprio Lula. O que poderia acelerar a crise do regime e de representação que atinge a todo o regime, numa situação em que todos os partidos da burguesia estão enlameados pela corrupção, e não há nenhuma alternativa política despontando no cenário nacional.

Mas a despeito da campanha da imprensa e de Moro, o que se conclui é como todos os partidos da burguesia, que são os pilares desse regime, democrático especialmente para os ricos e seus representantes políticos, utilizam o modus operandi da corrupção. PT, PMDB e PSDB, todos atuam sob esse mesmo pacto, como se pôde constatar nas obras do metrô de São Paulo, chefiado pelo PSDB. Nas denúncias contra Aécio Neves por pagamento de propinas, daquele mesmo partido, e nas várias acusações a diversos setores do PMDB, todos estão na Lava Jato. Essa promiscuidade corrupta é a pedra de toque da política da burguesia no país. Como se expressa, de maneira ainda mais gráfica por se tratar de um único indivíduo, em Delcídio Amaral. Preso por ter tentado criar um esquema para calar o ex-diretor internacional Nestor Cerveró, Delcídio, ex-líder do senado migrou do PSDB para o PT.

Mesmo a operação Lava Jato, que é amplamente elogiada pela imprensa burguesa, é uma demonstração de que em verdade vela por interesses completamente alheios aos do povo e dos trabalhadores. Os juízes que estão comandando a operação tampouco são “isentos”, e eles mesmos são detentores de imensos privilégios. Uma resolução progressista do problema da corrupção no país não pode vir daqueles que compactuam com as cúpulas de poder, dominam as estatais, e são subservientes aos monopólios imperialistas. Somente o povo e os trabalhadores podem oferecer uma saída de fundo. Por isso há que lutar por uma assembleia constituinte imposta pela mobilização popular e pelos trabalhadores, que devem ligar a isso a constituição de uma mobilização que pela luta de classes façam os ricos e seus partidos pagarem pela crise que criaram.




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