Cultura

ARTE E CULTURA

O rock e as lutas sociais em 1968

O compacto da canção Street Fighting Man, da banda de rock inglesa Rolling Stones, lançado em 1968, escancarou de uma vez por todas os vínculos políticos do rock com a agitação política do período.

Afonso Machado

Campinas

terça-feira 22 de maio| Edição do dia

Mick Jagger declarou na época: “É idiota pensar que se pode começar uma revolução com um disco. Eu gostaria que isso fosse possível". Até que ponto os conjuntos de rock dos anos 60 eram expressões musicais das lutas sociais ou meros reflexos da cultura jovem embalada para vender é uma questão a ser pensada. Mas se a memória dos conflitos políticos não é somente imagética mas também sonora, quem poderia refutar que a guitarra foi em 68 um item tão presente quanto pedras, coquetéis molotov, cartazes e bandeiras no enfrentamento dos fundamentos da civilização burguesa?

Se os Rolling Stones são ou não a maior banda de rock de todos os tempos este é um debate para fãs, críticos e historiadores deste gênero musical. Mas dizer se os Stones foram ou não uma das bandas mais socialmente perigosas para o status quo já é uma questão que aguça também a curiosidade dos militantes de esquerda. Não se trata tanto daquela sacada de marketing em que Jagger e companhia seriam uma versão diabólica dos Beatles. Isto sim é algo datado, mero mecanismo comercial dentro da cultura de massa dos anos 60. Voltando à declaração do vocalista dos Stones, a questão que nos interessa é saber se uma canção, mesmo mergulhada nos esquemas comerciais, poderia influenciar a luta política.

Que uma ideia política, inclusive uma ideia política subversiva, possa ser comunicada através de um livro, de uma pintura, de um filme ou de uma peça de teatro, todos sabemos que sim.
Para o marxismo, a arte em si não provoca revoluções, mas pode participar ativamente de uma revolução enquanto importante força ideológica. Pode-se dizer que o mesmo ocorre também com canções inseridas no já nostálgico formato do disco. Um possível argumento para negar este fato é que, enquanto produto direto da chamada indústria cultural, o disco estaria contaminado por uma fórmula comercial que tende à padronizar a expressão e gerar manifestações que seriam distintas das obras de arte.
Mas como sustentar este argumento quando nos deparamos com canções que não apenas integravam-se ao conteúdo político dos quebra paus de rua de 1968, mas causavam também problemas na própria cadeia produtiva em que a música era disseminada? Street Fighting Man foi banida da BBC. Em Chicago, palco de conflitos em que a prefeitura tinha literalmente ordenado que a polícia metesse bala nos manifestantes, as rádios também proibiram a música dos Stones.

Além destes fatos históricos, seria difícil neste período da carreira dos Rolling Stones afirmar que os caras seguiam à risca fórmulas comerciais.
Ainda que tivessem os bolsos cheios de grana, ainda que compactuassem com as estruturas comerciais, a banda deitava raízes na violência estética, no experimentalismo, criando um rock visceral cujo teor altamente sexual e as atitudes libertárias não eram bem vistos pelas autoridades. Esta música poderia ser qualificada de revolucionária? A palavra "revolução" nem sempre era politicamente precisada nas inúmeras manifestações políticas e artísticas do período. Nem sempre as convulsões culturais dos anos 60 estavam atreladas a um projeto político em que o proletariado lidera uma revolução e estabelece um regime socialista de transição. No entanto, o que muitos militantes comunistas se esquecem é que a cultura em épocas revolucionárias ou de agitação social precisa necessariamente provocar o desiquilíbrio da moral dominante e rupturas estéticas que trabalham, a seu modo, pela destruição do regime burguês.

A questão não é afirmar que os Stones eram compositores revolucionários, mas sim uma barulhenta expressão da rebeldia que é importantíssima para o ritmo cultural em épocas revolucionárias. Na canção Street Fighting Man, por exemplo, o clima do Maio de 68 pulsa de cima a baixo. Na letra da música, o rock é entendido enquanto canal de comunicação da juventude proletária com a vida política contestadora: "Então o que mais um garoto pobre pode fazer a não ser cantar em uma banda de Rock’n’Roll? Porque na Londres adormecida simplesmente não há lugar para um guerreiro de rua (...)".

Diante dos últimos acontecimentos na Inglaterra, quando a mídia capitalista preocupou-se em narrar os modelos de chapéus, vestidos e ternos dos convidados do casamento do príncipe Harry, não deve ser fácil para um garoto pobre inglês se fazer ouvir através do rock ou de qualquer outra forma artística contestadora. Ainda assim, a canção clássica dos Stones que integraria o álbum Beggar´s Banquet, também de 1968 (e, diga-se de passagem, um dos mais importantes discos de rock dos anos 60) é um exemplo histórico em que a música torna-se o ar político por onde muitos jovens enchiam seus pulmões.

É preciso ter cuidado para que o clássico não seja cultuado, o que entraria em contradição com a função social e política da arte do nosso tempo (quando a obra de arte fica próxima das massas, como no caso da música pop, é preciso a exemplo do que nos ensina Walter Benjamin, expor o fim do ritual e defender o caráter político contestador da arte).
Para quem souber ouvir, o rock de 1968 sussurra mensagens subversivas para os jovens de 2018.




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