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ESCRAVIDÃO NEGRA EM 2016

O que o hotel escravista do Vale do Paraíba diz sobre o "fim" da escravidão?

sábado 10 de dezembro de 2016| Edição do dia

Na última semana com a notícia publicada na mídia Catraca Livre sobre o Hotel Fazenda "Santa Eufrásia", no Vale do Paraíba, região fluminense do Rio de Janeiro, onde por $35 o turista pode viver a experiência escravista por um dia. Essa aparente anacronia revela muito, na verdade, sobre a psicologia e os objetivos mais modernos da elite brasileira.

Sobre a fazenda e o passeio

A notícia foi produzida através da publicação no blog Intercept, onde a blogueira Cecilia Oliveira descreve a visita guiada pela dona da fazenda, a herdeira Elizabeth Dolson, que recebe os turistas vestida de sinhá e dizendo “Geralmente eu tenho uma mucama, mas ela fugiu. Ela foi pro mato. Já mandei o capitão do mato atrás dela, mas ela não voltou (…) Quando eu quero pegar um vestido, eu digo: ‘duas mucamas, por favor!’. Porque ninguém alcança lá em cima”.
Depois de um tour pela fazenda, onde muito sangue negro já escorreu, os turistas são servidos por mulheres e homens negros vestidos de escravos, uma verdadeira "viagem no tempo" para o século XIX. A crueldade está em cada detalhe: na reprodução dos estamentos sociais da mucama e da sinhá, na reprodução do trabalho forçado em um "saboroso" café da tarde, mas principalmente, a crueldade está no que não é dito.
A visita trata como um deleite a história da escravidão, tingindo de bucolismo uma terrível história de genocídio, tortura, estupros e cruel sadismo por parte dos donos de escravos. Como antes de mim, disse a blogueira Cecilia, há uma mania da elite brasileira de tratar a história da escravidão com um tom nostálgico e bucólico, enquanto ela própria sofre ao visitar os museus dedicados à memória dos mortos pelo holocausto.


imagem: Igor Alecsander, extraída do blog The Intercept

A sinhá contemporânea e o passado de medo de seus progenitores

O triângulo comercial que movimentou a economia internacional, levando inclusive à solidificação da Inglaterra como grande potência imperialista ao início e meio do século XX, foi marcadamente propiciado pela escravidão negra, e é dos princípios da exploração do trabalho escravo negro que se data o racismo. A burguesia brasileira foi submetida a seguir o plano de ascensão da potência inglesa, e para evitar esse destino, tinha uma opção muito contraditória: se apartar da dominação imperialista e organizar a revolução democrática nacional nos modelos da independência norte-americana.
O problema é que o modelo norte-americano contou com uma forte participação das massas, inclusive negras, que na época da libertação nacional era cerca de 20% da população.
Como disse CLR James, os negros participaram da luta pela independência com uma energia explicada apenas pelo mais íntimo desejo de liberdade. A burguesia brasileira precisava contar com essa energia dos negros para se libertar do jugo colonial, e tentou contar com ela em dois momentos incríveis da história nacional.
Na Conjuração Bahiana, a elite cansada da tarifação colonial decide se armar para se independentizar da colônia. É obrigada a paralisar o processo e reprimir os negros que se somaram a luta, porque a luta pela liberdade para a elite não tinha esse mesmo significado para os negros, que automaticamente se viraram contra sua direção.
O mesmo ocorreu na Inconfidência Mineira, onde antes mesmo de sair do controle como na Bahia, a elite já deu conta de assassinar Tiradentes, dentre outros líderes, pelo medo que havia acumulado na experiência da Conjuração e pelo desastre anunciado para a elite, que tremia toda a espinha com medo da Revolução Negra do Haiti.

Saudosismoo e nostalgia: os traços psicológicos e materiais da burguesia nacional

A libertação não foi mais do que uma obrigação para essa elite, fez parte das necessidades de um momento histórico que precisava do trabalho livre para exportar capital e fortalecer a indústria.
Uma elite que acumulou pânico, terror e aflição dos negros jamais poderia sonhar com a libertação, em verdade, morria e sempre morrerá de medo ao saber que os negros que ela oprimiu, escravizou e trucidou, em verdade são muitíssimo poderosos, numerosos e preenchidos de profunda energia revolucionária.
A sinhazinha da Fazenda em questão, junto a seu profundo racismo, comprova, além da óbvia impunidade ao racismo, uma saudade de um mundo onde matar, torturar e estuprar eram métodos inquestionáveis.
Essa sinhazinha e toda a burguesia moderna que ela representa (o judiciário que prende negros em julgar, os Dorias "trabalhadores" herdeiros de escravidão) pensam que podem fazer e dizer o que quiserem, comandam a polícia que aterroriza na Cidade de Deus, em Manguinhos, em todos os morros e periferias do país.
Mas a nostalgia escravagista diz mais do que poder, fala sobre a podridão desse poder e sobre a inquestionável resistência de todos os oprimidos.
Fala a verdade que está por detrás do racismo. Fala sobre lucro e medo de um lado, energia e vontade revolucionária de outro.


imagem: Igor Alecsander, extraída do blog The Intercept




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