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IRAQUE

O que está acontecendo no Iraque?

Os protestos no Iraque que acontecem fazem várias semanas e foram retomados com força no dia 25 de outubro. Apesar da brutal repressão, das centenas de mortes e do anúncio da renúncia do primeiro ministro, as manifestações crescem intensamente, com um forte componente juvenil. Mas quais são suas causas mais profundas?

quarta-feira 6 de novembro| Edição do dia

Durante outubro, desde Hong Kong até o Chile, passando pelo Líbano, Cataluña, Honduras e Haiti, escutamos as palavras "protesto", "revolução", "caída do regime", com uma grande presença de jovens e mulheres; o que marca uma nova situação de luta de classes a nível mundial.

Nenhum desses protestos é tão sangrento quanto o do Iraque. O país vive a irrupção mais selvagem das massas contra o regime político desde a queda de Saddam Hussein. O desmembramento estatal, a corrupção da casta política que maneja o petro-Estado e a profunda crise econômica que atravessa o país, são os explosivos que empurraram milhares de jovens em várias cidades no Iraque, de Bagdá a Kerbala, a se enfrentar nas ruas contra o governo, o qual não hesitou em reprimir ferozmente as mobilizações.

Em Bagdá, a Praça Tahrir (Independência) se converteu no epicentro de organização de onde partiam as colunas desde a chamada "Zona Verde". Ali se encontram as principais instituições do Estado, as embaixadas estrangeiras e é o local de residência da elite política e economic protegida por uma muralha de concreto levantada pelos estadunidenses. A mensagem é a seguinte: as demandas deixaram de ser econômicas e se tornaram políticas.

Os iraquianos replicaram a consigna libanesa de "Todos significa todos" para se referir à casta política sectária que governa o país, mesmo o primeiro ministro Adil Abdul-Mahdi apresentando a sua renúncia e anunciando trocas de gabinete e novas eleições. Formalmente a situação se encontra nas mãos do presidente Barham Salih que deve escolher entre aceitar ou não a renúncia e chamar novas eleições. Mas as massas seguem pressionando nas ruas.

Durante outubro, a repressão esteve nas mãos da polícia e das milícias pró-Iranianas que temem que diminuía a influencia ganha com as conquistas militares contra o Estado Islâmico. Deixaram um saldo de pelo menos 250 mortos e perto de 5.000 feridos. A maioria das mortes foram de civis que se asfixiaram com gás lacrimogêneo, sofreram feridas fatais ou foram assassinados por franco atiradores identificados como pertencentes das milícias pró-Iranianas.

Como é a situação econômica?

O Iraque conta com uma vasta riqueza petrolífera, é atualmente o terceiro exportador mundial e pertence à OPEP. Entretanto, a exploração dos poços está nas mãos de empresas imperialistas como Total, Exxon e Shell, e quase metade da produção alimenta a maquinaria industrial chinesa, deixando a grande maioria dos iraquianos vivendo na pobreza, com acesso limitado a água limpa, eletricidade, atenção médica básica e educação. Além disso, a fraudulenta dívida externa, aplicada pelos Estados Unidos em 2003, aliviada pela China, não para de aumentar desde então, superando os 100 milhões de dólares, o que é basicamente 60% do PIB.

Aproximadamente 90% da receita do governo provém de royalties do petróleo e gasta quase metade do seu orçamento para pagar funcionários. O aumento demográfico nos últimos anos mostra o ingresso de oitocentos mil jovens que alcançam a idade de trabalho todo ano, sem a perspectiva de um trabalho estável. O governo deixou de publicar estatísticas de desemprego em 2017, quando se revelou que a taxa de desemprego foi para 13% e que o desemprego juvenil é quase o dobro. A situação econômica só piorou desde então.

Os sistemas de eletricidade e água controlados por empresas norte americanas são obsoletos. A saúde e a educação estão em níveis piores que na época de Saddam Hussein. As grandes companhias construtoras norte americanas empregam operários através da "kafala", um sistema escravista que contrata trabalhadores do sudeste asiático, explorando o negócio da reconstrução do país depois da guerra, um negócio pretendido também pela China que planeja incorporar o Iraque ao seu mega projeto da Rota da Seda. Neste sentido, a grande maioria da população opina que os únicos que se beneficiam da situação atual são os líderes políticos que dividem a receita do petróleo para pagar seus seguidores e levar estilos de vida luxuosos na "Zona Verde", favorecendo interesses de potências estrangeiras.
Como é o sistema político?

O Iraque vive desde a caída do Império Otomano sob regimes que foram tanto quanto ou até mais opressivos. Primeiro com os reis hachemitas, Faysal I e Faysal II, colocados pela coroa britânica com o pacto de Sykes-Picot -que traçou as fronteiras do Oriente Médio sem respeitar as diferenças culturais e nacionais-, e aplicou uma série de golpes militares comandados por generais que aderiam às ideias do nacionalismo árabe e ao partido Baaz. Saddam Hussein será o último a dar um golpe de estado sangrento que durará desde 1979 até 2003, estabelecendo um regime opressivo sob condições de vida muito duras para as massas. Neste período, levou ao país uma das guerras mais longas do século XX com o Irã (1980-1988), depois com Kuwait e com os EUA na Primeira Guerra do Golfo (1990), deixando consequências internas catastróficas. Hussein colocou uma das confissões do Islã, a sunita -minoritária no Iraque- a ocupar os cargos mais importantes do Estado e o exército para governar de forma opressiva sobre a outra confissão, a xiíta, que é majoritária.

A "Operação Freedom" (operação liberdade), com a qual o EUA liderou uma coalizão de países para invadir o Iraque em 2003, não buscava tanto assim armas de destruição em massa, mas uma troca de regime que fosse favorável aos seus interesses. Por isso, sem levar em conta seu tecido étnico-religioso, desmantelou o Estado iraquiano, fundindo velhos conflitos sectários e étnicos do país, o que levou a uma longa guerra civil até a retirada dos EUA em 2011. Em 2014 nasce a Ísis, como produto da aliança entre jihadistas e parte do exército baazista desmobilizado, reabrindo um dos conflitos mais sangrentos com a ingerência de todas as potências mundiais. Apesar do Estado Islâmico estar liquidado, as tropas dos EUA e Irã continuam ocupando grandes porções de território.

O sistema político iraquiano é um dos mais complexos. Em 2005 é ditada uma constituição das mãos dos EUA, a qual busca estabelecer uma "democracia" para equilibrar os distintos componentes étnico-religiosos: árabes, curdos, yazidis, cristãos, etc, com maioria sunita no noroeste e centro do país, xiita no sul e centro e os curdos no noroeste que, por sua vez, controlam de forma semi-autônoma essa região. Em todos este processo de "normalização", o Irã foi um fator importante para ajudar os EUA nesta empresa.

O território está desmembrado, provavelmente o Estado controle faticamente algumas poucas cidades, enquanto inúmeros enclaves urbanos estão nas mãos de clérigos religiosos apoiados diretamente pelo Irã, como Al-Sadr e Al-Sostani no sul, que contam com suas próprias milícias xiitas, equipadas pelo Irã para combater a Ísis, assim como no noroeste sob as mãos de duas das famílias curdas mais poderosas e aliadas dos EUA, como os Talibã e os Barzani.

O acordo estabeleceu que o presidente seja kurdo, o primeiro ministro xiita e o presidente do parlamento sunita, conformado entre a diversidade de partidos o que é conhecido como um governo de "unidade nacional". A verdade é que serviu para que o poder fique nas mãos de distintas famílias e líderes sectários históricos do país.

Da mesma maneira, dentro do parlamento estão reservados porcentagens proporcionais à quantidade de população vinculada de forma etno-religiosa. Por isso, os partidos que mantêm o controle estatal também controlam o acesso ao emprego. Assim, os ministros entregam postos de trabalho exclusivamente aos membros de seus próprios partidos. Um modelo que se manterá caminhando ao longo da borda durante anos de guerra civil, com um aumento da corrupção, deixando a população em condições econômicas e sociais miseráveis. Contra esse sistema é que vemos a juventude rebelar-se no Iraque.

Uma juventude que questiona a influência do Irã e dos EUA

O Irã viu na luta contra o Estado Islâmico uma oportunidade para extender sua influência não apenas militar mas também política, econômica e cultural na região, estabelecendo um corredor pró-Iraniano entre Teherán, Bagdá, Damasco e Beirute. Seu objetivo é o de localizar-se como potência com a qual o imperialismo deva mediar, contrariando seus inimigos carnais como Israel e a Arábia Saudita, aproveitando o "vazio" que o EUA deixou depois do fracasso histórico de sua intervenção no país.

Fazem anos que o Iraque é arrastado por manifestações contra a corrupção, por exigências de emprego e melhores condições de vida. Até agora haviam sido contidas e dirigidas pelos líderes clericais, como o Al-Sadir que lidera a coalizão mais importante do governo, ainda que não participe diretamente, ou o Al-Sistani, que é a figura mais importante em termos religiosos, mas com uma grande influência política e social. Ambos de alguma maneira levantaram demandas das massas e inclusive foram fundamentais para a assistência social. No caso de Al-Sadr, trata-se do líder da coalizão de partidos xiitas mais votado nas eleições de 2018.

Entretanto, nessa ocasião o movimento de protesto não deixa margem a entrada de nenhum grupo religioso ou político do regime. Canalizaram toda a sua ira contra o governo de conjunto, levantando a mesma consigna que as manifestações do Líbano "Todos significa Todos". As propostas de reformas do clérigo Al-Sard, de chamar eleições ou trocar o gabinete, foram ridicularizados por parte dos manifestantes. Ele foi ainda mais repudiado por condenar “a violência injustificada”, chamando a “paz”.
Nas ruas, os jovens cantavam “Irã barra, barra” (fora, fora, Irã), uma mostra do mal-estar com o país vizinho, estendido por todas as cidade xiitas, que já vêem no regime dos Ayatollahs o principal responsável pela situação.

Além disso, durante os protestos viu-se cada vez com mais protagonismo as mulheres, sobretudo jovens, estudantes que saem às ruas, que cantam consignas contra o Governo e o regime, questionando as normas medievais, e que também são reprimidas pela polícia.

A ideologia “ocidental” nos fala de um Oriente Médio “bárbaro”, onde apenas existem “antigas tradições”. Entretanto, a juventude iraquiana explodiu este mito: se elevou acima das diferenças sectárias e políticas para questionar um regime estabelecido pelo imperialismo norte-americano junto a seus aliados regionais. Há de se ver se, em um contexto de luta de classes a nível mundial, a juventude do Iraque, assim como a do Líbano e depois de anos de uma guerra reacionária, podem conduzir um novo futuro no Oriente Médio, que conseguirá se aliar às mulheres e aos jovens da Palestina, Síria, Egito, Irã, Arábia Saudita e Israel, onde ainda se respira os ares da Primavera Árabe, este é o seu desafio. O que é certo é que a luta de classes deverá se agregar ao cálculo de uma das regiões com os conflitos geopolíticos mais importantes da atualidade.




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