Cultura

ARTE E MARXISMO

O que Marx tem a dizer para os artistas?

Afonso Machado

Campinas

terça-feira 7 de novembro| Edição do dia

Quando não é usada como enfeite milionário e ideologia barata na gigantesca loja que o capitalismo afixou para toda a cultura, a arte “ não serve pra nada “. Talvez esteja exatamente aí o pulo do gato: fora do interesse da acumulação, a arte em sua inutilidade comercial pode ser um troço perigoso para a ordem, pode ser uma atividade altamente subversiva. A arte abriria uma espécie de fenda na realidade, revelando uma riqueza sensorial, uma experiência verdadeiramente humana que é reprimida pelo sistema. Ao mesmo tempo, uma sólida tradição marxista nos diz que é preciso também insistir no papel político da arte, no seu potencial ideológico. Considerando aqui as especificidades filosóficas do Materialismo Histórico Dialético, o que Marx tem a dizer para um artista dos nossos dias? De olho nas mudanças presentes no mundo do trabalho, de que maneira a arte poderia agir sobre a dimensão subjetiva da classe trabalhadora?

Na edição 02(agosto/setembro deste ano) do periódico Ideias de Esquerda: Revista de Política e Cultura, existe na interessantíssima entrevista realizada com a professora Ursula Huws, uma reflexão sobre obstáculos “ estruturais para a aquisição da consciência de classe “: a ausência do “ sentimento de direito “ entre os trabalhadores( para se buscar melhorias nas condições de trabalho), o racismo, a xenofobia e outros fatores, são entraves para que os novos setores e os setores clássicos do proletariado se reconheçam como parte de uma mesma classe. Como a arte poderia ajudar os trabalhadores na luta política pela sua libertação? Geralmente é louvável encontrarmos um artista que milita numa organização de esquerda, e decide fazer da sua arte um contexto expressivo de denúncia e agitação de caráter anticapitalista. Este artista enfrenta hoje um duplo problema: de um lado uma blitz reacionária, em que alguns jornalistas e acadêmicos julgam que toda arte engajada seria sinônimo de Realismo Socialista. Do outro, a desconsideração do artista quanto as especificidades da produção e da linguagem artística, levando assim os espectadores/leitores à terra artificial da propaganda. Seria bom se este artista estudasse as ideias de Marx. Um outro tipo de artista progressista, é aquele que sem pretender tratar objetivamente de ideias políticas, expressa pela ação artística sua revolta contra a civilização burguesa. Mas nem sempre esta revolta está embasada no entendimento objetivo da relação entre arte e sociedade. Seria bom se este artista também estudasse as ideias de Marx.

Ambas as posições artísticas mencionadas acima interessam à classe trabalhadora: o engajamento político e a rebelião poética que não levanta bandeira, desafinam a unanimidade ideológica e o empobrecimento espiritual presentes no capitalismo. Os obstáculos para a conscientização dos diversos setores de trabalhadores assolados pela fragmentação do espaço do trabalho, são combatidos quando manifestações artísticas reivindicam mudanças subjetivas, ampliando a vivência/ entendimento da realidade e engendrando atitudes rebeldes que interrompem o cotidiano alienado . Dentro do pensamento contemporâneo, o Materialismo Dialético oferece um entendimento histórico para fundamentar as práticas artísticas que expressam o quanto as coisas não vão nada bem na civilização capitalista. Longe de legar uma norma artística, Marx fornece uma crítica que solucionou os enigmas filosóficos da estética do passado.

As escolas filosóficas e os pensadores anteriores a Marx, conceberam os problemas estéticos a partir do antagonismo entre o indivíduo e a coletividade, a liberdade e a natureza, o útil e o belo, o sensível e o racional etc. A realidade ideal da arte estaria sempre acima da realidade concreta. A obra de arte realizaria idealmente a harmonia social. O extraordinário elenco de pensadores que entre os séculos XVIII e XIX debruçaram-se admiravelmente sobre a estética( Diderot, Kant, Schiller, Hegel e muitos outros) não puderam frisar a relação objetiva entre os fatores psicológicos presentes na experiência sensível e o modo de produção. Quer dizer, as contradições da consciência humana não tinham sido até então vistas/problematizadas “ à luz da história real “. Ainda que não tenham tratado com profundidade as questões artísticas, Marx e Engels(autores de notáveis observações estéticas, sobretudo no campo da literatura) puxaram os idealistas pela asa para mostrar que as formas de consciência possuem uma raiz material.

Concebendo os homens como os produtores de suas próprias ideias/representações, condicionadas pelo desenvolvimento das forças produtivas de uma dada sociedade, Marx chegou a seguinte conclusão: enquanto dimensão que nasce e se desenvolve a partir do trabalho, a arte é afetada pela própria divisão social do trabalho. Portanto, se o econômico possui relações com o estético, se a manifestação do espírito nasce da matéria, não existe um abismo intransponível entre ideal e realidade. A obra de arte não é refúgio mas um produto estranho às leis do capitalismo(este último acaba por submeter a arte a um processo de mercantilização) . Comprovando que as clássicas contradições humanas expressas no âmbito da estética repousam na economia, o pensamento de Marx nos permite entender que a arte em si nega a ordem social estabelecida(não é possível desenvolver plenamente as potencialidades artísticas num regime de exploração e alienação).

A partir de Marx as reflexões estéticas mudaram radicalmente. Agora não estamos mais falando do criador romântico, que protesta em nome de um ideal sem ameaçar pra valer o modo de vida burguês. Seguindo o exemplo de Brecht e Benjamin, seria interessante substituir a ideia do artista como “ criador supremo “ ou “ gênio isolado “ pela ideia de produtor: assim como o operário( que fabrica o objeto físico) ou o chamado cyberproletário (que processa informações através da tecnologia digital) o artista produz sua obra na terra e não no céu. Isto não quer dizer que a obra de arte deva ser um objeto destinado a um conteúdo frio e rasteiro. Atento às relações entre forma e produção, o artista revolucionário precisa liberar a imaginação atrofiada, dando inclusive voz ao seu inconsciente. O fato é que, independentemente da orientação estética de um artista, as ideias de Marx alteraram o entendimento que fazemos da cultura em geral.

O verdadeiro artista realiza o contrário da mais valia: a terrível mágica em que o dispêndio de energia do operário converte-se em dinheiro, máquinas, terreno e riquezas em geral , é denunciada pela magia da arte; quer dizer, a arte nos permite enxergar a vida roubada no trabalho alienado, a ganância do burguês, os desejos recalcados, o sonho trancafiado, a miséria e a exploração integradas na cidade e no campo. Enfim, o artista que leu Marx enriqueceu sua visão de mundo porque tomou consciência de sua missão nos nossos dias: fazer com que a classe trabalhadora sinta a necessidade de uma outra vida, num mundo concreto, historicamente possível.




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