Internacional

CONFLITO AGR CLARIN

O parlamentarismo revolucionário do PTS durante a greve dos gráficos da Clarín

A luta de centenas de trabalhadores argentinos, que vem sendo exemplar não só pela abnegação, tem transmitido esperanças a amplos setores que a conhecem a cada dia ao reafirmar consequentemente alguns dos pilares da estratégia dos marxistas revolucionários: a auto-organização operária contra a patronal, a solidariedade de classe e a conspiração de trabalhadores revolucionários contra as instituições do estado burguês.

Raphael Mouro

@mouro_77

quarta-feira 25 de janeiro| Edição do dia

Ao chegarem para trabalhar no dia 16 de janeiro deste ano, os operários argentinos da gráfica AGR-Clarin receberam a notícia de que eles também fariam parte do crescente número de desempregados do país. Logo souberam que sobre suas costas a patronal acabava de descarregar todo o peso dos ajustes e da precarização referendados pelo presidente Macri e que pouco lhes restava a não ser aceitar a condição de pegar sua senha na fila dos milhões de demitidos no exército industrial de reserva.

Uma historia que poderia ser mais uma das que se repetem, fruto das mazelas da crise do capitalismo, desde o Brasil de Temer à França de Hollande.

Porém, a postura dos operários gráficos da AGR-Clarin (impressora do conhecido jornal argentino ‘Clarin’) frente aos grilhões que os encaminhavam ao conformismo de compor a massa de desempregados não foi de indiferença, e tal condição levou a um ‘despertar’ oposto ao que esperam os patrões que demitem em massa. Na verdade, os trabalhadores deram um passo no sentido que mais temem os patrões: um passo para a consciência de classe, decidindo ocupar a fábrica contra as demissões.

Não por coincidência, fazia menos de 1 mês que a vanguarda dos trabalhadores em seu país comemorava, através de atos massivos, os 15 anos das chamadas Jornadas Revolucionárias de dezembro de 2001, ou para alguns, o ‘Argentinazo’, nome também dado à rebelião popular que estourou o país no auge da crise econômica e política da burguesia argentina e que resultou na quebra financeira de milhões de pessoas, no fechamento de milhares de fábricas e num processo de ocupação de centenas delas.

Pode-se dizer que a consolidação da própria FIT (Frente de Esquerda e dos Trabalhadores), e do PTS em particular, que vem atuando e intervindo conjuntamente no conflito da AGR-Clarín, é também fruto desse ‘exercício’ de luta de classes que há 15 anos vem pondo em forma a vanguarda dos trabalhadores argentinos, que chegam a ocupar fábricas e a colocar algumas delas para produzir sem patrões, como a ceramista Zanon (atual Fabrica Sin Patrones, FaSinPat) e a gráfica MadyGraf (antiga RR Donnelley, também gerida pelos próprios trabalhadores depois de uma dura luta contra demissões).

É nessa atmosfera que a decisão dos trabalhadores da AGR-Clarin em ocupar a planta para resistir aos planos da patronal logo contagiou diversos setores que vão para além da esquerda e sua história vem sendo conhecida a cada tentativa da polícia de retomar a empresa para o patrão.

A solidariedade de classe e o parlamentarismo revolucionário

Para vencer lutas duras como essa, é fundamental que este ‘contágio’ se alastre e ganhe apoio de demais setores da classe operária argentina e é nesse sentido que vemos a atuação de vários sindicatos combativos.

Parte desses sindicatos foram retomados das mãos da burocracia peronista a partir da luta por um sindicalismo de base, pelo qual o Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) lutou incansavelmente nesta última década e meia, para que o poder e atuação dos sindicatos viessem a partir da eleição de delegados desde as bases dos locais de trabalho, minando assim a velha prática de ‘encastelamento’ e o peleguismo da burocracia sindical. É desta nova expressão dentro de sindicatos, ou através de comandos de delegados e oposições, que têm vindo parte importante da solidariedade que recebem os trabalhadores da fábrica ameaçada de ter a planta fechada.

Também, a partir dos locais de trabalho, e em aliança com estudantes, onde o PTS e a FIT são referencia e contam com um número significativo de militantes e simpatizantes, estão sendo organizadas campanhas financeiras e grande esforço militante na arrecadação para o fundo de greve dos trabalhadores da AGR-Clarín, que seguem sem salários e são constantemente assediados e chantageados pela patronal que tenta derrotar a greve pela fome.


Nicolás Del Caño na linha de frente tentando impedir repressão policial contra os trabalhadores da AGR-Clarin

Um papel destacado também cumprem os companheiros da FIT, Christian Castillo (ex-deputado em Buenos Aires) e Nicolás Del Caño (ex-candidato presidencial que obteve votação expressiva nacionalmente), que já tinham participado ombro a ombro com os trabalhadores em cada ação concreta e nos atos nacionais na gráfica Donnelley e na automotriz Lear contra as demissões, e novamente se colocaram ao lado dos trabalhadores em luta da AGR-Clarin nos atos públicos e nas ameaças de invasão policial à fábrica.

Levaram a contribuição financeira de 30 mil pesos ao fundo de greve dos trabalhadores, arrecadados a partir da doação de grande parte do salário da bancada de deputados do PTS na FIT. Um exemplo que retoma a tradição do movimento operário internacional, quando os revolucionários se propuseram a atuar, como apontava Lenin, como tribunos do povo e das lutas operárias.

Uma ação que expressa a tentativa de retomar o parlamentarismo revolucionário, cujo principal ganho visado é, a partir de uma forte convicção estratégica, fortalecer a independência política dos trabalhadores, auxiliando a luta a se desenvolver ao máximo possível e denunciando o papel antioperário da burocracia sindical e do parlamento burguês, conspirando e enfrentando as instituições do estado burguês que inevitavelmente entrarão em choque com os interesses dos trabalhadores, seja no judiciário, seja no embate com as forças repressivas que defendem conjuntamente a propriedade do patrão expropriador.

A atuação da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores no conflito da AGR-Clarin demonstra que é possível outro tipo de intervenção política, completamente distinto da esquerda que se adapta à separação imposta pela burocracia sindical entre o político e o econômico. De que é possível constituir uma força política dos trabalhadores que sejam “tribunos do povo” e auxiliem as lutas a vencer, desenvolvendo um salto de compreensão dos trabalhadores sobre o funcionamento das instituições do Estado capitalista e a necessidade de superá-lo por um governo próprio de ruptura com o capitalismo.


Operário da AGR-Clarin mostra cartuchos desferidos pela Polícia argentina – o que nos reserva o estado capitalista.




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