Teoria

PUC-SP

O papel na PUC-SP nos anos de chumbo: vanguarda e resistência

Iaci Maria

Estudante de Pedagogia da PUC-SP

quinta-feira 9 de maio| Edição do dia

Vivemos em tempos de governo Bolsonaro. Tempos em que, depois de mais de trinta anos, assistimos indignados aos saudosos pela ditadura militar saírem das sombras para clamar raivosos pela volta dos anos de chumbo, incentivados pelo próprio presidente, que afirma absurdas inverdades, como aquela que diz que não houve golpe em 1964 e até mesmo que o nazismo é uma ideologia de esquerda. É o presidente que, após o episódio dos 80 tiros que assassinaram o músico Evaldo que passeava com a família em uma tarde de domingo, afirma que o Exército – que puxou o gatilho 80 vezes – não matou ninguém.

Eles querem reescrever a história, apagar da nossa memória o que foram os anos de perseguição política, torturas, assassinatos, estupros, projetos educacionais totalmente voltados para neutralizar a consciência crítica dos estudantes e total submissão ao imperialismo norte-americano. Fazem isso porque precisam também fazer sumir de nosso imaginário a ideia de que podemos e temos força para resistir e lutar contra um governo de ataques, como fizeram os estudantes, professores e trabalhadores contra o regime militar. E a PUC-SP, que possui história e possui memória, não pode esquecer seu importante papel ao longo da ditadura.

A PUC-SP, justamente por ser uma pontifícia, amparada pela Igreja católica, não sofreu diretamente a perseguição institucional nem o desmonte em seu projeto educacional pelas mãos do regime militar. Mas sua posição não impediu que a universidade não sofresse ataques vindos do governo ditatorial contra os estudantes, funcionários e professores que se colocaram contra ele.

A década de 70 na PUC-SP foi particularmente marcada pelos efeitos da ditadura. Ao longo da primeira década após o golpe, inúmeros professores das universidades públicas foram perseguidos e aposentados compulsoriamente como forma de punição pela atuação política contrária ao regime. Na contra-mão desse movimento, entre 1970 e 1980, a PUC-SP contratou diversos professores, reconhecidos intelectuais, que haviam perdido seus cargos. Entre eles, destaca-se Paulo Freire, Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Maurício Tratenberg, Bento Prado Junior, entre outros.

Foi também nesse período que a PUC-SP tem sua primeira reitora mulher, Nadir Kfouri, indicada ao cargo em 1976 por dom Paulo Evaristo Arns, então grão-chanceler da universidade. Kfouri também foi a primeira reitora eleita através de eleições diretas, em 1980, um fato histórico não apenas para a PUC-SP, mas que inaugura o procedimento nas universidades brasileiras, em um momento de ditadura, no qual não havia eleições diretas nem mesmo para o governo federal.

No centro da resistência, o movimento estudantil

O movimento estudantil foi fortemente atacado pelo regime militar desde o primeiro dia. Na noite de 1º de abril de 1964, menos de 24 horas depois do golpe, os militares invadiram a sede da UNE na Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, e nela atearam fogo. Eles sabiam do potencial que os estudantes representavam na resistência aos planos militares e quiseram simbolizar isso desde o primeiro instante.

Os 4 primeiros anos da ditadura foram marcados por uma reorganização do movimento estudantil sob a política consciente de recuo da UNE, que tinha em sua direção as correntes AP – Ação Popular e o PCB. A entidade escolhe não organizar a resistência ao início da ditadura, o que se sucede por uma série de ataques como fechamentos de centros e diretórios acadêmicos, extinção da UNE e a aprovação da Lei Suplicy, que proíbe CAs e DCEs de promover “qualquer ação, manifestação ou propaganda de caráter político-partidário, bem como incitar, promover ou apoiar ausências coletivas aos trabalhos escolares”*. Essa perseguição aos estudantes e suas entidades representativas possui pouca expressão na PUC-SP, que se respalda ainda por sua autonomia universitária, de modo que a instituição permite a manutenção das formas de organização estudantil.

Apesar de alguns processos de mobilização terem ocorrido nesses quatro primeiros anos, será a partir de 1968 que a indignação dos estudantes começa a romper o recuo organizado da UNE. O ano foi todo marcado por um ciclo de lutas estudantis que passou por diversos eventos que marcaram a história do movimento estudantil na resistência e luta contra a ditadura. Foi em 68 que o secundarista Edson Luis foi assassinado no Rio de Janeiro após um protesto, fato que gerou uma forte indignação e revolta e colocou 60 mil nas ruas em repúdio à brutalidade. No mesmo ano houve a conhecida Batalha da Maria Antônia, entre estudantes da USP e do Mackenzie, que acaba com a morte de José Guimarães, com um tiro vindo de um grupo proto-fascista do Mackenzie. No Rio de Janeiro também aconteceu a passeata dos 100 mil, em resposta à repressão de um protesto onde 28 foram mortos e centenas, feridos.

É também em 1968 que a repressão endurece contra o movimento estudantil, acirrando a perseguição aos que fossem considerados lideranças, e levando a eventos como a invasão do 30º Congresso da UNE em Ibiúna, que terminou com 800 prisões. Um mês antes de decretar o AI-5, o ciclo de lutas estudantis se encerra com a expulsão de cerca de 800 estudantes que ocupavam o Conjunto Residencial da USP (CRUSP).

A PUC-SP, por sua vez, também teve uma ocupação das instalações da reitoria e dos jardins, que durou cerca de dois meses, contra a Reforma Universitária que o regime militar queria impor e também contra o anunciado aumento das mensalidades. Essa reforma foi proposta a partir do acordo firmado entre o Ministério da Educação (MEC) e a United States Agency for International Development (USAID, uma agência estadunidense de ajuda ao desenvolvimento), o Acordo MEC-USAID, que visava estabelecer convênios que levassem a educação brasileira a um maior alinhamento ideológico e cultural com o imperialismo estadunidense. Se, de um lado, na USP, a implementação desse projeto se deu de forma colaborativa entre reitoria e regime militar, na PUC-SP, a Reforma Universitária exigida aconteceu a partir de comissões paritárias entre professores e alunos, que propuseram novos currículos que visassem à formação de uma consciência crítica e comprometida com a realidade, e a reitoria se comprometeu a não punir nenhuma estudante envolvido na ocupação.

A aliança operário-estudantil também foi um importante elemento que mostrou sua força em 1968. Havia um rico intercâmbio entre estudantes e operários nas fábricas, em que o movimento estudantil levava ao movimento operário não apenas solidariedade nas lutas e greve, como também círculos de estudos marxistas. Os dois exemplos mais emblemáticos foram a greve operária de Contagem, que teve início em 16 de abril e levou 16 mil operários a cruzarem os braços contra o arrocho salarial da ditadura, ocupando fábricas e em poucos dias conquistando um histórico aumento salarial; e em 16 de julho, enquanto ocorria também a ocupação da USP na Maria Antônia, mas que foi impedida de ganhar ainda mais força devido à forte repressão que se instalou ali pelas mãos do regime militar, dirigida pelo ministro Jarbas Passarinho. Ambos processos ocorreram às margens do sindicalismo oficial, com independência da direção do PCB, e contaram com forte apoio do movimento estudantil.

Passado 1968, o movimento estudantil nacional volta a recuar e é só na segunda metade da década de 1970 que os estudantes retomam o protagonismo de processos de lutas e mobilizações. Em 1977, os estudantes tomam as ruas novamente para denunciar a situação precárias em que se encontrava o ensino superior. Com a retomada das mobilizações, cresce novamente também a repressão e a perseguição ao movimento estudantil, e é nesse momento que a PUC-SP volta a cumprir um importante papel ao sediar a 29ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que havia sido proibida de acontecer pela ditadura.

Em setembro desse ano, a PUC-SP tem sua história marcada pela violenta repressão do regime militar. O III ENE (Encontro Nacional de Estudantes) foi impedido de acontecer na UFMG em junho. Os militares estavam determinados a não permitir sua realização, pois temiam que os estudantes se reorganizassem e fundassem novamente a UNE. Em setembro os estudantes anunciam a realização do III ENE agora em São Paulo, no dia 21, o que impulsiona o coronel Erasmo Dias, então Secretário de Segurança do Estado, a mandar bloquear as rodovias de acesso à capital no dia 20. Na manhã do dia 21, a PUC-SP, USP e FGV amanhecem cercadas por um total de 15 mil policiais e os estudantes se reúnem da Faculdade de Medicina da USP, onde supostamente ocorreria o III ENE. Na realidade, essa reunião era uma manobra que, combinada com diversas manifestações-relâmpago pela cidade, servia para desviar a atenção policial e enganar a repressão, enquanto o verdadeiro encontro ocorreria secretamente na PUC-SP, com cerca de 70 delegados de diversos estados. Todo operativo estudantil teve sucesso e, na sala 225 do prédio novo da PUC, é realizado o III ENE, onde se formou uma comissão pró-UNE, que era integrada pelos DCEs que, burlando a repressão e a proibição, conseguiram ser eleitos nos meses anteriores, e demais entidades estudantis estaduais e municipais.

Após ver que tiveram sucesso na operação, o movimento estudantil decidiu fazer um ato público naquela noite. A reitoria negou liberar o TUCA, justificando temer a repressão policial. Os DCEs da USP e da PUC-SP, assim como as principais correntes estudantis nesse momento, a Refazenda (ligada à Ação Popular – AP) e Caminhando (PCdoB) também foram contra, mas os estudantes passaram por cima das direções que recuavam e decidiram por maioria realizar o ato em frente ao TUCA.

Esse é o ato público que precede o episódio mais conhecido de repressão na PUC, a “invasão de 1977”. Cerca de 2 mil estudantes se reuniram naquela noite em frente ao TUCA, mas assim que teve início a leitura da Carta Aberta, iniciou-se também a repressão policial, orquestrada pelo coronel Erasmo Dias, que contava com cerca de 900 policiais. Bombas tóxicas e inflamáveis, cassetetes elétricos, tanques de guerra e agressão indiscriminada em massa. Havia no então Secretário de Segurança um grande ódio, por ter sido enganado pelas manobras estudantis, e dissolver a concentração estudantil não seria suficiente. Policiais à paisana entraram na PUC-SP pelas quatro entradas e espancaram e arrancaram professores, estudantes e funcionários das salas de aula, refeitório, biblioteca, salas administrativas, até mesmo um grupo de trabalhadoras domésticas que faziam aulas de alfabetização na Casa Paroquial. Foram cerca de 1.500 pessoas levadas em fila indiana até o estacionamento em frente à PUC-SP, onde passariam por uma espécie de triagem.

Professores e funcionários foram rapidamente identificados e liberados, assim como as trabalhadoras domésticas. Os estudantes da PUC-SP que estavam portando documentos que comprovasse o vínculo estudantil foram liberados em seguida, menos os militantes que já eram conhecidos dos policiais, considerados “perigosos” e “subversivos”. Ao final dessa triagem, 514 estudantes foram detidos, sendo que 422 foram levados à sede do Batalhão Tobias de Aguiar e 92 diretamente ao DOPS. Após os interrogatórios, 37 estudantes foram indiciados na Lei de Segurança Nacional, sendo 6 estudantes da PUC-SP. Foram dezenas de feridos, que foram presos ainda assim, sendo o caso mais grave o de estudantes que foram pisoteadas na rampa e sofreram graves queimaduras devido às bombas tóxicas. Toda mobília e equipamentos da PUCSP foram destruídos nessa invasão, além de todo material dos Diretórios Acadêmicos recolhidos. Na noite daquele dia, também houve a marcante assertiva da reitora Nadir Kfouri ao Coronel Erasmo Dias: “não dou a mão a assassinos”.

A invasão da PUC-SP em 22 de setembro de 1977 ficou marcada não apenas na memória do movimento estudantil nacionalmente e de toda comunidade puqueana, mas também os militares quiseram lembrar esse dia antes da transição pactuada, que deu fim à ditadura. No dia 22 de setembro de 1984, no mesmo horário, o TUCA foi atingido por um incêndio criminoso que destruiu o teatro, em um claro recado da ditadura de que não havia esquecido a ousadia do movimento estudantil de 77.

Após esse episódio, o movimento estudantil sai um pouco do centro da cena e os movimentos de trabalhadores começam a ganhar mais força. Inúmeras greves operárias eclodem pelo ABC paulista e se alastram pelo país, mobilizando diversas categorias, como professores, metalúrgicos, médicos, servidores públicos, bancários e jornalistas, que paralisaram tudo em repúdio ao autoritarismo da ditadura. Esses processos contaram com grande apoio do movimento estudantil e o DCE da PUC-SP esteve presente nos atos, assembleias e na organização de arrecadação de alimentos para os trabalhadores grevistas.

Os interesses mercadológicos sobre a PUC-SP de hoje querem apagar nossa memória de luta

A PUC-SP, que cumpriu um importante papel não apenas durante a ditadura, mas também após, já nos anos 2000, ao criar sua própria Comissão da Verdade (link: https://www.pucsp.br/comissaodaverdade/) para resgatar a memória dos acontecimentos que atingiram a universidade, hoje passa por um processo de maior elitização e submissão aos interesses capitalistas e mercadológicos, na contramão do que fez ao longo da ditadura.

Hoje o que temos é uma universidade das mais elitizadas, com mensalidades altíssimas e um cada vez menos número de bolsistas. Em 2001, abriu-se uma crise financeira na PUC-SP, em que a universidade, para pagar uma extensa lista de dívidas com instituições e bancos, gerou uma dívida de mais de 100 milhões de reais com o Bradesco. O banco impôs à universidade uma meta para diminuir o déficit mensal, o que resultou em uma série de ataques, como a demissão de 30% do quadro docente, que na época foi denunciado pelos professores de que eram com fundamentos políticos; o aumento da carga de trabalho dos professores diminuindo o tempo dedicado à pesquisa e aumentando o tempo dedicado à sala de aula; novas poucas admissões, com salários cerca de 50% mais baixos; fechamento de cursos e inclusive um campus inteiro; aumento de vagas por sala de aula, o que gera mais mensalidades, mas sem investimento em estrutura e contratação de docentes, precarizando ainda mais o ensino e o trabalho dos professores; além do aumento das mensalidades, diminuição das bolsas e maior rigidez no trato com os estudantes inadimplentes.

Todo esse processo de ataques à PUC-SP se deu a partir do momento em que o então grão-chanceler dom Carlos Hummes mudou a estrutura da Fundação São Paulo – Fundasp (instituição mantenedora da PUC-SP) em 2006, passando sua administração para a Arquidiocese de São Paulo, ou seja, colocando o controle da PUC-SP diretamente nas mãos da Igreja, que passou a intervir na universidade e tomar todas as decisões, acabando com a autonomia universitária, inclusive escolhendo reitores. Assim, o que temos hoje na PUC-SP é uma administração controlada pela Igreja, à serviço do Bradesco, que cobra que a Pontifícia se adéque mais à lógica mercadológica das universidades privadas. Agora, o mais recente ataque ocorreu ao final do ano passado, com a Fundasp querendo impor as mudanças estatutárias que dão ainda mais poder de decisão e intervenção à Igreja e, portanto, coloca a PUC-SP em ainda mais submissão aos capitalistas do Bradesco. Querem hoje apagar da PUC-SP tudo que foi construído na resistência e luta contra a ditadura militar.

Retomar a história de luta das gerações passadas, não deixar que nossa memória seja apagada, não esquecer e nunca perdoar pelos nossos mortos e desaparecidos, isso tudo serve para nos lembrar do papel que a juventude e o movimento estudantil já cumpriu no enfrentamento à ditadura, em aliança com os trabalhadores. Hoje não falta revolta em todos estudantes do país, com estarmos vivendo um governo que tem como suas tarefas primordiais acabar com nossos futuros, nos obrigando a trabalhar até morrer com a reforma da previdência, e avança contra a educação e os estudantes e professores, com sua ofensiva ideológica a partir do “Escola sem Partido”, além de todo um discurso contra as entidades estudantis e sindicais, definindo os centros e diretórios acadêmicos como “ninhos de ratos” que produzem militantes de esquerda.

Essas heranças da ditadura não podem passar despercebidas pelo movimento estudantil, e é preciso hoje fazer como fizeram os lutadores dos anos de chumbo, retomar a UNE para as mãos dos estudantes. Para isso, é necessário construir uma juventude marxista e revolucionária, para tirar a UNE da direção burocrática da UJS, PT e Levante Popular da Juventude, e retomar a entidade como ferramenta de organização estudantil que volte a representar a base dos estudantes. É urgente batalhar por entidades estudantis, principalmente a nacional, que organizem a luta contra os ataques do Bolsonaro e da extrema-direita, contra o avanço do autoritarismo do judiciário e todos os ataques que os capitalistas querem nos impor. E que também unifiquem essa luta nacional com a luta dos estudantes da PUC-SP contra as altas mensalidades, a falta de bolsas, o ataque à autonomia universitária, assim como também pela estatização das universidades privadas, pelo fim do vestibular e da submissão aos capitalistas, como o Bradesco: a universidade deve ser controlada pelos estudantes, professores e funcionários, colocando todo seu conhecimento e produção a serviço dos trabalhadores e da população.

* Art. 14 na lei 4.464, de 9 de novembro de 1964. Disponível em https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1960-1969/lei-4464-9-novembro-1964-376749-publicacaooriginal-1-pl.html

Conheça a tese da juventude Faísca - Anticapitalista e Revolucionária e do grupo internacional de mulheres Pão e Rosas para o Congresso da UNE: São eles ou nós - que os capitalistas paguem pela crise (link: http://esquerdadiario.com.br/Tese-Faisca-rumo-ao-CONUNE-Sao-eles-ou-nos-que-os-capitalistas-paguem-pela-crise)




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