MEDICINA DO CAPITAL

O método dialético em medicina

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 22 de maio| Edição do dia

O mais lúcido economista do sistema, da ordem burguesa, não entende que o capitalismo necessita das crises econômicas, e que, portanto, a crise é inerente ao sistema, é da sua natureza. Mas ele é capaz de perceber que há problemas, consegue captar problemas na economia, certas verdades, desequilíbrios e até problemas estruturais do sistema.

Mais ou menos da mesma forma que o médico capta problemas ou disfunções no organismo: um tumor, uma hipertensão.

O problema está em que [à semelhança do economista] o médico do senso comum, anti-dialético, não se dá conta da natureza da doença. Sua percepção da doença é na condição de um ente fenomênico.

Por isso, nos dois casos - do economista burguês e do médico comum - o “tratamento” será igualmente fenomênico.

Mas com uma característica deletéria: no capitalismo, o sistema percebe as crises, os economistas intervêm e descarregam cada uma delas sobre a classe trabalhadora. No caso do doutor, o impacto negativo do tratamento será descarregado sobre o metabolismo, sobre a fisiologia ou o funcionamento [de outras partes do organismo].

Dou exemplos.

Usar um anti-inflamatório que promove erosão da mucosa do estômago, usar um anti-hipertensivo que provoca impotência sexual, estressar perigosamente um idoso com uma cirurgia de extração de um determinado tumor, desfechar ciclos de radiação ionizante sobre um organismo etc etc e chamar isso de tratamento é muito parcial, superficial e até irresponsável. Por que? Porque todas essas são formas de atacar um desequilíbrio – chamado de doença – às custas do metabolismo sadio, de outras funções do próprio organismo, intoxicando-o cronicamente, por exemplo. Ou até gerando um câncer [1].

É característico do modo de pensar do médico no capitalismo, abordar um fenômeno isolando-o do contexto ou ignorando seus inexoráveis laços com a fisiologia da totalidade do organismo, sem dialética. E o problema está em que, ao atacar o fenômeno, sem considerar as forças que o engendraram, os obstáculos ou carga tóxica metabólica que ele expressa, vão impactar o organismo com um custo biológico extra, inevitável. Em nome do tratamento. E em aberta contradição com o princípio de Hipocrates do primum non nocere [em primeiro lugar: não machucar o paciente].

O sintoma da doença ou a sua aparência [o desequilíbrio aparente] é suprimido ou mantido sob controle químico/tóxico, mas as determinações que engendraram o problema, seguem operantes, agora com uma contradição adicional: um custo metabólico a mais, derivado do impacto deletério do tratamento, para o organismo suportar.

É um método de pensar/abordar o organismo totalmente reducionista.

Reduzem todo o processo metabólico e suas contradições que engendraram o desequilíbrio ao mero fenômeno do desequilíbrio. Mas acontece que este não é o problema. É, antes, a resposta do organismo [em forma de sinais e sintomas], o alarme do corpo ou a válvula de escape que o organismo encontrou diante de uma contradição metabólica importante [no seio do metabolismo, no sistema de produção de energia].

A abordagem dialética, totalizante, exige, antes de qualquer intervenção terapêutica e para que esta tenha lógica, guarde coerência com o problema de fundo, que seja feita a pergunta-chave: por que surgiu esse tumor concreto? Por que surgem os tumores?

E aqui não há como escapar da abordagem fisiológica, do conjunto do metabolismo, da capacidade do organismo de produzir energia biológica e defesas contra a doença, as agressões ambientais, de trabalho e de dieta. Vai ser necessário checar o processo da respiração celular e os obstáculos ao seu pleno desempenho. Sobretudo considerando que as estruturas e funções orgânicas funcionam bem se há energia suficiente, adequada, se o metabolismo flui sem obstáculos [nos limites desta nota não é possível entrar em detalhes a esse respeito; há autores com um foco mais profundo abordando este tema].

É como analisar os problemas sociais – a patologia social – por fora da estrutura de classe e de exploração social do trabalho na qual a sociedade capitalista se baseia. Sem essa perspectiva de análise, nada se entende até o fim, nenhum tratamento resolve. O “custo social” do capitalismo segue imperando, e toda “solução” recairá sobre as costas da classe trabalhadora.

O médico anti-dialético não pensa que aquilo que ele chama de doença – um determinado desequilíbrio – apenas expressa que o metabolismo, o auto-movimento do organismo está sendo desviado do seu curso, represado, contido, intoxicado.
E esse é o cerne da questão, tanto do diagnóstico quanto do tratamento; e aqui estaríamos no verdadeiro terreno da fisiopatologia, aquela que não é ensinada nos livros do tema, tão fatiada ela se encontra.

A fisiopatologia ensinada nas faculdades de medicina somente leva à estratégia de se remediar a doença, não leva à abordagem das suas determinações fundamentais, no caso, ao emperramento metabólico.

Essa fisiopatologia somente terá a oferecer explicações parciais, verdades parciais e fragmentadas. Pedaços de verdade, como se vê nas “explicações” ortomoleculares corriqueiras [2]. Ficar refém dos sintomas é parcial, anti-científico e perigoso para o diagnóstico e tratamento.

Podemos partir dos sintomas, do desequilíbrio tal como ele se expressa, sim, mas apenas para descobrir porquê ele existe, o que ele está sinalizando e revelando em termos da “caixa preta” do metabolismo subjacente.

Para dar um exemplo, como o doutor encara o problema de uma mama ou uma próstata calcificadas? Ou uma próstata aumentada? Calcificação [e aumento tumoral de próstata], como regra, não são encarados nos marcos da totalidade, onde a pergunta a ser feita seria: por que uma próstata “tem que crescer” ou se calcificar? Por que o organismo vai calcificando partes de si mesmo [próstata, artérias, vesícula biliar, cérebro etc] com o passar do tempo?

Em vez de se ocupar do conflito metabólico concreto, orgânico, que explique essa tendência à calcificação, ou seja, a lógica da coisa, pensar nos elementos de auto-movimento do organismo que expliquem aquela tendência indesejável, geradora de doenças, o doutor se perde no labirinto do reducionismo.

Ele vai ver o conflito não no interior do metabolismo concreto e suas determinações, mas vai enxergar o conflito onde ele não se encontra, vai abraçar uma perspectiva metafísica. Ele vai estabelecer um conceito apriorístico, o da “velhice”, do “envelhecimento” como algo que, em si mesmo causa doenças, e vai responder com um dogma: a calcificação ou o crescimento da próstata são resultado do “envelhecimento”.

O “conflito” vai se dar entre uma entidade/categoria abstrata, dogmática, indeterminada, tipo “velhice” ou “tempo de vida” e um problema concreto, da calcificação prostática, arterial, de mama.

E com isso se satisfaz e se exime de quaisquer explicações ... concretas. Não é ironia: o doutor “explica” a velhice pela calcificação e a calcificação pela velhice.
Já que o idoso calcifica seus tecidos moles [e perde cálcio nos ossos], logo o conceito de ”idoso” basta como explicação. O “tempo de vida” tudo explica.

Quando esse mesmo doutor se deparar com povos que não calcificam suas partes moles e nem apresentam osteoporose, vai ficar mudo. Vai “responder” com qualquer evasiva médica.

Como vai poder explicar que certos grupos de idosos não apresentam aqueles problemas “da velhice”? Vai ficar claro, na verdade, que o doutor não possuía uma explicação concreta para um problema concreto. Lidava com conceitos indeterminados.

Somente repetia um lugar-comum, encobria um vazio de explicação científica com o dogma, por assim dizer, da “doença de velho”. Ou qualquer outro: a criatividade metafisica não tem limites.

Mas a contradição – para sermos dialéticos – não pode ser formulada entre a) uma ideia indeterminada [velhice] e b) o sintoma concreto [calcificação]. Ela deve ser buscada dentro da totalidade real em movimento. Precisa ser uma contradição concreta, real, metabólico-fisiológica, no seio do organismo. Uma contradição da qual a calcificação – apenas para seguirmos no mesmo exemplo – é expressão. Expressão contraditória, patológica, de um determinado movimento do real, de determinações conflituosas no metabolismo.

Dito de outra forma, ou se vai para a pergunta concreta sobre o processo concreto ou se escorrega – a medicina oficial, moldada pelo pensamento reducionista, típico da sociedade capitalista – para a naturalização de todo fenômeno mórbido que ocorra no chamado idoso, por exemplo.

Não há terceira via: ou temos o pensamento dialético, científico, ou a metafísica [a ideia que se tem a priori da coisas]. Em vez da lógica de movimento das coisas, uma lógica atribuída à coisa.

[Acima: exemplo de autor que revolucionou o entendimento da célula e que é solenemente ignorado pela oncologia e pela fisiologia oficial, Gilbert Ling]

Em vez da ciência, o dogma, a ideologia, o lugar-comum. E mais, passo a passo, movido por esse pensamento reducionista o doutor chega a aberrações concretas, retiradas do contexto, do tipo achar que o colesterol, que é, na verdade, uma molécula fisiológica, protetora, anti-inflamatória, que nosso próprio corpo fabrica, que cumpre um papel na totalidade da nossa fisiologia, possa ser qualificada como “ruim”, e ter que ser detonada com produtos químicos – diga-se de passagem - de grande lucratividade.

Satanizar o colesterol, na medicina capitalista atual, tem a ver com a perda da noção da totalidade, e com o raciocínio anticientífico, das aparências.
Esse raciocínio vive de dogmas e de “recortes”. É a bad science, com suas “associações”, seus estudos “epidemiológicos” aplicados à clínica, com suas metaanálises e estudos coorte.

“A causa do câncer é genética” é outro exemplo de dogma, de “recorte”, de reducionismo [a ser tratado em outra nota].

O sintoma não é a doença. Mas a medicina põe aqui um sinal de igualdade [ou trata o sintoma como se fosse a doença]. É mais ou menos como os economistas da ordem, que, por naturalizarem a economia capitalista, fundada na exploração do trabalho, tomam os fenômenos daquela economia, tipo inflação, taxa de desemprego, moeda, como coisas em si, a serem atacadas em si mesmas. E todas elas – é bom lembrar – devidamente naturalizadas.

Na medicina, o reducionismo também campeia.

O que significa dizer que o método de raciocínio é exterior ao objeto. No exemplo do tumor, não estão preocupados com a lógica tumoral como expressão de desvios ou determinações metabólicas do próprio organismo em seu movimento contraditório, isto é, do organismo diante de obstáculos, de intoxicação crônica, de uma dieta antimetabólica, por exemplo.

A oncologia oficial tem suas explicações para o tumor [uma delas é o dogma genético]. Atribuem explicações ao tumor, sim. Mas não procuram sua lógica na totalidade. Quando, na verdade, o surgimento do tumor fala sobre a totalidade: é uma fala da totalidade. O doutor fica nas aparências.

[Acima: autor que explica, cientificamente, a origem do câncer e que é solenemente ignorado pela oncologia/fisiologia oficial; citado mas pouco compreendido]
Por isso seu “tratamento” se resume a queimar [radioterapia], envenenar [quimioterapia] ou cortar [biopsiar, arrancar] o tumor. Sua estratégia é a de tomar medidas contra o tumor em si, mesmo que a um custo metabólico, orgânico, que cria problemas para o organismo ou que pode ser letal. Tipo, o tratamento que mata.

Captar as determinações do organismo significa entender porque ele “tende” a formar tumores, calcificações. E não naturalizá-las, isto é, declarar, dogmaticamente, que “são da idade”, são “idiopáticas”, são “esperadas na velhice”, são de origem “multifatorial”.

Daria uma outra discussão explicar porque esse método investigativo é dogmático, procurar a explicação para essa deturpação metodológica nos interesses subjetivos do investigador, ele mesmo parte integrante da ordem existente, da ordem médica como ela é, vivendo dos privilégios, do status, das vaidades, da zona de conforto que ela lhe traz para aqueles que a defendem como ela é [os dráuzios e todas as vedetes da medicina oficial]. Tema para outra nota: a inexistente “neutralidade” do doutor e do pesquisador.

No caso da medicina, os doutores só raramente consideram que o sujeito da mudança tem que ser o próprio organismo, com seus mecanismos de auto-defesa, construídos em um longo processo de co-evolução. O organismo que se auto-cura, que se regenera, com ajuda do médico.

Não a “cura” do sintoma, já que este [uma febre, uma inflamação local] desaparecerá naturalmente, à medida em que se processe a regeneração do metabolismo.

Se for perguntado a um doutor sobre o que causa os tumores, sua mais provável resposta será “multifatorial”. São múltiplos fatores, dirá; e com isso revela sua anti-dialética. Esse método de pensamento foi desconstruído já no século XIX por Labriola e, antes, por Marx.

Mas ele segue sendo atual na bad science, como irmão-gêmeo do reducionismo médico. Eles escolhem, mais ou menos arbitrariamente, uma, duas três “causas” e com elas se satisfazem. Ignorando solenemente que o método “causa-e-efeito” [útil para explicar a queda de uma pedra, na física] é um desvio quando se pensa o corpo humano e suas múltiplas determinações, que precisam ser entendidas, hierarquizadas mas nunca naquele formato mecânico de “múltiplos fatores” e sim em sua relação real [não apriorística] e dialética entre si, conformando uma totalidade em auto-movimento.

E quando pensamos em categoria, não se trata de uma categoria [um apriorismo] que gera outra, mas categorias extraídas do real, com uma lógica da totalidade, e que sem serem validadas pelo movimento do real, constantemente checadas com ele, são inúteis, são fragmentos de pouco poder explicativo. [Ver, a respeito do método dialético, o prefácio do livro O método em Karl Marx (antologia); referência ao final deste texto].

Na verdade, o fisiologista moderno, nos marcos da ordem burguesa, ou o próprio médico, não passam de construtores de conceitos e de dogmas, com algum contato com a realidade, sim, mas sem poder explicativo na totalidade do corpo humano. São fragmentos de verdades. Desconectados: eles não conectam calcificação com tumor, alimentação com calcificação e nem procuram a lógica tumoral, apenas para continuarmos no nosso exemplo.

Seu método não é materialista e nem dialético.

No máximo são idealistas do tipo hegeliano: podem assumir que uma lógica governa o corpo humano. E podem tecer considerações – com fragmentos de verdade – sobre ela; em uma mescla de dogmas e meias-verdades.

Mas a verdade é que não existe uma lógica “governando” o corpo humano [o que seria hegeliano, inclusive no sentido de que abriria a janela para a divindade], e sim existe a lógica concreta, processual, dialética do corpo humano em sua interação permanente [trocas] com o entorno onde se encontra.

Não é a coisa da lógica, é a lógica da coisa. E Marx já chamava a atenção de que seu método de pensamento “somente é materialista se despido de toda forma mística” [em carta a Kugelmann de 1868].

Ou como argumenta Engels [em carta a C Schmidt de 1/11/1891]: “a dialética em nosso cérebro não é mais que a forma como se reflete a evolução real alcançada pelo mundo natural e histórico, e que obedece a formas dialéticas”. E arrematava: esse método requer o contato contínuo com a realidade.

G Dantas
[As cartas de Marx/Engels aqui citadas constam da antologia publicada no livro O método em Karl Marx (antologia), Gilson Dantas e Iuri Tonelo [orgs], SP, 2016, Ed Iskra/Centelha Cultural]

Nota:
[1] Você pode ler: Radiation-induced cancer from low-dose exposure: an independent analysis, de John Gofman, MD, PhD, 1990, San Francisco, USA, CNR Book Division; e também X-Rays: health effects of common exams, de John Gofman e Egan O´Connor, 1985, San Francisco, USA, Sierra Club Books. Além de enorme quantidade de artigos científicos demonstrando que radiação ionizante promove inflamação e câncer.

[2] E que, por isso mesmo, também conduz a erros como o do uso equivocado de produtos químicos para reduzir o colesterol [ou a própria ideologia de “reduzir” colesterol], a reposição hormonal com estrogênio, o uso “terapêutico” de fitoestrógenos, de óleos insaturados, de melatonina, serotonina, 5-HTP, beta-caroteno, o tóxico omeprazol, o abuso de drogas psiquiátricas, cirurgia bariátrica ou produtos químicos para a obesidade e assim por diante, erros invariavelmente derivados da perda da noção de totalidade da nossa fisiologia.




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