30 ANOS DO MAIOR DESASTRE NUCLEAR BRASILEIRO

O maior acidente nuclear do Brasil: a impunidade continua

Que balanço pode ser feito da gravíssima contaminação radioativa de Goiânia, com material altamente perigoso, usado em radioterapia, há três décadas atrás?

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 4 de setembro| Edição do dia

O que muita gente denuncia é que o Estado brasileiro foi o principal responsável por permitir que acontecesse aquele acidente nuclear em Goiânia, capital de Goiás, em 1987, que contaminou e matou muita gente e que é considerado o maior acidente nuclear urbano do país; ficando para alguns, em segundo lugar em relação a Chernobyl, por mais que o governo aqui – por isso mesmo – procure manter total “discrição” sobre o tema.

A cada ano, o número de contaminados aumenta e a estimativa mais conservadora é de que em torno de 1,5 mil pessoas padecem de contaminação radioativa a partir daquele acidente, do quais os responsáveis imediatos foram os proprietários do Instituto Goiano de Radioterapia, que abandonaram ao léu um equipamento com dois cilindros de 60 quilos cada, recheados de material radioativo [um total de 19 g de césio 137, altamente radioativo e usado em aparelhos de RX].

Os cilindros com material radioativo – usado em radioterapia – foram abandonados no terreno do Instituto pelos proprietários e caiu nas mãos de dois catadores de sucata e, finalmente, foram abertos por populares em uma oficina no setor central de Goiânia.

A partir daquele dia fatídico de 13 de setembro de 1987, o pó branco de brilho azulado chegou a circular em ao menos quatro bairros de Goiânia, contaminando centenas de pessoas imediatamente, milhares ao longo do tempo, incluindo os funcionários públicos que o governo recrutou para lidar com o material perigoso [com proteção antirradioativa precária e sem completa consciência de com quê estavam lidando] e, a cada ano, novas pessoas, agora contadas aos milhares, foram sendo contaminadas. Muitas das que adoecem da radiação vão morrendo lentamente. E o governo sempre detrás do prejuízo, agindo precariamente e, acima de tudo, defensivamente, basicamente quando provocado e com respostas a passo de tartaruga, a conta-gotas, ao longo de décadas.

O pouco caso do Estado brasileiro [especificamente da CNEN, Comissão Nacional de Energia Nuclear] e do governo de Goiás – como regra geral - foi a tônica até os dias atuais. E se trata de sequelas humanas graves, genéticas, por exemplo, que se estendem a várias gerações. A gravidade da contaminação pode ser estimada pelo volume, mencionado em várias fontes, de 10 mil toneladas de lixo radioativo, armazenados perto de Goiânia – segundo alguns precariamente – e que só podem ser manipulados daqui a 200 anos.

O Estado tem demonstrado a mais ostensiva má vontade com as vítimas e uma evidência disso está no fato de que somente através de uma luta de juízes públicos [Ministério Público federal e estadual] e certos parlamentares, algumas conquistas foram alcançadas.

Somente em 2002, portanto muito tempo depois, é que uma lei estadual foi aprovada para que se pagasse uma pensão irrisória às pessoas - que o governo seleciona - que foram irradiadas ou contaminadas que trabalharam na descontaminação da área acidentada com o césio 137 ; basta que se leve em conta a vizinhança, os que vigiaram e trabalharam no depósito provisório em Abadia de Goiás e no atendimento de saúde às vítimas diretas do acidente e muita gente mais e o espectro humano transcende os números do governo, certamente. Aquela lei fala em atender descendentes até a segunda geração etc mas as denúncias de que essa lei, além de deficiente, teima em não sair do papel são constantes.

São 30 anos de luta por parte das vítimas, 30 anos de mortes, dores, adoecimento e doenças terríveis por radioatividade e - entra governo e sai governo – o que mais salta aos olhos é o flagrante desrespeito humanitário.

Por que desrespeito humanitário? Basta que façamos algumas perguntas simples.

Vejamos. Se não se tratasse de pouco caso ou mesmo de descaso, por que as vítimas tiveram que lutar por um direito que, escancaradamente, é obvio e líquido, de serem imediatamente indenizadas para sempre e com salário decente [e não os atuais 700 e poucos reais] pelo Estado promotor virtual do acidente? Por que até hoje o Estado é quem decide quem recebe esse salário de miséria ou não, através do CNEN [é ele quem diz se havia ou não descontaminação da área e é quem classifica]? Por que nenhum órgão independente, da classe trabalhadora, pode dar qualquer palpite deliberativo ou tomar medidas concretas e assumidas pelo Estado em defesa dos trabalhadores que foram enviados para o local contaminado pelo Estado?

Por que o Estado não leva em conta a denúncia do diretor-geral do C.A.R.A. [Centro de Assistência ao Radioacidentado] de que no momento crítico mais de 110 mil pessoas foram monitoradas, mas hoje apenas poucas centenas recebem uma pensão de miséria [que não chega a 800 reais]? E por que o Estado só aceita algumas dezenas de vítimas fatais quando a Associação das Vítimas do Césio 137 fala em 104 óbitos? Por que organizações sociais vinculadas ao problema falam em quase mil e quinhentas vítimas contaminadas enquanto o governo não chega nem perto desse número?

Por que os as vítimas foram divididas em grupos [1,2 e 3] dos quais somente alguns têm direito a assistência e somente o grupo 1, minoritário, tem direito àquela pensão de fome? Por que a discriminação? Por que motoristas que transportaram dejetos nucleares na época – e também mães que lavavam os macacões dos filhos – por que pessoas assim não são consideradas oficialmente vítimas? Por que das diversas famílias de vítimas que brigam na Justiça por aquela pensão ridícula, só vieram, alguns, a consegui-la em 2002 e os demais precisam ficar sofrendo, adoecendo e clamando em vão? Por que a pensão tem que ser miserável ????

Por que o Estado, cúmplice e virtualmente responsável pelo acidente [lado a lado com o burguês dono do Instituto de Radioterapia], protela, adia, resiste e enrola o povo de Goiânia por anos e décadas a fio, como se não tivessem nada a ver com essa tragédia nuclear? Por que muitos já morreram aos poucos, em relativo ou absoluto abandono?

Por que o governo e sua mídia amestrada, seus porta-vozes, insistem em não se debruçar amplamente e objetivamente sobre o tema - diante da envergadura da tragédia – e, dessa forma, permite que termine caindo uma cortina de esquecimento diante dessa desgraça provocada pela negligência do Estado?

Por que, por anos a fio, na luta para que sejam reconhecidas 10 vítimas a mais, ou 100 ou 200, é a própria vítima quem precisa buscar advogado, enfim, precisa lutar para provar que é vítima?? Perguntando de outra forma: o Estado burguês negligencia, deixa que ocorra tal tragédia, portanto, que seja prejudicada e contaminada toda uma população – no centro de uma capital - com material radioativo que ele permite que seja abandonado ao léu, e as vítimas é que precisam lutar para provar que o governo matou ou contaminou toda uma população com doenças terríveis: por que a iniciativa não veio sempre e prontamente do Estado? Qual a lógica?

No caso a lógica parece clara: o Estado nem controlava os riscos daquela operação empresarial no campo da saúde – não fiscalizava os proprietários que, naturalmente, iam ficando ricos com os lucros daquele Instituto de Radioterapia, deixando os riscos para a comunidade - como ao mesmo tempo, esse mesmo Estado que se proclama público, não toma, até o fim e prontamente, a defesa do público.

A lógica aparece clara através de uma pergunta simples: afinal de contas o papel do Estado é proteger os proprietários e patrões da medicina nuclear – por exemplo – ou a população, vítima da patronal da medicina nuclear? Ou reiterando: por que o Estado, através do ministério da Saúde não entrou em cena, de forma fulminante, constante e efetiva em defesa dos enfermos que se não fosse a negligência pública JAMAIS existiriam?

Um observador minimamente reflexivo já sabe da resposta. Que pode ser também formulada em forma de pergunta: alguém precisa estudar sociologia para saber que o Estado não é neutro e nem defende o interesse público?

Alguém precisa ser subversivo para enxergar nesse e em outros exemplos, que o Estado não passa de um comitê central de defesa dos interesses do conjunto do capitalismo, o que inclui tomar o partido daqueles proprietários dos dois cilindros com material nuclear em vez de assumir o papel de bem público, em imediata e generosa defesa do amplo universo de vítimas inocentes?

E Mariana? E o Temer, neste momento, na China, tratando de acordos para construir a terceira central nuclear em Angra dos Reis [prioridade nacional?] enquanto destrói direitos sociais e trabalhistas seculares?

Na verdade, se aquela negligência do Estado, da sua resposta pública, se dá diante do maior acidente nuclear urbano do mundo, que dirá diante de outros crimes de Estado, diante dos lixões a céu aberto, esgotos idem e de coisas menores mas igualmente gravíssimas para a família trabalhadora?

G Dantas
Brasília 4/9/17
[Pode-se consultar o documentário “Césio 137-O brilho da morte”, de L. Eduardo Jorge; também ampla reportagem do Correio Braziliense de 3/9/17, também o site www.fatosdesconhecidos.com.br e www.greenpeace.org/brasil/, dentre inúmeras outras fontes e livros que, de lá para cá, repercutem essa tragédia nuclear brasileira][crédito da imagem: www.greenpeace.org/brasil/]




Tópicos relacionados

Capitalismo   /    medicina do capital

Comentários

Comentar