Sociedade

CRISE HÍDRICA PARAÍBA

O maior São João do Mundo e a maior crise hídrica de sua história

Shimenny Wanderley

Campina Grande

domingo 3 de julho de 2016| Edição do dia

Há 33 anos Campina Grande (PB) sedia o chamado “O Maior São João do Mundo”, são 31 dias de festa e este ano vai de 03 de junho à 03 de julho. O evento é organizado pela Prefeitura Municipal da cidade, este ano sob a gestão do tucano Romero Rodrigues (PSDB), importante destacar que durante os primeiros anos de sua gestão contou com o apoio de um setor do PT, o qual ocupou cargo no executivo municipal.Este tipo de evento, e relevante frisar também, tem parceria privada,e dentre seus patrocinadores encontramos bancos, uma universidade particular, governo federal e uma gama de empresas, mostrando o caráter do evento. As empresas entre outras coisas recebem camarotes privados para realizar seus convites para assistir aos shows numa lógica capitalista.

Do ponto de vista artístico e cultural, “O maior São João do mundo” proporciona pouco espaço para o genuíno forró, privilegiando um forró de plástico, e exemplos de Wesley Safadão, -quem recebeu 195.000 reais pelo show-ou Aviões do Forró misturados com os padres pops,com seus cachês exorbitantes e discrepantes dependendo da cidade, com suas letras fúteis, comerciais ou religiosas, em sua grande parte com um machismo inaceitável. Tudo isto não seria novidade, mas este ano tem uma agravante: a cidade passa pela sua pior crise hídrica da história. Para os gestores e legisladores locais, na sua vida de privilégios, que a cidade colapse e fique sem água dez ou quinze dias antes ou não, é uma questão secundaria em relação a importância “política” em ano eleitoral e econômica para as empresas

Mas a festa oculta a outra cara de Campina Grande. A de uma população que convive com o racionamento de água, no qual a Companhia de Águas e Esgotos de Campina Grande (CAGEPA) interrompe o fornecimento de água no sábado às 17:00 h e só retorna na quarta-feira às 05:00 h. No qual o manancial responsável pelo abastecimento de Campina Grande e mais 18 municípios do Compartimento da Borborema é o açude Epitácio Pessoa, popularmente conhecido como açude de Boqueirão, uma referência ao município que se localiza, o qual foi construído pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) entre os anos de 1951 e 1956 não para de descer.Muito de manual os políticos querem responsabilizar pela falta de água a natureza e ao consumo familiar quando sabemos que é a falta de planejamento e o consumo das empresas o que acaba com água, com a cumplicidade da mídia hegemônica.

Segundo a última medição feita pela Agência Executiva da Gestão das Águas (AESA) no dia 30 de junho deste ano o nível do açude chegou a preocupante marca dos 8,6% de sua capacidade. Com o açude em níveis baixíssimos é cada vez mais preocupante a qualidade da água, pois o tipo de tratamento feito hoje pode não ser suficiente para purificar completamente a água, podendo causar danos à saúde da população.Políticos e empresários se despreocupam bebendo água mineral e não a do volume morto, logicamente.

De acordo com os cálculos da CAGEPA só será possível abastecer Campina Grande e demais cidades até fevereiro de 2017. Pinta-se um quadro extremamente delicado, se por um lado a cidade encontra-se nesse estado, por outro os governantes empenham recursos e toda uma infraestrutura para realizar “O Maior São João do Mundo”, enquanto a grande parte da população sofre com o descaso da prefeitura não somente com o problema da água, mas em outros setores.

Em meio da crise hídrica, a justificativa da prefeitura para garantir o evento foi a de perfurar poços artesianos e utilizar caixas d’água para suprir a necessidades do Parque do Povo, como barracas e banheiros. Mas a grande questão é traçar planos emergenciais que contemple toda a população. Não é novidade que a região sempre passou por secas, mas os governantes nunca se interessaram de fato em elaborar planos e estratégias para resolver o problema, que foi sempre utilizado como moeda de barganha em campanhas eleitorais. Inclusive, em ano eleitoral, o palco principal da festa é utilizado como palanque eleitoral.

Além do mais o São João de Campina Grande há muitos anos saiu do status de festa para se transformar numa grande indústria. Não existe sequer uma política de fortalecimento de nossas tradições nordestinas, mas sim uma mercantilização destas tradições.

O evento conta com diversos patrocinadores, como bancos, faculdade particular e empresas, que paga os cachês surreais das bandas de “renome que atraem público”. Lógico que se uma empresa privada assume as despesas de um evento desse porte, com certeza quer ter garantido seus lucros e demais interesses. Quem patrocina garante o monopólio, por exemplo este ano a Skol é uma das patrocinadoras, dessa forma, só é permitido a venda dessa cerveja nas dependências do Parque do Povo, seu produto é vendido com exclusividade.

Mostrando bem quem manda nos festejos juninos: o capital, com seus bancos e suas empresas, um evento totalmente voltado para mercantilização, onde o fortalecimento da cultura fica em segundo plano. Importante destacar que há ainda a exploração de camarote particular numa festa pública. No fim, tudo planejado para extrair o máximo de dinheiro com a exploração de todo tipo de arrecadação de “forma legal”.

Enquanto o povo comemora os festejos juninos, as renomadas atrações e a ressaca dos 31 dias de São João, outros comemoram a arrecadação financeira. E a crise hídrica só se aprofunda a cada dia e nenhum projeto emergencial é elaborado para tentar solucionar o problema, pelo contrário, a ideia é modificar a forma de racionamento que será por zona.

Para isso é preciso um plano emergencial para enfrentar a crise da água, com uma saída de fundo: que entre outras medidas inclua colocar à disposição dos bairros pobres a água dos gastos supérfluos, de piscinas e clubes, implementar um plano de obras públicas controlado pelos trabalhadores, sindicatos e associações de bairros para construir poços artesianos nos bairros pobres e construir novos sistemas de abastecimento e tratamento,estatizando no plano nacional todas as empresas de coleta, tratamento e distribuição de água, colocando-as sob a administração dos trabalhadores que as fazem funcionar em aliança com a população de cada região.

Fica claro que os problemas que enfrentamos não tem como serem resolvidos em um sistema que visa apenas o lucro a partir de acordos entre políticos e empresários, deixando de lado as necessidades dos trabalhadores e a população pobre, neste sentido a relação entre o maior São João do Mundo e a maior crise hídrica da história de Campina Grande nos mostra duas faces da mesma moeda a da irracionalidade capitalista que superaremos com a luta.

Foto: Reprodução/ Simone Duarte




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