Teoria

FRANÇA / MAIO DE 1968: UM LEGADO EM DISPUTA [PARTE II DE III]

O maio de 1968 no seu auge e a “pacificação” [Parte II]

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 24 de maio| Edição do dia

Esqueçam tudo que aprenderam. Comecem a sonhar [Sorbonne]
Jamais poderá voltar a dormir tranquilo aquele que uma vez abriu seus olhos [Nanterre]
A barricada fecha a rua, mas abre o caminho [Censier]
A nova sociedade deve estar fundada sobre a ausência de todo egoísmo, de toda egolatria. Nosso caminho será uma longa marcha de fraternidade [Sorbonne]
Da crítica da universidade de classes ao questionamento da sociedade capitalista [Nanterre]
O poder tem o poder; vamos tomá-lo [Ciências Políticas]

Maio de 68: o auge
Eis que na França, em meados daquele maio de 68, as mobilizações operárias irão alcançar dimensões colossais.

Com a ofensiva operária impondo nova correlação de forças, a burocracia do PC vai tratar de se relocalizar, para não se queimar com sua base e, ao mesmo tempo, controlar um processo onde o grande maio já eclodira e o protagonismo proletário está no centro do palco, em aberta confluência com o movimento estudantil.

Os batalhões mais decisivos do proletariado estão em marcha.

“Foram os metalúrgicos que primeiro começaram a se mover. A partir do dia 14, os metalúrgicos da Sud-Aviation Bourguenais ocuparam sua fábrica e sequestraram ao patrão. No dia seguinte, é a vez dos metalúrgicos da Renault-Cléon e dos estaleiros de Bordeaux, acompanhados por Contrexéville [.../. As jornadas dos dias 16 e 17, decisivas, confirmam – pela lista das empresas que entram em greve nesses dias – o papel determinante dos metalúrgicos. [...] Portanto é a metalurgia – mais precisamente a aeronáutica e automotoras – as que primeiro entram em luta. Teremos que esperar até o dia 18 para vermos os primeiros sintomas entre funcionários [correios etc] e para que os ferroviários entrem em luta” [p.183].

O clima de solidariedade operário-estudantil só crescerá.

Por questão de sobrevivência política a CGT-CFDT e FEN [Federação de Educação Nacional] se sentem obrigadas a chamar à greve geral para o dia 13 de maio. Na verdade, o stalinismo jamais abandonará sua política de separar os estudantes dos operários. Mas girou para a greve quando viu que não tinha mais remédio.
“Então, em duas horas, no máximo três, o aparato central do PCF tinha decidido se colocar à cabeça das operações, não se opor às greves e até deixar que a mobilização avançasse” [p 238].

O movimento ia em ascenso. A essa altura, também os secundaristas já ocupam escolas e estão nas ruas. As mobilizações no bairro Latino se multiplicam, estudantes lançam bombas contra a polícia.

O movimento estudantil – qualificado por De Gaulle de “baderneiros” e pelo PC de “esquerdistas e anarquistas” – impõe a mais gigantesca das marchas de rua, no centro de Paris, com bandeiras vermelhas e a Internacional. “Viva a Comuna de Paris” é uma das bandeiras. Os choques com a polícia são violentíssimos, com 500 feridos e 400 presos.

No interior também há confrontos. A simpatia da juventude operária cresce, ao mesmo tempo em que a sabotagem do stalinismo, sua política de atomização do próprio movimento operário, também é vigorosa. Sempre lembrando que as fábricas estavam, como regra, nas mãos do PC.

“Em Renault-Cléon e na Peugeot, os comitês de greve estavam compostos por representantes sindicais. Em Peugeot-Sochaux, os responsáveis sindicais membros do comitê de greve foram nomeados ... antes que começasse a greve. [...] Na Peugeot-Lille, a lista de membros do comitê de greve foi estabelecida pelos sindicatos, mas submetida à aprovação de uma assembleia geral de pessoal.

Frequentemente esses compromissos chegarão à justaposição de uma estrutura sindical e uma estrutura que representa ´a base” [p.201; grifo nosso].
“De fato, a partir do dia 17 de maio, Georges Séguy [dirigente da CGT], confirmou seu rechaço à coordenação dos comitês de greve” [p.202].

Mais o movimento escalava, maior era o esforço das direções burocráticas da CGT/PCF em limitar o alcance das lutas operárias à esfera econômica [“economicismo”] e para isso, também precisava controlá-lo, atomizá-lo.
“Como já vimos a propósito dos comitês de greve, a preocupação das direções sindicais – e em todo caso, da CGT – foi a de compartimentar o movimento e confinar cada um deles à sua empresa. Conseguiram isso amplamente.

Desta forma, em Nord-Pas-de-Calais, discussões simples com os operários de outras empresas – inclusive através dos canais sindicais – apenas tiveram lugar em 31,5% dos casos” [p.207].

Por todos os lados os comitês de greve tinham sido controlados pela burocracia.

“Era a forma que os sindicatos tinham para englobar todo mundo e assegurar sua supremacia. E em todos os lados, não tinham sido mais que formas para fazer passar a política sindical. Em nenhum lado existiu uma forma de organização autônoma dos trabalhadores para exercer o poder sobre sua própria greve.
Chamava-se ´comitê de greve´, mas não tinha nem o perfil e nem cumpria a função. Eram eleitos sem discussão” [p 238].

No relato de um ativista operário:

“Em uma das agitadas reuniões do comitê de greve, o PCF decidiu tirar as bandeiras vermelhas das portas e meter em seu lugar os trapos tricolores [bandeira da França, NT]. Pelo que eu me lembro, isso foi feito em todas as fábricas no mesmo dia, ainda que muitas fábricas conservaram o vermelho até o fim. Pela manhã, as bandeiras que estavam penduradas sobre a porta que dava para a praça municipal tinham sido substituídas! Que bronca! Mas o comitê apelava rapidamente a todos os argumentos clássicos: somos franceses, é uma bandeira revolucionária [...] não se pode espantar àqueles que não são revolucionários” [p.241].

O PCF e Moscou coincidiam em que não havia que impulsionar qualquer processo revolucionário ali. E tinham os meios para desvincular, sistematicamente, como já foi mencionado, a luta política da econômica, para tratar de assegurar uma via sindical/eleitoral.

“A influência organizativa do PCF sobre a classe operária teve duas consequências: primeiro, uma percepção privilegiada da evolução da consciência do proletariado e, como consequência, o PCF era a única força política capaz de conter um eventual ascenso da combatividade operária. Era um argumento forte o suficiente para poder se impor diante do Estado e da burguesia, como interlocutor incontornável apesar de seus laços com a URSS”.

O processo revolucionário, no entanto, não se detinha.

Paris caminha para as dezenas de barricadas bloqueando a entrada da polícia no bairro universitário [quartier Latin]. Na noite do dia 10 de maio, em poucas horas, teremos 60 barricadas e também a mais violenta repressão na que ficou conhecida como “a noite das barricadas”. Horas de batalha estudantes-polícia, agora com participação também de operários.

“A união praticada entre operários e estudantes em janeiro se reproduziu em maio e junho. A greve geral do dia 13 obteve um amplo êxito: a manifestação dinâmica desembocou em discussões improvisadas entre a população, nas ruas se misturavam estudantes e operários.

No dia 17 de maio, Saviem sai à greve, à qual se unem rapidamente as grandes fábricas dos arredores. Desde então, os encontros entre estudantes e operários se multiplicam e não se limitam a um intercâmbio entre aparatos” [p.143].

Outras “noites de barricadas” virão. Mas será aquela grande batalha noturna no bairro Latino que detonará, de vez, o grande maio-junho operário-estudantil, confluindo as greves que se sucediam com o ativismo estudantil, abalando toda a França e atropelando a direção burocrática da UNEF.

O movimento é tão vigoroso que o número dois da França, Pompidou tenta fazer concessões universitárias. Não tem êxito.

É aí que a burocracia sindical joga mais pesado, sistematicamente, temendo perder o controle, e chama a já citada greve geral [para dia 13].

A Sorbonne está ocupada, já são centenas de milhares de estudantes nas ruas em todo o país, e explode a marcha de um milhão no centro de Paris: a maior mobilização de massas desde o final da II Guerra. Chamam ao “fora De Gaulle”, o movimento está politizado em alto grau. A França já se encontra profundamente abalada pela maior ação operária de sua história.

Na marcha da greve geral de 13/5, a confluência operário-estudantil nas ruas é evidente.

Na marcha massiva do dia 13 de maio, nas ruas, os operários “não brincavam nem cantavam, estavam ali porque a situação era séria, e do fundo da consciência operária tinha ressurgido a necessidade de estar ali. Quantos eram? Seguramente algumas centenas de milhares. Se falava em cifras de meio milhão e até de um milhão ... isso não tem importância. A massa do proletariado da região parisiense tinha chegado ali com uma única ideia muito clara na mente: entre De Gaulle e a polícia por um lado, e os estudantes pelo outro, já tinham feito sua escolha” [p.231].

A esquerda não comunista – minoritária ante o stalinismo – não dá perspectiva; zero estratégia para construir forças para um projeto de poder. E o stalinismo, com peso de massas, ocupa cada vez mais espaço, para negociar, como veremos, uma saída de conciliação de classe com o general bonapartista.

No marco de uma França coalhada de greves operárias [incluindo ocupações e sequestro de patrões/gerentes], inclusive ocupação da Renault em Cléon, De Gaulle desaparece, vai para a Romênia se reunir com tropas francesas lá concentradas.
No dia 20 basicamente todo o país estará em greve. No dia 22 teremos o auge do maio francês.

“De um ponto de vista quantitativo o 68 francês foi o movimento de greves mais imponente da história do movimento operário ocidental, de longe superior ao 1969 italiano, o famoso ´outono quente´, e mais ainda que o importantíssimo ´1926 da Inglaterra´, que vem bem abaixo em termos do número de dias de greve.

Sem considerar a centralidade do protagonismo operário, é impossível entender o alcance profundo do maio francês e de suas repercussões para a luta de classes, e não apenas a nível nacional.

É impossível entender ao mesmo tempo quatro décadas de tentativas “intelectuais” para liquidar ao proletariado da França como ator daquele ´ensaio geral´. Com isto não pretendemos dizer que o movimento estudantil não existiu na França em 68 ou que jogou um papel completamente secundário, ao contrário. É a única forma de entender em profundidade as características próprias do estudantado francês, e suas diferenças com o movimento estudantil do resto da Europa” [p.45].

De nada adiantou De Gaulle voltar da sua reunião com os militares no exterior e declarar que “o jogo acabou, reformas sim, baderneiros não”. Em seguida da sua ameaça [claramente golpista], as greves se estenderam mais que antes.

E a CGT/PCF? Continuam se relocalizando para assumir o controle do movimento, seguem atacando o movimento estudantil, rechaçando a relação dos operários com os estudantes, política que qualifica como “ingerência externa”. Sua estratégia é clara: impedir a todo custo a confluência operário estudantil [que na prática já dá grandes passos nas ruas] para negociar uma saída institucional que barre qualquer radicalização do movimento.

“O fato de que a burocracia sindical tenha logrado passivizar o desenvolvimento do movimento grevístico e tenha literalmente encerrado os trabalhadores em suas fábricas ocupadas para evitar que se coordenassem entre si ou com os estudantes e tomassem realmente o controle das greves, não significa que tenha conseguido passivizar a determinação do proletariado, que estava convencido da possibilidade e da necessidade de arrancar da burguesia no mínimo concessões significativas” [p.59].

De certa forma, o maio francês foi um ensaio geral de independência política do proletariado, mas sem o partido à altura.

Por exemplo:

“Na fábrica, os conflitos estudantis eram geralmente bem vistos pelos operários. O PCF estigmatizava falando dos filhos da burguesia que tinham seus estudos pagos etc e contra os esquerdistas para os quais a classe operária não lhes importava. [...] Dia após dia [...] a propaganda do PCF contra os manifestantes se tornou cada vez mais suja” ´esses incendiários de carros dirigidos pelo alemão Cohn-Bendit”. [...] mas “os jovens operários começavam a se identificar mais e mais com os estudantes em luta do que com os que os difamavam.

Na semana de 6 a 10 de maio, havia lutas todos os dia em Paris e nosso grupo de companheiros [depoimento de um operário, NT] tinha girado completamente para o lado dos estudantes” [p.226].

Em uma clara demonstração de que os operários desejavam ir além, muito além do projeto stalinista de aliança orgânica com a burguesia [nos marcos do grande acordo de Yalta], as mobilizações em toda a França, na esfera operária [e também estudantil] ganham mais corpo e já alcançavam um ponto depois do qual ou teria uma estratégia de poder ou o refluxo e a desmoralização iriam se impor.

O proletariado - no depoimento de um operário da época - vivia nas fábricas, um clima de “franca camaradagem. E creio que posso dizer, sem exagero, que a classe operária começava a revelar-se como tal” [p.233].

De Gaulle está perdido, o que mais teme está ocorrendo: o proletariado não se detém.

Seus aliados stalinistas ainda não conseguem manter a “ordem operária”. Ele faz um pronunciamento ao país, dia 24 de maio, e procura ganhar tempo propondo referendum sobre a reforma previdenciária e universitária para daí a três semanas.

“Quando De Gaulle, ao voltar, pronunciou o discurso de 24 de maio, os companheiros de Alsthom estavam na manifestação frente à estação de Lyon. Todo mundo escutou religiosamente seu discurso e quando terminou, explodiu um imenso protesto: ´Não nos interessa seu discurso´, ´Nós somos o poder. O baderneiro é ele´. E foram se enfrentar com a polícia, como nas vezes anteriores” [p.243].

Nova onda de greves. Nova “noite das barricadas” [em Paris e no interior, em Lyon, Strasbourg, Nantes etc], mais repressão, centenas de feridos, um morto. Uma manifestação camponesa ocupa Nantes chamando ao “fim do capitalismo”, e rebatiza a praça central como “praça do povo”.

O movimento operário, ainda poderoso, sua vanguarda mais combativa, convive com a ofensiva da burocracia sindical, que trata de conter o movimento como pode, burocratizando comitês de fábrica, barrando a organização da autodefesa fabril, promovendo assembleias para conter o movimento, estimulando negociação fábrica a fábrica, sabotando toda tendência à coordenação do movimento grevista, satanizando o movimento estudantil, sabotando o canto da Internacional, a bandeira vermelha [impõe a nacional] e só aponta para negociação, enquanto usa fraseologia de esquerda e espera do governo iniciativa para uma saída “honrosa” [burguesa].

“A partir daquele momento se iniciam os dias de maior incerteza para a burguesia. Por sua vez, a burocracia sindical, começando pelo PCF e a CGT, vão optar por corrigir seu erro, assumindo uma estratégia de atomização das negociações ramo por ramo, dividindo as aos setores em luta em nome de uma maior capacidade de negociação. Na realidade, vai ser a arma da burocracia para dissolver e desagregar a greve geral em um enorme quantidade de lutas parciais por fábrica, para impulsionar a volta à normalidade depois das negociações setoriais” [p.60].

A burocracia sindical jamais impulsionou os grupos operários de autodefesa:

“As manifestações de maio de 68 foram assim. Quem estavam organizadas eram as forças policiais, mas do lado dos manifestantes, não havia qualquer centralização. Naquelas jornadas lutávamos como podíamos, evitando ao máximo possível os danos, mas em um estado de improvisação total” [p.243].

“Em Alsthom, os operários da porta propuseram a questão de preparar material para autodefesa em caso de um ataque. Imediatamente houve um conflito com a CGT. Nada disso. E quando os companheiros perguntaram o que se devia fazer se chegasse a polícia, a resposta foi clara e inequívoca: não se resiste por meio da luta. [...] Durante todo o 68 não escutei falar nem uma única vez de armas. E no entanto, estávamos em uma fábrica de vanguarda em um bairro que tinha certa tradição. Mas, armas contra quem? O inimigo não estava nos bairros mas em primeiro lugar no interior da própria fábrica; o PCF-CGT assumia seu papel de polícia política da burguesia no seio da classe operária. Tinham a direção da greve e o controle do conflito” [p.246].

Zero política em termos de milícias operárias de autodefesa.

“As lembranças de maio estão profundamente marcadas pelos violentos enfrentamentos de Renault-Flins e de Peugeot-Citroën. Mas se examinamos o processo de autodefesa posto em prática durante o movimento de maio – definindo a autodefesa como a preparação consciente e meticulosa da fábrica ocupada contra as eventuais tentativas da polícia ou de fura-greves tentando fazer respeitar “a liberdade de trabalhar” – é preciso constatar que, aqui e ali, se produziram violentos enfrentamentos. Mas foram amplamente improvisados [pelo menos do lado dos operários] e não fruto da vontade deliberada de defender sua empresa” [p.206].

É quando o governo vai para a negociação, com patronal e burocracia sindical e faz concessões pífias; são os “acordos de Grenelle”, do dia 25. O dirigente da CGT é vaiado quando os apresenta na assembleia operária da Renault. A situação na França não se estabilizara.

A “pacificação”
A burocracia passa à ofensiva, nos marcos do vácuo da esquerda não-comunista que, sequer, leva adiante uma luta antiburocrática. Em uma plenária de 30 mil pessoas no estádio, dias depois, somente a burocracia pode tomar a palavra, ao mesmo tempo em que promove reuniões “informativas” de milhares nos bairros, em defesa da conciliação e volta ao trabalho.

Sabota qualquer autodefesa proletária. Nesse clima, De Gaulle desaparece de novo e vai se reunir com o general Massu, na Alemanha, onde também há tropas francesas. É sua segunda grande iniciativa pública no processo de conspiração golpista e tampouco deixa de ser uma explícita manobra de intimidação.

Mas também temos aqui um claro indício da relação de duplo poder, embora não mais em seu auge. O governo não se sente para nada seguro diante da classe operária. Nas suas memórias, o general dirá que foi salvo pelo PCF e pela CGT, isto é, pelo stalinismo. Uma evidência, no caso, oferecida pelo ator principal da burguesia naquele maio, de que havia condições objetivas para uma revolução proletária em um país imperialista central. Mas não a direção política.

“De Gaulle sabia muito bem até onde estava disposto a chegar o PCF. Semanas a fio o PCF se lançava contra os esquerdistas e De Gaulle sabia muito bem que poderia contar com o PCF; não precisava do exército nem de nada. já tinha tido os comunistas como ministros vinte anos atrás e ´nunca teve do que se queixar´ [a expressão era sua]. Por isso mesmo, quando De Gaulle reapareceu, quando anunciou as eleições gerais, o PCF foi imediatamente engolido” [p.246].
O desvio político se consumara.

Mas a verdade é que “entre maio e junho de 1968 o poder burguês francês sofreu um dos maiores questionamentos de sua história: 10 milhões de operários, a grande maioria da força de trabalho da França tinha ido à greve geral e o movimento estudantil enfrentava o regime nas ruas.

O principal aliado de De Gaulle naquela crise aberta com a insurgência operária e estudantil foi nada menos que o Partido Comunista Francês e a CGT, que se bem que tinham perdido toda autoridade no movimento estudantil, conservavam a direção dos principais batalhões do movimento operário” [p.69].

O fato é que De Gaulle e os stalinistas reeditam, a fins de maio, sua genial – do ponto de vista da estabilidade burguesa – e criminosa – considerando do ponto de vista da classe operária – aliança dos anos 1940: conseguem salvar a classe dominante do espectro revolucionário. As tarefas são divididas. O stalinismo se encarrega de atomizar o movimento grevista, o que permite a De Gaulle reforçar o bloco social reacionário que, para além de seus desacordos internos a médio prazo, volta a se reunir em torno do velho general, homem providencial capaz de desfechar um duríssimo golpe ao movimento operário e popular” [p.63].

Regularmente o stalinismo emitia sinais de fumaça a De Gaulle: nossa luta não é para valer, não pretendemos derrubar o regime:

“De Gaulle chamou a uma manifestação nos Champs Elysées. Discutimos isso na fábrica. Do lado do PCF e da CGT havia um silêncio total. Nenhuma consigna. Nada. essa foi outra prova oferecida a De Gaulle de que o PCF não queria lutar, acontecesse o que acontecesse. Ficamos sem fazer nada e pelo que sei isso ocorreu em todos os lados. Naturalmente os companheiros estavam dispostos a fazer contramanifestação” [246].

O stalinismo, que controlava os batalhões decisivos da classe operária francesa, miseravelmente, trabalhou dia e noite, pela capitulação. Ia parando cada fábrica que controlava, barrando conscientemente a aliança com o movimento estudantil “baderneiro”.

De tal forma que, quando De Gaulle voltou da Alemanha e dissolveu o parlamento anunciando eleições legislativas para junho, e mobilizou centenas de milhares em Paris em seu apoio [marcha da direita], a essa altura, o PCF já trocara as ruas pelas eleições. Nas suas marchas o canto da Internacional fora já substituído pelo do hino nacional francês.

[Continua na próxima semana, na nota III de III]

Crédito de imagens: sites A casa de vidro, Movimentum maio 68, Pinterest e Auctions-catawiki




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