Política

MÁRCIO FRANÇA

O herdeiro de Alckmin é um “mal menor” para o governo de SP?

O ex vice de Alckmin está longe de representar alguma alternativa para combater as candidaturas privatistas de Dória/Skaf, tampouco pode representar uma mudança das gestões tucanas das últimas décadas.

terça-feira 11 de setembro| Edição do dia

Na última pesquisa divulgada pelo Ibope do dia 11/09, após o inicio do horário eleitoral, Skaf e Dória seguem disputando a liderança. O ex prefeito mesmo com toda a crise interna no PSDB se mantém com 21%, enquanto Skaf do MDB cresceu alguns pontos e foi para 22%, ficando em primeiro lugar. Num cenário eleitoral incerto, marcado pelo avanço do golpe institucional na eleição nacional, a pesquisa datafolha do dia 06/09 registrou que 30% do eleitorado paulista não possui ainda candidato para o governo do Estado (22% nulos/Brancos e 8% não sabem). Nesse contexto, a principal novidade foi que o candidato do PSB, Márcio França, dobrou suas intenções de voto indo de 4% para 08%, enquanto o petista Luiz Marinho se contenta em manter seus 5%.

Sem dúvida, o principal debate nos locais de trabalho e estudo vem sendo os fatos que surgem a cada dia de uma eleição nacional, marcada por um lado proscrição da candidatura de Lula e sua substituição por Haddad, e por outro com o fortalecimento da extrema direita e a nova conjuntura eleitoral, em particular após o atentado sofrido por Bolsonaro na semana passada. Ou seja, uma forte polarização, onde mesmo com a continuidade do golpe institucional que segue a todo vapor impedindo o direito democrático do voto da população, judiciário, mídia e o mercado continuam tendo dificuldades em pressionar as eleições para o centro político, já que Alckmin como ideal candidato para os planos golpistas segue estagnado nas pesquisas.

Ver mais em:Após o atentado, o dilúvio? A nova configuração do xadrez eleitoral

Um cenário ainda de muitas incertezas e dificuldades, já que qualquer governo eleito estará comprometido em aplicar a agenda de ajustes e ataques para descarregar a crise nas costas dos trabalhadores.

Esse complexo cenário eleitoral tem impacto direto nas eleições estaduais. Em SP, conforme mostram as pesquisas, Dória e Skaf seguem disputando quem é o candidato que continuará aplicando os planos privatistas que vem sendo a tônica da gestão tucana nas últimas decadas.

Do lado tucano, Dória fez da prefeitura de SP uma gestão de marketing político para se alçar como outsider da política nacional, em um certo momento chegando até disputar com seu próprio padrinho político Alckmin a disputa presidencial. Perdeu a batalha interna no PSDB e teve que se contentar com a candidatura ao Governo estadual, porém não sem deixar uma grande crise interna que segue dentro do partido, com direito a expulsão da “ala traidora” que compartilhava assim como Alckmin, que França fosse o candidato apoiado pelo PSDB em SP. Não a toa, vários analistas apontam que em SP vem se expressando o voto “BolsoDória”, ou seja que a maior parte do eleitorado de Dória em SP, ao invés da esperada dobradinha com correligionário tucano para a presidência, prefere Bolsonaro como candidato.

Já o emedebista Skaf, apoia-se na projeção que conseguiu em eleições passadas, como representantes da FIESP, entidade patronal e golpista da indústria de São Paulo, conhecida nacionalmente por abrigar as manifestações pelo impeachment de Dilma Roussef sob o símbolo do Pato Amarelo na avenida paulista. Apesar de tentar esconder a todo custo, possuo o pior "cabo eleitoral" nessas eleicoes, é candidato do golpista Temer, e isso também explica também os limites de crescimento da sua própria candidatura. Skaf também é um dos que possui uma das maiores taxas de rejeição, 23%, ficando atrás apenas de Dória com 33%, e Marinho com 24%.

Do lado oposto, com menor taxa de rejeição (com 17%) está Márcio França. Um dos fatores que leva o publicitário Nelson Biondi, líder da comunicação da campanha de Dória, afirmar que o principal adversário de Dória é França. Isso se deve, segundo o publicitário, pois França ao mesmo tempo que se apoia nos anos de gestão Alckmin, o faz sem ter o desgaste dos 24 anos de PSDB no governo. “O Márcio disputa no mesmo campo que o nosso... Ele quer assumir um legado que não é dele.”, diz Andre Gomes marqueteiro e sócio de Biondi. E qual seria esse legado que tucanos disputam com França? Justamente o legado dos anos de obras paradas e corrupção a frente do Metrô de SP, o desmonte na educação pública com o congelamento de verbas e investimentos na Universidade de São Paulo, o fechamento de salas de aula, o escândalo da merenda nas escolas estaduais, a dura repressão aos jovens estudantes secundaristas, a demissão em 2014 de 40 metroviários, ou seja um legado de chicote e ataques a classe trabalhadora e a juventude, em base a um programa de desestatização e entrega completa dos serviço públicos a iniciativa privada.

Outro fator que leva França a ter um potencial de crescimento é o tempo de TV, que será praticamente igual a Dória, e bastante superior a de Skaf. Mas isso também não é a toa, o PSB estabeleceu uma coligação com todo o “centrão estadual”, conseguiu reunir o que há de pior na política e todo o espectro do golpismo nacional (vale lembrar que o PSB também foi parte desse bojo já que declarou o apoio ao impeachment em 2016) para apoiar a candidatura de França. Por isso, junto com ele estará figuras como o burocrata Paulinho da Força Sindical do Solidariedade, o tambem golpista Álvaro Dias do Podemos, o degenerado dono de prostibulo Oscar Maroni do PROS, o pastor, apoiador de Bolsonaro e cabo Daciolo do Patriota, além de outros partidos que compõe historicamente a base do PSDB em SP como o PTB, PV, PPS, PSC, PHS, além de ter como vice a Coronel da Policia Militar Eliane Nikoluk do PR, que está na coligação nacional do PSDB, com bens declarados que superam 1 milhão de reais. PPL, PRP, PSC, e o Partido da Mulher Brasileira completam a lista de aliados.

Nesse barco, justamente com o calculo e o discurso do mal menor também quase entraram nessa coligação PT e o PC do B. Esse último inclusive, negociou com intermediação de Aldo Rebelo (Solidariedade) até ultimo momento a entrada na chapa com França, que somente mudou após o fechamento da coligação nacional com o PT, onde Manuela D’Avila assumiu como substituta a vice da chapa Lula-Haddad, e o ex presidente negociou o acordo de “neutralidade” com o PSB nacionalmente, para tentar isolar a candidatura de Ciro Gomes, o que levou a impactar candidaturas em outros estados como PE e MG. Mesmo assim, o PC do B negou a assumir a vice na chapa de Luiz Marinho, como gostaria o PT em SP.

Nesse sentido, não está descartado que esse acordo de neutralidade não tenha interferência direta também em São Paulo, com a candidatura de Luiz Marinho sendo mais um palanque Nacional para Lula, e funcional para França desgastar Dória e Skaf, do que de fato uma concorrência e disputa direta entre PSB e PT. Uma expressão dessa hipótese é que tanto PT como PC do B seguem uma política dupla em vários sindicatos com uma justificativa de voto útil e fazendo muita demagogia. No sindicato dos metroviários, por exemplo, CTB e CUT abriram um suposto canal de negociação com o governo querendo passar uma imagem que França estaria indo contra a privatização, ou ao menos estaria disposto a dialogar, pelo fato do adiamento da concessão da Linha 15, prevista para ser entregue agora no mês de julho. Um fato irreal, já que isso não só dependia de França (desde agosto os processos licitatórios seriam paralisados devido a eleição), e também porque o próprio defende em seu programa a continuidade das PPPs (parcerias publico privadas) assumirem a administração das novas linhas do Metrô. Assim como na Apeoesp, aonde não foram poucas as fotos sorridentes que Bebel da CUT pousou ao lado do Governador, fazendo demagogia com bonificações aprovadas no semestre passado, que nem chegam perto de recuperar a perda salarial que os professores tiveram ao longo dos duros anos de gestão Alckmin e França no Governo.

Essa estratégia do PT e PC do B em se apoiar num possível crescimento de França, mostra como o voto no “mal menor” não serve para combater o golpismo de Skaf e Dória, que contará com os votos da extrema direita de Bolsonaro, pois em São Paulo isso significa que dentro dessa lógica seria compartilhar programaticamente e governar não somente com a mesma base de partidos golpistas dessas candidaturas, como inclusive internamente nos bastidores com os próprios tucanos que estavam a frente do governo ao longo dos ultimos anos, tudo isso com aval de Alckmin. Esse tipo de estratégia, revela o caráter de conciliação desses dois partidos, e mostra qual política tiveram nos últimos anos sendo responsáveis por abrir o caminho ao golpe institucional e para a direita no país. Como se vê em vários estados, PT e PC do B preferem fazer acordos com golpistas nessas eleições, ao mesmo tempo que impedem o surgimento de uma alternativa a esquerda que apostasse na mobilização independente dos trabalhadores para enfrentar os ataques dos golpistas nessas eleições.

Justamente por isso, desde o MRT a partir das candidaturas de filiação democrática com o PSOL, de Diana e Pablito para deputados, e através do portal Esquerda Diário, atuamos em categorias de trabalhadores em locais de estudo, e estamos apresentando fortemente a necessidade de lutar contra a continuidade do golpe, que se expressa no controle do judiciário impedindo a população de ter seu direito democrático ao voto, mas não apoiamos o voto no PT, pois é necessário nas lutas e na mobilização independente construir uma alternativa que supere pela esquerda esse partido e seus aliados, como estratégia para enfrentar os ataques e ajustes que qualquer governo que for eleito vai despejar contra os trabalhadores após as eleições.

Fonte: Ibope; Datafolha; Revista IstoÉ.




Tópicos relacionados

Marcio França   /    PSB   /    Eleições 2018   /    João Doria   /    PSDB   /    Eleições São Paulo   /    Política

Comentários

Comentar