Política

MULHERES E AS ELEIÇÕES

"O feminismo não pode ser uma demagogia eleitoreira", diz Diana Assunção

Em meio à campanha eleitoral, em um país com níveis alarmantes de feminicídio e outras marcas de profundo machismo, vemos diversos candidatos fazerem demagogia com as pautas feministas para angariar alguns votos. Convidamos Diana Assunção, fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas e candidata a vereadora em São Paulo pela bancada revolucionária do MRT para comentar o tema.

terça-feira 13 de outubro| Edição do dia

A questão do machismo e da misoginia são temas fundamentais em nossa sociedade, e os casos de violência contra a mulher e feminicídios só cresceram durante a pandemia, bem como outras violências contra as mulheres. O Esquerda Diário convidou Diana Assunção, fundadora do grupo de mulheres Pão e Rosas e apresentadora do podcast Feminismo e Marxismo, que também concorre ao cargo de vereadora como parta da bancada revolucionária de trabalhadores do MRT, para comentar como o tema vem sendo abordado por alguns dos candidatos à prefeitura da capital paulista:

“O tema das mulheres, em seus diversos âmbitos, ora é completamente ignorado pelos candidatos, ora tratado de forma demagógica para angariar votos. Celso Russomano, que lidera as pesquisas hoje, é deplorável: são notórios seus assédios e casos de machismo como apresentador, bem como as tantas vezes em que humilhou trabalhadoras nos comércios em busca de audiência. É um machista e um misógino consagrado, tal como seu atual ‘padrinho’ político, Bolsonaro. Segundo levantamento feito pelo jornal Brasil de Fato, nas 45 páginas de seu programa de governo cita a palavra ‘mulher’ apenas uma vez, de forma genérica ao dizer na introdução ‘Avançar no fortalecimento dos programas de atenção em saúde dirigidos aos grupos populacionais prioritários e de alto risco, como crianças, mulheres, gestantes, idosos e dependentes químicos’. Sabemos que Russomano, além de ser apoiado pelo machista Bolsonaro, sai como candidato pelo Republicanos, cujo presidente, Marcos Antônio Pereira,disse recentemente ser “o único” partido autenticamente conservador no país, aliado da Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo. Pereira é bispo licenciado da Igreja Universal de Edir Macedo, e promete Escolas Militares em São Paulo na gestão de Russomano. Ou seja: é, em todos os sentidos um inimigo dos direitos das mulheres.

Joice Hasselmann, uma candidata mulher da extrema-direita mais machista e misógina, defende o ‘empreendedorismo social’ como resposta à miséria capitalista destinada às mulheres trabalhadoras. Ou seja, Hasselmann assume o programa ultraliberal dizendo que o Estado não irá garantir emprego, nem assistência de nenhuma forma, mas apenas “micro crédito” destinado a fomentar atividades como “venda de marmitas, costura, limpeza, salões de beleza”. Se aproveitando da precariedade da vida, dos bicos que as mulheres são obrigadas a conseguir para viver, Joice quer enriquecer ainda mais os capitalistas com o endividamento dessas mulheres. Desses reacionários da extrema direita é evidente que não podemos esperar nada, senão mais ataques.

Bruno Covas mostrou seu desprezo pelo tema ao enfraquecer ainda mais o já cosmético Conselho Municipal de Política para as Mulheres criado na gestão de Fernando Haddad. Isso, somado ao fato de que o seu programa não faz mais do que uma ridícula propaganda de medidas de seu governo em relação à saúde das mulheres, enquanto o que verificamos na realidade é a completa destruição dos equipamentos de saúde, deixa claro como o tucano encara a questão das mulheres. Diz muito também sobre o PT, pois o demagógico conselho criado por Haddad não fazia mais do que “apresentar sugestões para o orçamento anual da prefeitura”, segundo o próprio partido. O conselho petista, portanto, não tinha nenhum poder real de decisão, servindo apenas para dar um “verniz feminista” ao governo.

Mas os petistas e tucanos podem dar as mãos também na questão da fila das creches, uma demanda urgente e elementar para as mulheres trabalhadoras. Enquanto vemos um escândalo de corrupção e mais de 24 mil crianças de zero a três anos nas filas na gestão Covas, na gestão Haddad vimos a manutenção das imensas filas, o avanço da privatização com os convênios com creches privadas, que levava por exemplo ao fechamento de sete creches sem aviso por encerramento de contratos com as instituições privadas. O PT também tem em seu currículo a vergonha de fazer muita demagogia com a questão das mulheres, mas não ter dado um único passo no avanço da legalização do direito ao aborto em seus treze anos de governo: pelo contrário, Dilma firmou acordo com o Vaticano e assinou a vergonhosa “carta ao povo de Deus” se comprometendo a não tocar no tema, sendo o aborto clandestino ainda a causa da morte de milhares de mulheres no Brasil todos os anos.

Orlando Silva, do PCdoB, faz parte de outro partido que adora se pintar de esquerda e fazer demagogia com as pautas das mulheres, mas na prática vimos recentemente muito bem como querem favorecê-las: no Congresso, botaram toda sua bancada para votar a favor da milionária isenção às igrejas evangélicas, grandiosas empresas da fé que possuem suas bancadas nos parlamentos, onde uma de suas pautas centrais é lutar contra os direitos das mulheres em todos os níveis. É fortalecendo esses aliados que o PCdoB mostra na prática, e não na letra morta de suas declarações e programas, que está contra os direitos das mulheres.

O feminismo não pode ser uma demagogia eleitoreira, nem uma moeda de troca na política suja de acordos com os patrões, banqueiros, empresários, donos das igrejas. A luta contra o machismo, a misoginia, a exploração redobrada que recai sobre as mulheres com as duplas jornadas, os salários mais baixos, os postos de trabalho mais precários, contra as mortes causadas pelos feminicídios e abortos clandestinos, tudo isso se constrói no cotidiano da organização das mulheres trabalhadoras. Estamos há mais de uma década construindo essa luta na prática, na linha de frente de combates das trabalhadoras terceirizadas, nas suas greves e construindo um programa que luta pela sua efetivação com igual salário e direito aos dos trabalhadores efetivos. Nossa luta pela legalização do aborto não é demagógica, e nos orgulhamos de fazer parte de um grupo internacional de mulheres que na Argentina esteve na linha de frente da chamada maré verde, em que as mulheres e homens saíram às dezenas de milhares nas ruas pelo direito ao aborto. Seguiremos lutando por estas demandas, fazendo da eleição mais um terreno de luta em uma guerra.”




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