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O efeito Lula na esquerda brasileira e o desafio dos marxistas

Mateus Torres

Ilustração: Juan Chirioca (@macacodosul)

O efeito Lula na esquerda brasileira e o desafio dos marxistas

Mateus Torres

A retomada dos direitos políticos de Lula reordena todos os espectros políticos. Com os setores que se apresentam como alternativas à esquerda do PT não é diferente. Nem se trata da primeira vez que se coloca o desafio de fazer frente ao PT com forças renovadas. Analisemos o efeito Lula sobre a esquerda que se reivindica socialista, à luz das lições de experiências passadas com o próprio Lula e o PT. A insuficiência das forças de todas as alternativas à esquerda do PT depois de 40 anos de sua existência coloca a necessidade de olhar este processo com as ferramentas teóricas do marxismo revolucionário para evitar a repetição de erros que nos conduziram a essa situação.

O mesmo Supremo Tribunal Federal (STF) que foi agente bonapartista de primeira ordem na prisão do Lula, busca aparecer como “salvador democrático” restituindo seus direitos políticos. Não o faz por benevolência ou “autocrítica”. As análises que se limitam às aparências explicam essa viragem na busca de Fachin por salvar a Lava Jato. Mas uma análise marxista precisa buscar a essência de tal movimento, que surpreendeu muitos analistas, apesar dos variados sinais que vinham se desenvolvendo ao longo do governo Bolsonaro, e que aumentaram diante da dinâmica catastrófica da crise econômica, sanitária, política e social. A esquerda brasileira em sua maioria parece não querer ver o que até o FMI aponta como uma hipótese que se ampliem as revoltas sociais a partir da pandemia. Isso é o que de fundo explica tal viragem do STF: o Brasil pode ser um dos elos débeis no mundo onde podem ocorrer revoltas sociais. Não seria estranho no marco que o Brasil é dos países onde a pandemia está mais descontrolada, com mais de 2 mil mortos por dia e uma generalização da miséria em grande escala. O mais recente alerta foi nosso vizinho Paraguai, que se soma ao Chile, Peru e outros exemplos recentes no cone sul. Como resposta a esse “risco Brasil”, que se coloca apesar da situação reacionária que perdura há vários anos, mas que pode dar lugar a giros bruscos, as próprias instituições e atores golpistas sabem que não há melhor agente conciliador e fator de contenção do que Lula, para evitar possíveis tendências à esquerda por fora das vias institucionais.

Essa constatação de que podemos viver no próximo período explosões sociais, deveria ser o que norteia a esquerda que se reivindica socialista, se preparando para isso desde já batalhando por uma resposta à crise em curso, se negando a entrar na linha petista de esperar 2022. Mas ao contrário de se preparar para esta perspectiva de luta de classes com uma política independente do PT, o PSOL e outros setores apontam para repetir em forma de farsa a tragédia de adaptação ao PT e Lula de experiências passadas. Não pretendemos nessa modesta contribuição fazer um balanço totalizante ou acabado dessas experiências, mas apontar elementos que deveriam ser parte dos pontos de partida para pensar os desafios de uma esquerda marxista revolucionária que possa definitivamente levar à frente as tarefas preparatórias necessárias para uma superação do PT pela esquerda quando a luta de classes vier a colocar essa oportunidade.

Lula, o PT e a resiliência do reformismo que não enfrentou grandes crises históricas

Lula é um dirigente carismático bastante particular, mas sempre se pode buscar nos marxistas clássicos elementos que colaborem para uma interpretação renovada e não dogmática dos fenômenos do presente, pois o PT carrega pontos de contato com outras experiências reformistas e burocráticas do movimento de massas ao redor do mundo. Na véspera do seu assassinato pelas mãos do stalinismo, em agosto de 1940, Leon Trótski contribuiu teoricamente para explicar a relação dialética entre “Classe, partido e direção”, o que dá nome ao texto. Trata-se de uma reflexão que ajuda a pensar a experiência com Lula e o PT. Nos limitaremos aqui a resgatar uma das ideias fundamentais:

[...] a direção, de nenhum modo, é um simples “reflexo” de uma classe ou o produto de sua própria criação livre. Forja-se a direção no processo dos choques entre diferentes classes e das fricções entre as diferentes camadas dentro de determinada classe. Uma vez assumido seu papel, a direção invariavelmente se eleva acima de sua classe, com o que fica predisposta a sofrer pressões e influências de outras classes. O proletariado pode “tolerar” por longo tempo uma direção que tenha sofrido um processo de completa degeneração interna, contanto que ela não tenha tido a oportunidade de evidenciar essa degeneração diante dos grandes acontecimentos. É necessário um grande abalo histórico para aparecer a aguda contradição entre a direção e a classe. Os abalos históricos mais poderosos são as guerras e as revoluções. Precisamente por este motivo é que, com frequência, a classe operária é pega desprevenida pela guerra e pela revolução. Mas mesmo nos casos em que a velha direção tenha revelado sua corrupção interna, a classe não pode improvisar imediatamente uma nova direção, se não herdou do período anterior sólidos quadros revolucionários, capazes de aproveitar o colapso do velho Partido dirigente. [1]

É inegável que o PT é destas direções do movimento de massas que expressa resiliência frente a crises, mantendo forte base social apesar de diversas traições ao longo de sua história. Claro que o PT hoje não é nem de perto aquele surgido nas greves do ABC. O fenômeno do lulismo e a transformação que o PT passou com a experiência do governo federal, é somente uma das clivagens fundamentais. Este já não tem as mesmas relações orgânicas e capacidade de mobilização que tinha nos sindicatos.

Haveria numerosos exemplos a dar de direções reformistas que entram em crise ao sofrerem ataques da direita, mas se preservam e conseguem se revigorar justamente porque são vistas como vítimas dos inimigos, apesar de sua estratégia de conciliação. Foi o que se deu com o PT frente ao golpe institucional. Com os limites de qualquer analogia, poderíamos citar o caso da social-democracia alemã no início do século XX, que depois de profundamente golpeada pelo nazismo, recompôs sua força, apesar das enormes traições que levou adiante. Também podemos verificar isso na própria história do velho PCB, que surge na década de 20 e avança e retrocede em vários momentos de fluxo e refluxo da luta de classes, exceto quando frente ao golpe de 64 as massas concluem que tal direção aceitou uma derrota sem luta quando havia condições de resistir.

O PT também não sofreu em seus 40 anos de existência, “abalos históricos” no sentido que Trótski aponta. Ao contrário, foi o período mais longo de democracia burguesa no Brasil, onde o PT sempre se localizou como ala esquerda “responsável” do regime político, o que não está descolado de que os próprios processos de luta de classes que se deram foram limitados e mesmo momentos de crise econômica importantes, se deram com o PT na oposição. Isso se liga à “resiliência” do partido em relação a rupturas mais profundas pela esquerda. Mas queremos refletir como também se deve às debilidades das alternativas à esquerda do PT para fazer avançar a experiência com essa direção.

Mas não se pode descartar neste momento em que o capitalismo mundial está em uma crise de enormes proporções e há um retorno da luta de classes se expressando em diversos levantamentos pelo mundo, que a interposição de diversas crises faça com que o Brasil passe de ser um dos polos mais reacionários da situação mundial a um novo país, que confirme a atualização da definição de que vivemos tempos de crises, guerras e revoluções. Ainda que os ritmos para que a crise no Brasil ganhe tais contornos não podem ser determinados e podem inclusive ser lentos, o que é certo é que a crise histórica que vivemos será um novo teste para o PT, e para a esquerda que se propõe a ser alternativa.

Vejamos parte dos erros durante a experiência do PT no governo federal que impediram que a esquerda tenha, como aponta Trótski, “sólidos quadros revolucionários”, forjados a partir de combates corretos nos momentos preparatórios para aproveitar as oportunidades de consolidar uma forte alternativa pela esquerda do PT, já que “a classe não pode improvisar imediatamente uma nova direção”.

Lula como uma Frente Popular Preventiva e um governo de ajustes, a experiência que o regime quer resgatar

No começo dos anos 2000, a América Latina era palco de levantamentos populares em vários países, em “jornadas revolucionárias” contra a ofensiva neoliberal. Era notória a tendência de contágio no Brasil, o que fez setores de peso da burguesia brasileira e do regime político recorrerem a Lula como uma “Frente Popular preventiva”. Essa política de se antecipar a explosões sociais, lançando mão de transformações pelo alto e contando com as direções traidoras do movimento de massas, é uma característica da classe dominante brasileira. Treinou e executou bastante isso através da história e mais uma vez o fez em 2002.

Aquele desvio eleitoral orquestrado foi bem-sucedido do ponto de vista de evitar uma explosão social e se trata do que querem repetir agora. Logo no início de seu governo, Lula mostrou como não fugia à regra do reformismo em tempos de crise e atacou, com a reforma da previdência. Por assim dizer, não foi só o governo Dilma de 2015 que foi um “estelionato eleitoral”, com um plano de ajustes logo após vender ilusões nas eleições em tempos de crise. Em seu recente discurso no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, carregado de simbolismos e uma série de questões de conteúdo que extrapolam os objetivos deste artigo, Lula não somente evitou fazer referência ao governo Dilma, mas também se negou a denunciar as reformas da previdência e trabalhista, mostrando que está disposto a governar administrando a obra econômica do golpe. Além disso, Lula falou somente dos momentos de seu governo em que havia um ciclo de crescimento econômico internacional que permitiu ao Brasil fazer pequenas concessões ao povo enquanto garantia os lucros recordes de banqueiros e capitalistas.

Mas isso não impediu que todo o regime político e até “os mercados” entendessem o recado. O discurso de conciliação ressaltado por todos e a negativa de anular os ataques do golpismo, foram suficientes para comentaristas da Globo no mesmo dia passarem a elogiar Lula, mas não somente como comparação com o execrável Bolsonaro como “mal menor”. Foram além, resgatando como foi um governo “exemplar” com os ajustes no começo do seu governo de 2003-4, com a reforma da previdência e outros ataques, além de reivindicar que recorria a ministros como Henrique Meirelles.

Um processo de rupturas com Lula e o PT que foi desperdiçado pela esquerda

Para amplos setores da vanguarda proletária e estudantil daquele começo dos anos 2000, não era uma surpresa um governo ajustador. O PT já havia mostrado essa linha em diversos governos municipais e estaduais. E foi justamente nos setores com maior tradição de organização e da esquerda, o funcionalismo público e o movimento estudantil, em particular nos grandes centros urbanos, de onde surgiu um importante processo de resistência e reorganização. Lula foi capaz de desviar potenciais explosões sociais, mas a luta contra a reforma da previdência e os escândalos de corrupção do mensalão que expressavam que o PT estava adotando os métodos da direita tradicional de governar, geraram um processo de rupturas com o PT pela esquerda no patamar político e sindical.

Nossa organização, embrião do que é o Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) hoje, fez parte de todas aquelas lutas e processos de reorganização, atuando para que se abrisse um debate programático e estratégico em comum entre o PSTU e todos os setores que rompiam com o PT pela esquerda, para tentarmos fundar um grande partido revolucionário de trabalhadores. Isso foi negado, de um lado pelo PSTU, que depois de em toda sua história ter como projeto a construção de um partido com a esquerda do PT, frente ao processo real que se deu de rupturas, quis impor suas concepções a toda a vanguarda burocraticamente; por outro lado, os parlamentares que rompiam com o PT também se negaram porque queriam fundar um “partido amplo” que unisse reformistas e revolucionários. Este projeto foi adotado por um setor do trotskismo em vários países e fracassou amplamente, com os reformistas ganhando a maioria e as correntes que se referenciam na tradição trotskista se diluindo. Ou seja, os que depois fundaram o PSOL não se propunham a um partido de independência de classe. Apesar dessa recusa a um debate sério que pudesse evitar essa divisão que enfraqueceu a possibilidade de construção de um grande partido revolucionário de trabalhadores à esquerda do PT, nós sempre mantivemos um diálogo permanente com o PSOL e o PSTU em função das necessidades impostas pela realidade em cada momento, apesar das nossas diferenças.

Após a fundação do PSOL, o PSTU aprofunda um giro sindicalista e canaliza de forma equivocada o processo antiburocrático que surgiu na luta contra a reforma da previdência no movimento sindical. Primeiramente pela linha de ruptura com a CUT, que era sectária na forma e oportunista no conteúdo. Sectária porque em meio a manutenção de ilusões de amplos setores de massa com o PT e um processo ainda incipiente de rupturas, o PSTU tem uma linha que separa vanguarda e massa através de uma divisão organizativa para criar um aparato (Conlutas) onde tivesse peso majoritário. Oportunista de conteúdo porque com isso deixou a CUT (e a UNE no movimento estudantil) sob um controle mais tranquilo da burocracia petista (e do PCdoB), enfraquecendo as oposições internas que deveriam ter sido potencializadas para um verdadeiro enfrentamento com a burocracia sindical (e estudantil). Sindicatos não são partidos políticos. Enquanto os partidos se reúnem em torno de um programa e estratégia, os sindicatos são mais fortes quanto maior adesão tiverem entre as fileiras dos trabalhadores que congregam. Por isso dividir um sindicato, mesmo que sob uma fraseologia vermelha, não fortalece sua ação, e mascara a ausência de disposição em enfrentar a burocracia que o hegemoniza.

Ou seja, no âmbito sindical também aumenta a fragmentação de todos os setores à esquerda da burocracia do PT e da CUT, com uma série de rupturas em centrais sindicais minoritárias que se transformam em colaterais dos partidos políticos e não instrumentos de unificação da classe trabalhadora. Este processo de reorganização sindical, também frustrado, tem seu fim já não como tragédia e sim como farsa em 2010, com uma ruptura do CONCLAT. Se tratava de mais uma tentativa de unificação, desta vez ao menos no terreno do movimento sindical e popular. Foi um Congresso com mais de 5 mil pessoas que foi organizado para tentar unificar as pequenas centrais sindicais ligadas ao PSTU, ao PSOL com o MTST. O Congresso de unificação surpreendentemente explode no final, ao redor da divergência do nome da central sindical, expressando uma disputa mesquinha de aparatos, por fora das necessidades da vanguarda e das massas.

O levantamento de junho de 2013 e do movimento operário como novas oportunidades perdidas pela esquerda

As tentativas fracassadas de construir organizações de maior peso à esquerda do PT e da CUT, seja no patamar político (partido) ou sindical e dos movimentos sociais, desmoralizavam setores de vanguarda, aumentava a dispersão e isolamento em relação aos setores de massa que não haviam rompido com o PT e a CUT.

Aquele processo de lutas e experiência com o PT é contido com um ciclo de crescimento econômico internacional, que Lula soube aproveitar muito bem para superar a crise política e fazer um governo que fizesse planos de assistência social e medidas compensatórias e distributivas de renda. Isso permitiu ao PT ganhar base nas camadas mais pobres da população, inclusive algumas que historicamente eram conservadoras, num fenômeno que convencionou-se chamar de lulismo, que representava uma mudança da composição social da base petista, como foi apontando pelo intelectual petista André Singer. O governo Lula se fortaleceu, gerou uma estabilidade reformista e uma importante ilusão de ascensão social.

Neste período, o PSOL se desenvolveu com uma linha cada vez mais adaptada ao PT e à CUT, ainda que se mantinha nas eleições presidenciais apresentando candidatura independente nos primeiros turnos, mas por fora de uma estratégia de construir verdadeiras correntes militantes nos locais de trabalho e estudo, buscando meramente ocupar espaços eleitorais, que foram ficando cada vez menores, com a exceção parcial do Rio de Janeiro. Como as demais experiências de partidos amplos pelo mundo, não levava à frente uma política de independência de classes. Por sua vez, o PSTU vai se consolidando como um grupo que atua somente na esfera de lutas sindicais, cada vez mais autocentrado, menor e imerso em crises internas.

Os elementos que apontamos acima são parte dos fatores que levaram a que a esquerda não chegasse bem preparada para aproveitar o fim do período de crescimento econômico, quando se chocaram as ilusões alimentadas pelo PT de ascensão social com a realidade, que gerou processos de luta de classes.

O levantamento de junho é precedido por fenômenos antiburocráticos de novo tipo no movimento operário, com os operários da construção civil se rebelando contra as condições de trabalho ultra precárias que o governo petista reproduzia nas obras do PAC do governo Dilma. Jirau, Santo Antônio e diversas outras em 2012 e 2013 revelavam um processo de recomposição da luta de classes, de forma espontânea e antiburocrática. Recomeça o ciclo de experiência com o governo do PT, desta vez no terreno da luta de classes em setores onde o PT não tinha peso de direção e por fora da própria esquerda.

O significado e caráter de junho de 2013 exigiria uma reflexão à parte. Nos limitaremos a abordar os aspectos que são cruciais para a reflexão sobre como a esquerda que se reivindica socialista atua frente a Lula, o PT e aos processos de reorganização e luta de classes. Junho é uma explosão espontânea da juventude dos grandes centros urbanos, antes de ser canalizado pela direita, que buscou desviar com a bandeira da corrupção e transformar em um movimento antipetista. Se tratava de uma juventude reivindicando serviços públicos de qualidade. Era um levantamento complexo, desigual em conteúdo nacionalmente e confuso, como são os primeiros ensaios do movimento de massas [2].

Enquanto o PT, junto aos demais governos estaduais, reprimia os movimentos e com isso fortalecia setores de direita, a esquerda se negava a batalhar pela auto-organização, a se conectar com os setores mais combativos e atuar a partir das estruturas do movimento operário e estudantil. Ao contrário de ganhar autoridade diante da vanguarda, o PSOL e PSTU desperdiçam mais aquela oportunidade de canalizar o processo de rupturas com o PT pela esquerda, se adaptando à burocracia sindical (e estudantil) do PT que se esforçou para controlar o processo.

Junho libera novas forças do movimento operário e dos movimentos sociais. Até 2014 são diversos processos de luta, do movimento sem teto, negros, mulheres e LGBT, com destaque para uma onda de greves operárias dos serviços estratégicos nas grandes capitais, que davam continuidade às revoltas operárias antiburocráticas da construção civil. Os garis do Rio de Janeiro foram o processo mais avançado, mas a onda perpassou rodoviários, garis e outras categorias em várias grandes cidades. Novamente, as greves operárias eram fundamentalmente antiburocráticas e sem um papel da esquerda em desenvolver, coordenar e canalizar aqueles processos.

É fruto do papel do PT reprimindo junho de 2013 e das batalhas não dadas pela esquerda nas oportunidades que se abriram, que a direita consegue a partir de 2015 canalizar a insatisfação de amplos setores sociais, iniciando um movimento que vai dar lugar ao golpe institucional, levando a que o processo de rupturas com o PT se desenvolvesse pela direita e não mais pela esquerda. Mas esse não era um caminho que estava traçado de antemão, como pretende Marilena Chauí e intelectuais petistas com sua interpretação de junho como a “origem do fascismo”, mas foi construído pela atuação do PT.

A luta contra o golpe institucional e a prisão do Lula, mais uma prova que a esquerda não passou

A luta contra o golpe foi mais um divisor de águas na esquerda brasileira. O PT não levou à frente uma luta de resistência efetiva contra o golpe e as medidas econômicas que derivaram deste. Apostou na estratégia parlamentar contra o impeachment. Na estratégia jurídica para evitar a proscrição eleitoral e depois a prisão de Lula. Enquanto era promotor da paralisia das centrais sindicais e das direções do movimento de massas, sendo este um componente fundamental na desmoralização que advém da reforma da previdência e trabalhista.

Mas a esquerda, que poderia ter sido alternativa também aí, não foi. Foi na luta contra o golpe que vimos o corolário da deriva estratégica da esquerda. A tradição trotskista no Brasil pagou um preço alto pela existência de correntes referenciadas no argentino Nahuel Moreno, o PSTU e a CST-PSOL especialmente, mas também o MES-PSOL, se adaptaram em distintos níveis ao golpismo. Apesar de que era claramente uma ofensiva imperialista orquestrada pela Lava Jato e Sérgio Moro, e que a demanda “anti-corrupção” era claramente parte do desvio de junho pelas forças de direita, estas correntes de conjunto capitularam a essa ofensiva e chegavam a ver elementos progressistas nas manifestações reacionárias desde 2015. Um desbarranque que tem bases teóricas profundas que já desenvolvemos em outras polêmicas. São correntes que cederam às pressões da direita, ao anti-petismo e que se negaram a escutar nossos alertas sobre o básico: que não era progressista a queda do PT se esta se desse por forças reacionárias.

O MES conseguiu se salvar da explosão que as demais correntes sofreram porque percebeu à tempo que era necessário definir como um “golpe parlamentar”, ainda que manteve toda sua perspectiva lavajatista e segue sua política de um parlamentarismo tão adaptado que apoiava Baleia Rossi na disputa da Câmara, e abandonando princípios elementares ao chamar voto em Biden nas eleições dos EUA.

Por outro lado, estava a maioria do PSOL com uma linha de adaptação ao PT e buscando atuar somente pelas vias eleitorais como estratégia, arrastando atrás de sua política o PCB e a UP. O PCO se dilui diretamente no petismo. Este campo partia da política correta de colocar em primeiro plano a luta contra a ofensiva golpista, tendo uma “bússola” elementar da política, mas aprofundaram sua adaptação às direções burocráticas do PT no patamar político e sindical, sem conformar um polo independente.

Nós do MRT travamos uma forte batalha contra o golpe e a prisão do Lula, mas sempre de forma independente do PT, buscando abrir caminho na esquerda para uma política antimperialista e de independência de classe. Mas este campo ficou restrito a poucos setores, porque a esquerda se dividiu em dois campos, petistas e golpistas, que não podiam dar resposta à situação. Com isso, abriram espaço para que crescessem na juventude variantes stalinistas como o PCB e a UP, fragmentando a esquerda ainda mais e ao redor de alternativas profundamente equivocadas.

O retorno de Lula à política

Lula fez questão de levar ao seu palco no Sindicato dos Metalúrgicos todos os representantes da esquerda que ele considera que pode colocar sob sua hegemonia. Guilherme Boulos e outros representantes de todas as alas pró-petistas do PSOL. Antônio Carlos representando o PCO. Lula acena para a esquerda no simbólico, mas no conteúdo faz um discurso que busca agradar todos os espectros políticos, inclusive os mais golpistas, como os militares e o STF. Todos aceitaram estar no palco onde Lula se apresentava como o conciliador, saudado e afagado pela Globo e um amplo espectro de golpistas.

Lula conseguiu pautar o país inteiro, mas não propondo qualquer resposta e ação frente a grave crise sanitária, econômica, política e social em curso, e sim com as eleições de 2022. Resta ver em que medida os cálculos dos setores do regime do golpe de liberarem Lula como fator de contenção será exitoso. Da parte das direções petistas, vão seguir a linha de permitir que Bolsonaro, os governadores, o STF, o parlamento e todos os golpistas sigam descarregando a crise nas costas da população, que está pagando com muitas mortes, visando capitalizar numa vitória eleitoral em 2022.

O desafio dos marxistas revolucionários

É necessário que todos os setores que se colocam pela esquerda do PT se unifiquem na luta de classes, para dar uma resposta à crise em curso, exigindo do PT, da CUT e das direções do movimento de massas que saiam da paralisia, como tarefa mais urgente. Devemos exigir já um plano de luta para anular as reformas econômicas do golpismo e impedir a naturalização destes ataques que Lula e o PT sinalizam aceitar. Lamentavelmente, importantes setores da esquerda se adaptam à linha do PT de canalizar tudo para as eleições de 2022.

Do ponto de vista político, resgatamos aqui algumas lições da experiência dos últimos anos com o PT para estimular uma conclusão na esquerda de que é necessário superar essa permanente adaptação e batalhar por uma política de independência de classe e Frente Única Operária e não entrar na perspectiva de conciliação de classes que o PT quer organizar para 2022. Seguir os erros do passado custará caro e se prolongarão novos anos de uma esquerda socialista fragmentada e sem enraizamento social.

A Frente Única Operária, uma unidade de fato muito maior e mais potente do que qualquer aliança eleitoral para barrar os ataques e a ofensiva da direita, dos capitalistas e do imperialismo. Trata-se de unificar, por objetivos práticos de ação, os trabalhadores e seus aliados oprimidos no terreno da luta de classes, contra o conjunto dos capitalistas e seu regime. Para isso, é preciso exigir de cada sindicato e das centrais, a começar da CUT e CTB, que rompam com sua política de conciliação e tomem medidas para a organização dos trabalhadores em cada local de trabalho.

Nós do MRT estamos em meio à preparação de nosso IV Congresso, onde estamos debatendo quais são as tarefas fundamentais dos marxistas revolucionários em meio a essa situação nacional e internacional, o que socializaremos aos leitores em uma série de artigos. Aqui nos limitaremos a fazer alguns apontamentos a modo de conclusão, fundamentalmente relacionados à necessidade de resgatar a tradição leninista de construção de verdadeiros partidos revolucionários de combate, que se enfrentem com as burocracias sindicais e políticas, impulsionem a auto-organização, através de um “partido de tribunos do povo”.

Se pensamos o Brasil historicamente em toda a fase imperialista, de crises, guerras e revoluções, é possível verificar que a classe trabalhadora brasileira tem um potencial superior à de outros países quando se trata de construir grandes partidos operários de massas, ainda que nunca um verdadeiro partido revolucionário. Fundado em 1922, já na década de 1930 o PCB ganha peso em setores de massas e no proletariado organizado. Destroçado após o “putsch” derrotado de 1935, pela ditadura varguista e o sindicalismo atrelado a ela, o PCB volta a se reconstruir a partir de 1942 partindo de 100 militantes nesse ano, após o giro pró-ianque de Getúlio Vargas, chegando a ter no período que se abre com o fim da Segunda Guerra Mundial um verdadeiro peso de massas com dezenas de milhares de militantes, uma imprensa de massas e elege dezenas de parlamentares para a Constituinte de 1946 e as assembleias regionais. Um novo governo bonapartista de direita sob o General Dutra coloca-o na ilegalidade em 1947 e o desmantela quase completamente. No calor do ascenso de 1960 a 1964, o PCB volta a ter entre 30 a 50 mil militantes e é liquidado com o golpe contrarrevolucionário de 1964.

Já no fim dos anos 1970, antes mesmo da fundação da CUT, a classe operária brasileira reconstrói um novo partido operário reformista de massas, o PT. Até o recente golpe institucional, diferentemente do PCB, o PT não era um partido atacado pelo regime brasileiro com métodos bonapartistas mais duros, mas com os métodos da cooptação e do transformismo. Depois de pela primeira vez lançar mão de uma escalada bonapartista contra o PT, o regime político e a burguesia querem voltar a ter o PT como parte do regime pela via da cooptação e como pilar de estabilidade desse degradado regime golpista.

É necessário construir um partido socialista e revolucionário que não se adapte a essa perspectiva, pois vai preparar novas ofensivas da direita e novas derrotas. Construamos um partido para a luta de classes, com uma política e estratégia de independência de classe e que seja um impulsionador da auto-organização, questão que sempre foi um ausente na esquerda brasileira, diferentemente de outras tradições.

A auto-organização é o que os fenômenos recentes mais avançados do movimento operário como da construção civil, garis e rodoviários fizeram, e que permitiu superar as burocracias sindicais e políticas. Apesar de que sempre o PCB e o PT (e infelizmente toda a esquerda) se negaram a impulsionar a auto-organização e batalharam para sufocá-la sempre que puderam, em todos os processos de ascenso ao longo do século XX surgiram embriões deste tipo, o que faltou foi um partido revolucionário que pudesse desenvolvê-los. Não somente o movimento operário, mas todos os movimentos adquirem outra potência quando se auto-organizam, e precisamos de um partido que não canalize tudo pela via institucional como faz a esquerda e sim para a construção dos organismos capazes de ser os embriões preparatórios da tomada do poder e de um novo poder operário.

A combinação dessa atuação na luta de classes como “escolas de guerra” e através de uma política revolucionária como um “partido de tribunos do povo”, organizados ao redor de um jornal leninista como pretendemos com o Esquerda Diário, é parte do que nós do MRT queremos colaborar na apaixonante tarefa de construção de um partido revolucionário no Brasil, que não será fruto de um desenvolvimento evolutivo do MRT mas de um processo muito superior de rupturas e fusões que vai se dar quando houverem as explosões sociais e um enfrentamento em maior escala com o PT. É para isso que é preciso preparar “sólidos quadros revolucionários” e uma organização enraizada com frações no movimento operário e popular, pois como diz Trótski, não é possível construir isso da noite para o dia em meio ao ascenso. Mas estes são pontos que desenvolveremos em novas elaborações aqui no Ideias de Esquerda.

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FOOTNOTES

[1Leon Trótski, Classe, partido e direção, disponível em <https://www.marxists.org/portugues/...> .

[2Para uma reflexão sobre processos deste tipo e como deve ser a intervenção dos revolucionários, leia o Prefácio à edição brasileira do livro Estratégia Socialista e Arte Militar, disponível em <https://www.esquerdadiario.com.br/E...> .
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