Internacional

IMIGRAÇÃO EUROPA

O disfarce reacionário da crise europeia: “é culpa dos imigrantes”

André Augusto

Natal | @AcierAndy

domingo 1º de julho| Edição do dia

O virtual desmoronamento do núcleo de partidos do establishment político europeu, agora na Itália e com a novidade da decadência da chanceler Angela Merkel na Alemanha, mostra a profundidade dos problemas abertos pela Grande Recessão de 2008, que subordina qualquer recuperação econômica parcial como em 2017. Uma espécie de “equilíbrio” foi rompido no velho eixo do “extremo centro” do consenso neoliberal, que andava pendularmente entre socialdemocratas e conservadores, duas caras da mesma política. Esse equilíbrio não pode ser recomposto por fora dos resultados de grandes processos da luta de classes.

A péssima performance de Merkel nas eleições alemãs foi seguida pelas seguidas humilhações sofridas nas mãos de Donald Trump: a saída dos EUA do acordo com o Irã, a renúncia de Trump à cúpula do G7 e mais recentemente a ameaça de tarifas por parte dos Estados Unidos sobre as exportações de automóveis alemães, coração da sua indústria. Mantendo-se debilmente, a estabilidade do principal governo imperialista europeu já é coisa do passado, mandando ondas de choque a todo o continente. Na Itália, o Partido Socialista e a formação de Berlusconi, Forza Italia, foram postas de lado por organizações xenófobas eurocéticas (Liga e 5 Estrelas).

Com formações sócio-econômicas desiguais no “Oriente-Ocidente” europeu, a crise de autoridade estatal ganha o terreno ocidental do continente. Nesse cenário de crise política e de ressurgimento dos nacionalismos reacionários, os governos europeus se uniram para montar o disfarce dessa enorme crise: os imigrantes.

Centros de detenção dentro e fora da Europa

A reunião do Conselho Europeu em Bruxelas, dirigido por uma opaca e pressionada Merkel, teve como centro a chamada “crise migratória”, e resultou em uma série de medidas reacionárias contra os imigrantes da África e do Oriente Médio. A questão é que a questão migratória sacode a agenda europeia no momento de menor afluxo de imigrantes desde 2015: naquele ano, entraram na Europa mais de 1 milhão de imigrantes (segundos dados da ACNUR), pela guerra civil na Síria e as inúmeras intervenções imperialistas na África; no primeiro semestre de 2018, são apenas 43.000, segundo a mesma agência da ONU.


Gráfico do El País

O acordo estabelece a criação de “centros de controle” no interior da União Europeia para concentrar os imigrantes que tiverem a sorte de desembarcar na Europa, passando pelas agruras do Mar Mediterrâneo e pela repressão da polícia costeira. Nestes centros de detenção de imigrantes serão separados “os possíveis refugiados dos imigrantes econômicos”. Estes últimos deverão ser “devolvidos a seus países de origem”, segundo a resolução, ou “relocalizados nos países que oferecerem acolhimento”. É de se esperar que a histeria xenófoba que atinge diversos países europeus torne essa segunda opção o que ela foi até aqui: uma ilusão. Pedro Sánchez, o mal chamado líder “socialista” do Estado espanhol (com quem o Podemos implora por formar governo), já deixou claro que não aceitará imigrantes em seu território, copiando as posições da direita xenófoba em ascensão no continente.

Além da legalização dos cárceres de imigrantes que povoam países como Grécia, Itália e Estado espanhol (basta ver os horrores destes centros na ilha de Lesbos, em Lampedusa e outras ilhas do sul da Itália), outra das resoluções se refere às “plataformas de desembarque” fora da União Europeia. Ou seja, o imperialismo europeu incrementará seu poder de decisão sobre os países do norte da África como o Marrocos, Tunísia, Argélia e outros, para construir centros de detenção nesses mesmos países e incrementar o aparato repressivo no interior dos territórios do Magreb. Merkel nomeou sem maquiagens essa política dizendo que “Podemos falar sobre o desembarque de navios em outros países, por exemplo na África do Norte”.

Em síntese, a cúpula dos governos europeus aprofunda sua tradicional política xenófoba em aliança com o discurso encabeçado pela extrema-direita. Alemanha, França, Estado espanhol, Inglaterra, sempre tiveram como eixo de sua política a superexploração dos trabalhadores imigrantes em suas fronteiras e nos territórios estrangeiros, combinado com a xenofobia e a separação das fileiras operárias através do “ódio ao imigrante”. Entretanto, para não perderem mais espaço para alas de extrema-direita que prosperam não apenas na Hungria e na Polônia, mas ganham peso na Alemanha e no ocidente europeu, agitam com menos freios os mesmos fantasmas que partidos como “Alternativa para a Alemanha”, a Frente Nacional francesa e a Liga italiana.

O sociólogo italiano Pietro Basso, em entrevista para o Esquerda Diário, dizia que “as emigrações, sejam causadas por fatores econômicos, políticos, militares, culturais ou mesmo por uma mistura desses fatores, são sempre emigrações forçadas. Ninguém deixa "voluntariamente", alegremente, seu lugar de nascimento.”. As guerras e as guerras civis em curso na ampla faixa que vai desde a Líbia ao Afeganistão e da Costa do Marfim ao Chifre da África têm alcançado uma intensidade devastadora.

As disputas entre as velhas potências coloniais e os novos atores regionais para manter o domínio dessas áreas, as guerras promovidas pelo imperialismo europeu e estadunidense no Oriente Médio, são os responsáveis pelos fluxos de imigrantes que hoje são encarcerados na Europa, ou jogados de volta aos países famintos e destruídos pelos governos europeus.

Os Estados Unidos de Trump são o símbolo dos horrores que o imperialismo pode conduzir a vida de milhões: depois do governo que mais deportou imigrantes na história do país (Barack Obama), Trump separa as famílias de imigrantes latinos, prendendo crianças em centros de detenção, sem abandonar a ideia de impedir a entrada de muçulmanos nos EUA.

Nem os nacionalismos reacionários, nem os “globalistas liberais” imperialistas como Macron, são saída para este problema, que toca a constituição da própria classe operária mundial no século XXI (muito mais internacionalizada, com múltiplas origens nacionais).

O internacionalismo operário é condição fundamental para erguer uma esquerda revolucionária forte na Europa, que supere as ilusões do neorreformismo europeu como de Mélénchon na França, do Podemos no Estado espanhol, ou do Syriza que encarcera africanos na Grécia.

Trata-se de um internacionalismo proletário concreto do qual depende o desenvolvimento de um movimento operário revolucionário em nosso século.




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