Educação

15M E MOVIMENTO ESTUDANTIL

O desafio histórico do movimento estudantil depois do 15M

As mobilizações deste 15 de maio tomaram uma dimensão que não se via desde, talvez, junho de 2013. Em Dallas, Bolsonaro reagiu dobrando a aposta, ao chamar as centenas de milhares de manifestantes de “idiotas úteis”. Os desafios são enormes, mas frente às inúmeras divisões do governo Bolsonaro, agora podemos vislumbrar um caminho para triunfar.

Thiago Flamé

São Paulo

Odete Cristina

estudante de ciências sociais na USP

quinta-feira 16 de maio| Edição do dia

O governo Bolsonaro, antes mesmo da batalha decisiva da Reforma da Previdência, vinha abrindo várias frentes de combate no interior mesmo do bloco que lhe apoia. Todo o chamado período de “lua de mel” foi utilizado pelo capitão reformado para tentar conquistar hegemonia dentro do próprio governo que preside, e terminar de consolidar uma base de massas própria. Esses movimentos mais de uma vez levaram toda a grande imprensa e até seus aliados mais próximos a reagirem com um misto de espanto e preocupação: centre na Reforma da Previdência, lhe diziam em uníssono.

Teimoso e dado a lances arriscados, como gosta de alardear, deu de ombros aos apelos e exortações. Antes mesmo de consolidar uma maioria congressual, sem sequer ter deixado curar as feridas dos duros embates com Maia, Bolsonaro foi abrindo mais frentes, primeiro com Moro e depois com os próprios militares. Utilizou a alta popularidade para tentar consolidar no governo a cruzada contra o “marxismo cultural”, seja lá o que isso signifique na boca dos bolsonaristas (já que não só o PT, mas até FHC, jornais como Folha e Estadão, a Globo e inclusive banqueiros, recebem o título de “comunistas”), mas os setores empresariais e das finanças que o apoiaram nas eleições estão preocupados em outra cruzada, a de elevar a taxa de exploração sobre a classe trabalhadora brasileira e maximizar os seus lucros. Esse discurso só cola para os setores mais retrógrados do campo, que veem FHC como um risco para a propriedade do campo e clamam pelo direito de armar até os dentes os seus jagunços. Mas até entre estes, a cruzada ideológica do bolsonarismo causa desconfiança, quando se traduz no plano externo num alinhamento automático com Trump e num esfriamento das relações com a China.

Se tivesse triunfado nas suas lutas intestinas a situação atual seria outra, mas Bolsonaro não obteve nem uma única vitória decisiva. Sua popularidade decaiu, a economia patina, até sua base mais dura começa a ficar inquieta com os rumos do país, mesmo apoiando o presidente. Ao invés de dar um passo atrás, um recuo pragmático, abriu mais uma frente, só que dessa vez com o movimento de massas: um ataque frontal contra a educação e as universidades. Talvez seu cálculo agora seja o de que polarizando de novo a sociedade consiga galvanizar todos os aliados que não conseguiu subordinar, e nesse enfrentamento contra os “maconheiros das universidades” recompor algo da sua base eleitoral.

O desafio do movimento estudantil

As manifestações deste 15 de maio, já esperadas, transbordaram todas as previsões e cálculos. O movimento estudantil, marchando lado a lado dos professores que também foram às ruas, deu uma mostra contundente de força. O grito entalado na garganta contra contra o avanço das forças obscurantistas pode ecoar com força. Toda uma revolta acumulada pode ganhar as ruas. A questão que se coloca é: podemos triunfar, derrotando os cortes e a Reforma da Previdência?

A juventude universitária e secundarista, que sentiu sua própria força neste 15M, está chamada a cumprir um grande papel histórico: encabeçar a oposição contra o governo Bolsonaro e contra toda a velhacaria da política burguesa, despertar atrás de si a insatisfação e a revolta das maiorias populares e opor ao projeto destrutivo de Bolsonaro e dos grandes empresários não um retorno aos tempos do lulismo, um tempo que não volta mais, de bonança econômica e um projeto de concitação de classes com a elites que hoje apoiam Bolsonaro, mas um projeto radicalmente oposto ao das elites.

Não podemos dar de barato que a força do setor da educação, por si mesma, basta para derrotar o governo Bolsonaro. Não podemos cair no conto de que as composições e negociatas com Maia e com toda a escória parlamentar, vão ser decisivas para nosso triunfo. O que estes senhores nos derem com uma mão, vão tirar com a outra ao mesmo tempo. A Reforma da Previdência vai se revelar um ataque tão duro contra a educação quantos os cortes impostos agora. Tudo o que estão cortando e os ataques às aposentadorias servem para seguir pagando a dívida pública, que todos os governos anteriores pagaram também. As direções da UNE, da CUT e da CTB – PT e PCdoB – vão agora lutar para manter o movimento da educação dentro “do seu próprio quadrado”, lutando somente em defesa da educação, e levar a um embate parcial contra Bolsonaro, enquanto negociam pelas nossas costas com Maia os termos da Reforma da Previdência. Nesse jogo o PSOL poderia cumprir um papel importante para o movimento, se mudasse sua política de separar as duas pautas, o que até agora não parece querer fazer.

É a unidade do movimento estudantil que começou a se levantar, junto com todos os setores da classe trabalhadora e do povo oprimido que estão fora das universidades, o caminho que pode nos levar ao triunfo contra as forças do obscurantismo e da reação. Mas antes que os estudantes brasileiros possam repetir a célebre frase dos estudantes franceses de 1968 “trabalhadores, tomem de nossas frágeis mãos nossas bandeiras de luta”, é preciso calibrar melhor os dizeres das nossas bandeiras.

Sem virar as costas para as entidades, exigindo que o próximo dia 30 convocado pela UNE se transforme em um dia de greve geral: não podemos esperar até 14 de junho para unificar as lutas.

A luta em defesa da educação precisa ser articulada com bandeiras que defendam os interesses de toda a população. O primeiro passo, mais elementar, deveria ser transformar numa bandeira da juventude a luta contra a Reforma da Previdência e abrir um caminho de diálogo com as maiorias populares: quem vai pagar o custo da crise econômica? Que sejam eles, os ricos e as elites que comandam o país. Esse é o chamado que a juventude marxista Faísca - Anticapitalista e Revolucionária, faz a todos os estudantes. Temos que falar para a juventude que não concluiu seus estudos, que sofre com o desemprego, a miséria e trabalhos precários, que atacam a educação e a aposentadoria para beneficiar um punhado de banqueiros que controlam a dívida pública. Temos que falar com a maioria da classe trabalhadora, que vê seu nível de vida decair a cada mês. Se o movimento estudantil abre esse caminho, se é capaz de ser e também aparecer como o maior defensor dos interesses da maioria, se é capaz de tirar ao menos uma parcela dessa maioria da passividade e de arrastá-la para uma luta comum, aí sim, Bolsonaro terá que se enfrentar contra um verdeiro tsunami.




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