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O capital de Marx: o que ele tem a nos dizer sobre o mundo de hoje? (Segunda Parte)

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 8 de fevereiro de 2016| Edição do dia

Na primeira parte deste artigo, analisamos algumas ideias-força de O capital que são hoje de total vigência. Continuemos.

Há outra ideia de O capital, de Marx, que hoje é ainda mais real ou mais chocante que no seu tempo. A ideia de que a tecnologia e a ciência não promovem a emancipação social se são dirigidas pelo capital; no capitalismo são condicionadas, desviadas, elitizadas, estão a serviço da dinheirama e não da genuína demanda social. A tecnologia alcançou patamares de ficção científica.

E com certeza muita gente continua acreditando que quanto mais progresso científico e técnico, mais a sociedade estará no conforto, no bem-estar, na felicidade e no desfrute geral daquele progresso. Só que evidentemente não é assim: os trabalhadores sabem que não.

Primeiro, que cada passo adiante na ciência e no seu uso público vem acompanhado de retrocessos, seja na poluição dos ares e águas, seja na devastação ambiental e da qualidade de vida [veja-se a qualidade de vida nas grandes metrópoles]. Múltiplos avanços na técnica permitem qualidade de vida, mas há que levar em conta os efeitos indesejáveis dessa mesma técnica [pense no sistema de transporte urbano, nas chaminés de fábricas etc], e também há a ampla exclusão. Há medicina de rico e de pobre: as grandes massas não desfrutam de cada avanço, estão sempre detrás, vários passos atrás daquilo que a técnica permite. As melhores técnicas de ensino não estão ao alcance das grandes massas pobres, por exemplo, basta ir numa escola de periferia e checar.

Em resumo, além de que a classe trabalhadora não desfruta dos melhores níveis de tecnologia muito menos é informada ou pode decidir sobre como impedir seus efeitos ambientalmente indesejáveis e muito menos podem escolher que tecnologia desejam [por exemplo, aparelhos de diagnóstico pelo calor são mais saudáveis do que aqueles que usam radiações ionizantes, mas dão menos lucro, daí não são desenvolvidos e disponibilizados].

Marx estava certo então: tecnologia e ciência nas mãos do capital não levam o mundo para um bom futuro.

Outra ideia muito forte e que é a perspectiva apontada pelo O capital é a de que os expropriadores devem ser expropriados. Os donos de fábricas, grandes empresas e bancos devem ser confiscados e essas firmas devem ser controladas pelos seus trabalhadores. Caso contrário o capitalismo, que nasceu espirrando sangue por todo lado, continuará massacrando e excluindo, fundado na exploração e na consequente exclusão social maciça.

As forças produtivas argumentava Marx, devem ser controladas pelos trabalhadores: se as fábricas continuarem nas mãos da patronal burguesa, esta nunca vai deixar de oferecer um emprego escravo, vai continuar pegando a parte do leão da riqueza produzida pelo empregado, e sujando e pondo em risco o planeta. Era a verdade para Marx e é a evidência do mundo de hoje. Se os expropriadores [os capitalistas] não forem expropriados, iremos para mais destruição de forças produtivas e mais devastação. Nisso estamos.

O desemprego era outra teoria essencial desenvolvida por Marx. E neste item ele chegou à conclusão de que o capitalismo não tem a menor chance de resolver o desemprego, não importa o governo ou as intenções de qualquer governo nos marcos do sistema.

É o que vemos: com crise ou sem crise, o exército industrial de desempregados é enorme e se na bonança ele é ligeiramente atenuado, na crise – é o que se vê agora no Brasil – ele volta com força total. Na Europa, na Inglaterra, o desemprego é de milhões, afora o sub-emprego e a exclusão social. Se os trabalhadores não tomarem a economia em suas mãos o desemprego não desaparece. E Trotski acrescenta: defendamos, nas nossas lutas, que trabalhem todos para que todos trabalhem menos horas; escala móvel de horas de trabalho. Mas aqui já estamos no campo das medidas proletárias para salvar a economia das mãos sujas do capitalismo.

Outra ideia de Marx é a de que o capitalismo tende à degeneração, à decomposição [sendo que somente pode ser derrubado se a classe trabalhadora levantar a força política que realize essa tarefa, através da revolução socialista, proletária].

Justamente, o que se vê de Marx para cá são as forças destrutivas do próprio sistema em franco desenvolvimento, cada vez mais em marcha acelerada. Dezenas e dezenas de milhões tiveram suas vidas ceifadas só nas guerras do século XX. A narco-economia, e agora os narco-Estados, a precarização do mundo do trabalho, a brutal poluição e queda da qualidade de vida nas cidades, as epidemias [do câncer às epidemias virais e tropicais etc], a epidemia de depressão, de obesidade, de corrupção, de violência urbana e rural, a tragédia dos migrantes na Europa, México, de acidentes do trabalho, de degradação das democracias e assim por diante e, finalmente, o risco de destruição da vida humana no planeta, são indicações de que o capitalismo vive em regime de decadência. E não - como diziam os contemporâneos de Marx e mesmo alguns intelectuais depois dele -, na condição de um sistema que evolui para o equilíbrio, para algum sossego ou progresso social e paz em patamares cada vez superiores. Em vez deste futuro, o que vem ocorrendo e segue em desenvolvimento é o que Marx imaginava: mais guerras, mais exclusão e um sistema, historicamente, em colapso econômico.

As crises econômicas como imanentes ao capitalismo, eis outra ideia forte de Marx: as crises não são acidentais, não são apenas “dores do parto” ou surtos febris que retornam aqui e ali, mas tendem a se agravar, e as contradições que as alimentam tendem a se acentuar e, com isso, se chega ao desenvolvimento, de crises catastróficas, de destruição de forças produtivas. E guerras.

Justamente a cada geração depois de O capital, sobretudo na I Guerra, com a conformação do imperialismo, grandes guerras tomaram forma e grandes crises de recessão econômica e depressão profunda também; nelas a economia mergulha na inflação, na estagnação, com travamento, convulsões, até que a burguesia consiga relação de forças políticas, para desfechar ataques sérios contra as conquistas sociais e trabalhistas [como faz o governo no Brasil neste momento] para garantir os privilégios dos ricos e, em seguida, com os ricos agora mais ricos, seguir funcionando.

Capitalismo é crise recorrente. Isso é Marx. Na era do capitalismo maduro, que veio depois de Marx, o sistema abriu suas entranhas com graves crises [de graves impactos sociais] e guerras de poder de destruição sem precedentes [como a I e a II Guerra e outras] e essa era também se mostrou – acompanhando as ideias de Marx – grávida de revoluções e tivemos o triunfo da primeira revolução proletária, na Rússia.

O capitalismo agrava seu perfil e sua tara como sistema da barbárie institucionalizada. Basta pensar em como vivem as massas pobres na Ásia, Oriente Médio, na devastadora crise dos migrantes na Europa, no México, nas doenças da pobreza no Brasil [como a cruel epidemia de microcefalia, de dengue, e assim por diante]. Pense em um mundo que adoece cada vez mais e possui hospital, prevenção e assistência médica cada vez menos.

Portanto pense nisso tudo e você estará pensando nas ideias-força de O capital.
As explicações de Marx sobre como funciona a sociedade capitalista seguem de pé

O capitalismo avançou para sua fase madura, imperialista, decadente, o que cobra de nós a leitura de um marxismo mais atual, como o de Lenin [que escreveu o O imperialismo fase superior do capitalismo] ou de Trotski, [líder da revolução ao lado de Lenin e que explicou porque a Revolução Russa foi traída; e foi o grande autor do século XX que deixou o legado da estratégia para a vanguarda operária por de pé novas revoluções sob a bandeira do internacionalismo], ou Rosa Luxemburgo, nossa contemporânea na crítica aos aparatos burocráticos auto-proclamados socialistas e ao reformismo.

Mas por trás do caos do capitalismo, da desigualdade e das crises, temos como base uma teoria que continua rondando tudo isso e oferece a base explicativa da crise do mundo moderno. E também aponta perspectiva de sua superação. Afinal de contas o marxismo, em uma versão curta, é a teoria da revolução proletária.

Ele passa longe da especulação ou da denúncia pela denúncia. O capital não foi escrito para economistas, foi feito para armar a vanguarda da classe trabalhadora para entender que o capitalismo só pode funcionar como uma máquina de escravidão mais ou menos disfarçada, e que se trata - se queremos um outro mundo -, com a nossa cara, de que temos que organizar politicamente o proletariado, como força independente, para por o velho mundo abaixo.

Em seus fundamentos, O capital segue atual. E os textos de Rosa Luxemburgo, de Lenin e de Trotski são a fonte inesgotável de inspiração para que possamos desenvolver as ideias-força de O capital em forma de revolução onde o proletariado moderno se levante para vencer.




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