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O Oscar para Parasita: desigualdade e classes aos olhos de Hollywood

segunda-feira 10 de fevereiro| Edição do dia

O Oscar para Parasita como melhor filme gerou um pequeno abalo sísmico na indústria cultural pelo que ele implica, é a primeira vez que um filme não falado em inglês ganha a estatueta nas 92 entregas que teve.

Se não fosse por essa notícia, talvez não haveria nada de interessante ao longo das intermináveis três horas e meia de transmissão de discursos entediantes, números musicais sem espírito e com a forçado politicamente correto que cresce a cada ano.

Parasita também levou a estatueta de melhor diretor, filme estrangeiro e melhor roteiro original. Assim, Bong Joon-ho se converteu no coreano que pôde fazer história” e não apenas conquistar aplausos da extremamente restrita Academia estadunidense. Tão zelosa de seu mercado que recém permitiu que esse filme fosse o primeiro estreado nos Estados Unidos… com legendas!

Tantas “primeiras vezes” da entorpecida academia de Hollywood respondem a um interesse de expansão, cujo objetivo seria converter os Oscars em “prêmios mundiais” já que passou o tempo em que o mercado estava assegurado. O próprio Bong disse em uma coletiva de imprensa posterior que pensa que “o streaming e as redes acostumaram o público a ver conteúdo em outros idiomas”.

Porém, Parasita chega também por mérito próprio, para além da clássica lógica infladora que geram os prêmios do sistema de festivais “classe A”, onde se compra e vende prestígio artístico. A crítica mundial o aclamou desde que ganhou a Palma de Ouro em Cannes e gerou impacto genuíno no debate mundial sobre cinema.

Um de seus méritos é que expõe a desigualdade social, um tema que percorre a produção artística e se impôs nas ruas como na rebelião do Chile e na greve geral na França.

O filme faz isso com um roteiro que avança de nível por caminhos imprevisíveis, que surpreendem e fazem sentir a falta de estabilidade em que se apoia a vida precária de seus protagonistas. Com humor ácido. Nenhum herói é puro. Nenhuma classe está rodeada de uma aura de redenção. Como todo filme de pobres e ricos, trabalhadores e patrões, Parasita é também um filme sobre a luta de classes, mas também é sobre a falta de consciência de classe, sobre a anti-solidariedade dos que sofrem, sobre a competição humana no mercado capitalista. É um filme sobre o que o capitalismo faz da luta sem consciência, uma mera luta de subsistência onde se reconhece o inimigo mas se compete com o igual. E os que ganham são os ricos.

Quem são os parasitas em seu filme? , perguntaram a Bong Joon-ho:
Para mim, os ricos e os pobres são ambos parasitas, mas os ricos são mais parasitas ainda, visto que não sabem dirigir, não sabem fazer nada e sugam os esforços dos pobres.

A brecha entre ricos e pobres se tornou tema central no cinema industrial de 2019 e os festivais deram-se conta disso, por isso a visão coreana não esteve só neste domingo e os Estados Unidos também a abordaram com Coringa de Todd Philips. O outro favorito que dessa vez caiu em desgraça, mas foi um sucesso de público não apenas por causa da força bruta de distribuição da Warner Bros.

Com um tratamento completamente distinto, compartilha com Parasita essa ausência de consciência, mas muito ao estilo americano. Coringa expressa a luta contra a desigualdade desde um aspecto inquietante, desperta a empatia com um personagem desequilibrado, com o ponto favorável de que se faz sentir legítima a violência frente a um sistema que enlouquece, mas onde a revolta que acompanha é puramente irracional, emocional e explosiva. É a rebelião dos fracassados do sistema que assombra como um fantasma aos ricos inescrupulosos. Coringa têm uma narrativa similar aos retratos da “multidão” que se faziam ao final do século XIX, onde a massa é mais irracional que o sistema a que se opõe. Aleijado da complexidade de Bong Joon-ho, as sensações da indústria cultural estadunidense se parecem com as que teve a primeira dama chilena Cecilia Morel Montes, esposa de Sebastián Piñera, que disse que os protestos em seu país pareciam “como uma invasão alienígena”.

Para além das próprias intenções de Bong Joon-ho e Todd Philips, pode-se dizer que o sistema de filtros mais ou menos automáticos e ultra fechados da indústria norte-americana “permite-se ir até aí”. Também pode-se dizer que Hollywood apenas sente como o Partido Democrata. Ou propor avaliar a premiação como “uma expressão de desejo” inconsciente, logo em momentos em que em muitas ruas do mundo a multidão se livra da falta de consciência de classe, como demonstram os slogans e as vozes dos jovens chilenos, dos coletes amarelos e dos grevistas franceses.

Também acontece que o espírito nascente de uma época joga uma mala pesada sobre a indústria, caso o disfarce de Coringa aparece real nas manifestações do mundo, ou se com Parasite prevalecem “leituras pela esquerda”. A indústria joga um efeito de cascata que nem sempre tem porque ter os resultados desejados.

Sobre isso, vale lembrar que outro filme que abordou o tema da desigualdade e das classes e que não deveria passar despercebido, foi o brasileiro Bacurau de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, também nomeado ao Palmo de Ouro. Um filme a altura do roteiro de Parasita e da violência de Coringa. A história é complexa, uma mistura de estilos, ficção científica e western, um pouco de gore, com o cinema de Glauber Rocha e mitos do Brasil, humor ácido...Como Parasita, mostra que os gêneros vivem livres e se combinam melhor quanto mais se distanciam dos EUA. Porém, aborda a luta de classes e a violência desde uma forte heresia: há uma solidariedade não isenta de ter tensões em um povo que luta com a memória.

Bacurau é um povoado no nordeste do Brasil, a história transcorre em um futuro que parece familiar, onde a tecnologia de ponta se combina com o atraso econômico e social, e a água doce é um recurso privatizado. De cara, seus habitantes se descobrem apagados do mapa do Google. Nesse contexto de apagão digital, aparecem uns ianques que matam sul-americanos por diversão, enquanto políticos locais parecem mais próximos dos interesses estrangeiros do que da defesa de seus compatriotas. A coisa se agrava e é de entender que a indústria (em especial a estadunidense) não goste que uns nativos com ideias se organizem e se atrevam a cortar suas cabeças.




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