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PARIS

Nove de abril: importante jornada de mobilizações contra Hollande

Poderia-se parabenizar os meios de comunicação por invisibilizar uma mobilização que o governo e a patronal tentaram ignorar durante todo o dia. Na televisão, na radio e na imprensa se falou do cyber-ataque contra a França 24, as diferenças entre pai e filha no interior da Frente Nacional e podia-se inclusive ver o chefe do sindicato patronal, Pierre Gattaz, insolente como sempre, mentindo ao dizer que em sua própria empresa, a Raddial, não tinha acontecido greve. Le Monde, cada vez mais subordinado ao governo, comentou abruptamente, ao final do dia, que a jornada de 9 e abril foi “uma bela manifestação e uma greve invisível”.

sábado 11 de abril de 2015| Edição do dia

Imagem: EFE

O Estado e a mobilização

Desgraçadamente, para os meios e para o governo que falavam de uma greve “invisível”, neste 9 de abril a Rádio França continuava transmitindo música ao invés de sua programação habitual devido à greve que já chega nos seus 22 dias e que abriu a manifestação em Paris. No que tange ao transporte aéreo, quase metade dos voos foram cancelados. Por acaso se trataria de alguns elementos de resistência no país, assim como um raio no céu azul? É o que os meios de comunicação tentaram nos fazer crer. Mas o que se colocou nesse 9 de abril foi o oposto ao que quiseram transmitir a mídia, a patronal e o governo: foi uma primeira jornada de mobilização contra Hollande e sua política, simbolizada pela lei do ministro-banqueiro Macron, como um plano de fundo de descontentamento e de greves no setor privado e público.

Independentemente do debate recorrente sobre o número de manifestantes, uma coisa é clara: mais pessoas se mobilizaram desta vez que em jornadas anteriores como a de 18 de março de 2014, ou a de 10 de setembro de 2013. A CGT contabilizou 120.000 pessoas em Paris e manifestações importantes nas cidades como Marsella (45.000 segundo os sindicatos e... 7.000 de acordo com a policia), Toulouse (8.000 segundo os sindicatos e a metade segundo a polícia) ou Bordeaux (10.000 segundo os sindicatos).
Philippe Martinez, o novo secretario geral da CGT, se referiu a jornada como uma “exitosa mobilização”, que ainda que exagerado colocou o objetivo de criar uma unidade depois do escândalo que atingiu a Confederação sindical que envolveu seu antecessor, Thierry Lepaon. Independente de tudo isso, a jornada foi um primeiro êxito que se explica por diferentes motivos.

Uma mobilização mais importante que as de 2014 ou 2013

Uma primeira explicação está vinculada às mobilizações frágeis dos anos anteriores, ligado a uma estratégia do governo e dos sindicatos de garantir um destensionamento social. Os sindicatos chamavam manifestações depois de cada sequência de negociações com o governo. É compreensível que as jornadas de ação tenham ficado pouco atrativas, depois que os sindicatos validaram a ideia de que se poderia negociar com o governo contrarreformas sobre as aposentadorias ou sobre os contratos coletivos.
A situação mudou nos últimos meses. Frente ao papel cada vez mais importante que tentar jogar a CFDT, dirigindo outras Confederações “reformistas” ou “pro-reformas” (UNS, CFTC e CGE-CGC), as direções reformistas do movimento sindical (CGT, Solidaires, FO e FSU) não poderiam ficar de braços cruzados. O risco seria que Laurent Berger (CFDT) ou Luc Bérille (UNSA) os fizessem comer poeira...

Ao lado do FO, seu secretário Jean-Claude Mailly buscou diferenciar-se da direção da CFDT, a jornada tinha uma importância de vida ou morte. Com vistas no Congresso de 2016, tinham que mudar a imagem da Confederação depois do escândalo sobre os gastos pessoais do antigo secretário Thierry Lepaon, enquanto que algumas das principais Federações (saúde, transporte e energia) decidiram não alinhar-se com a nova direção confederada. Neste contexto, a CGT buscou que a jornada se fizesse sentir na realidade do país.

Mudança de situação: a situação dos trabalhadores e as lutas salariais
Mas as centenas de milhares de manifestações não saíram às ruas pelas ruas devido aos cálculos das diferentes Confederações sindicais. A jornada de 9 de abril se inscreve em um contexto marcado pela pressão de diferentes lutas salariais. Neste ano, as negociações salariais que tomam lugar uma vez ao ano em fevereiro, foram muito pouco favoráveis para os trabalhadores. Vimos isso durante as últimas semanas em várias greves na indústria automotriz, em SevelNord ou em Mulhouse, no comércio ou nas universidades, como foi a greve de dois meses dos trabalhadores não docentes da Paris 8.
Esta pressão se refletiu numa ação em Paris, organizada pela CGT Carrefour e a CGT KFC, com delegações de trabalhadores e estudantes que participaram de um encontro durante a greve da Paris 8.

Estas ações e as 86 colunas sindicais da manifestação parisiense mostram a mudança de ânimo em vários setores de trabalhadores, em uma combinação de raiva e determinação, como se mostrou na coluna dos grevistas da Radio France e das caixas da Torre Eiffel.

Continuar o dia 9

Depois de um período de poucos conflitos sociais e das eleições municipais, onde a direita saiu vitoriosa, os trabalhadores tiveram finalmente a oportunidade de se opor à política de Hollande. A pergunta que muitos se fazer agora é “como continuar?”.
As declarações dos dirigentes dos principais sindicatos, ao decretar acabada a greve nacional, mostra que os trabalhadores não podem confiar mais neles. Mailly do FO e Martinez da CGT parabenizaram-se mutuamente pelo êxito da jornada, sem dar perspectiva alguma para além do 1o. de maio. Mailly declarou: “Espero alguma resposta de Matignon e de Elysée”, referindo-se ao primeiro ministro Valls e ao presidente Hollande. Martinez afirmou que “a dinâmica deveria das ideias aos militantes e trabalhadores”, sem especificar que “ideias” seriam essas ou quando poderiam expressar-se.

Um coisa é clara: faz falta dedicar forças maiores para fazer Hollande, Valls e Macron retrocederem. Depois de 9 de abril, o governo terá que levar em consideração, a sua esquerda, a rua que começa a fazer conhecer sua opinião. O que não está claro é se a esquerda e os setores sindicais combativos poderão encontrar um horizonte comum, para assim reagrupar os setores mais decididos e desenvolver uma nova correlação de forças que permita impor talvez o programa mínimo de Maily e de Martinez, ou seja “um ligeiro aumento do salário mínimo e descongelar os salários dos funcionários”.




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