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100 ANOS DO PARTIDO COMUNISTA CHINÊS | "Momento autocrático": Xi Jinping prega o partido como espinha dorsal da China

Com um discurso nacionalista, tônica que preenche seu governo desde 2013, ameaçou as potências que buscam frear a China, advertindo que quaisquer violações à soberania do país seriam enfrentadas por uma “grande muralha de aço”.

André Barbieri São Paulo | @AcierAndy

quinta-feira 1º de julho | Edição do dia

Nas palavras dedicadas às mais de 70.000 pessoas presentes na Praça da Paz Celestial, o presidente da China, Xi Jinping, pregou como secretário-geral mais do Partido Comunista Chinês, que celebra seu centenário, desde a era Mao, além de deixar claro sua posição de presidente da Comissão Militar Central. Envergando o casaco tradicional de Mao Tsé-Tung, a quem se compara em grandeza histórica no comando do PCCh, Xi subiu ao palco em frente aos portões de Tiananmen.

Com um discurso nacionalista, tônica que preenche seu governo desde 2013, ameaçou as potências que buscam frear a China, advertindo que quaisquer violações à soberania do país seriam enfrentadas por uma “grande muralha de aço”. “Um país forte deve ter um exército forte, pois só assim poderá garantir a segurança da nação”, disse Xi. A retórica dura, entretanto, tinha como objetivo apresentar-se como chefe máximo de um partido que governa a maior população do mundo, possui 92 milhões de filiados e está no poder há 72 anos, apenas 2 anos a menos que o período total em que o Partido Comunista da União Soviética (PCUS) esteve no poder na URSS.

Ecoando os comentários de Mao no mesmo local em 1949, Xi disse que a vitória do Partido Comunista "mostrou ao mundo que a nação chinesa tinha se levantado – o tempo em que o povo chinês podia ser intimidado por outros tinha desaparecido para sempre". O partido, acrescentou, permaneceu "a espinha dorsal da nação". Em uma das primeiras cerimônias de abertura das comemorações do centenário, Xi Jinping, exaltou a “lealdade ao partido” e entregou uma nova medalha de honra (“Medalha do 1º de Julho”) a 29 integrantes do PCCh. “Estamos agora marchando a passos confiantes em direção ao segundo objetivo centenário de construir a China em um grande país socialista moderno em todos os aspectos”, depois de ter conquistado o primeiro desses objetivos, marcado para 2021, que é atingir "uma sociedade moderadamente próspera", ícone importante para um líder chinês.

O tom ameaçador teve uma conotação distinta daquele que presidiu a celebração dos 70 anos de fundação da República Popular da China, em outubro de 2019. Naquele momento, Xi Jinping encabeçava um cortejo militar que figurava as mais novas aquisições marciais do Exército de Libertação Popular, como os modernos mísseis balísticos chineses. Esse verniz marcial também foi adotado pelo presidente chinês em 2015, durante a comemoração do aniversário da derrota dos japoneses na Segunda Guerra Mundial. Agora, Xi buscou integrar a agressividade com um sentido de “soft power” chinês na Ásia-Pacífico e no mundo. “A nação chinesa não carrega traços agressivos ou hegemônicos em seus genes. Nunca intimidamos, oprimimos ou subjugamos o povo de nenhum outro país, e nunca o faremos”. Trata-se de uma contracampanha ao alarde internacional que Estados Unidos, Japão e outras potências imperialistas levam adiante sobre as reais intenções de Pequim em reincorporar Taiwan a seu território continental, assim como assegurar exclusiva soberania sobre as águas estratégicas do Mar do Sul da China. Ao mesmo tempo que assegurava não oprimir nenhuma nacionalidade ou minoria étnica – enquanto cerca milhões de muçulmanos uighures em campos de concentração em Xinjiang, e apoia a junta militar assassina em Mianmar – Xi Jinping alertou a imprensa mundial que ninguém nunca conseguirá voltar a oprimir os chineses, como ocorreu durante o “século das humilhações”, entre 1840 e 1945. “Nunca permitiremos que qualquer força estrangeira nos intimide, oprima ou sujeite. Qualquer pessoa que tente fazer isso se encontrará em rota de colisão com uma grande parede de aço forjada por mais de 1,4 bilhões de chineses”.

Xi concentrou-se no papel do partido em realizar “o grande rejuvenescimento da nação chinesa". “Devemos manter a firme liderança do partido”, disse Xi. “O sucesso da China depende do partido”. Dentre os presentes nas festividades eram funcionários do governo e do partido, soldados, funcionários de empresas estatais e estudantes, além de grandes bilionários capitalistas que hoje são parte, não apenas do Partido Comunista, mas de suas esferas dirigentes. Em um tom amistoso para as nações da Ásia-Pacífico, e em especial para parceiros fortes, como a Rússia, Xi disse que “Estamos ansiosos para aprender as lições que pudermos das conquistas de outras culturas, e agradecemos sugestões úteis e críticas construtivas. Não aceitaremos, entretanto, pregações hipócritas daqueles que sentem que têm o direito de nos dar lições”.

Mas o discurso de uma hora do presidente chinês não revelou novas iniciativas ou prazos para os objetivos políticos mais importantes do partido, tais como a reunificação com Taiwan. A questão de Taiwan era esperada como parte central do discurso, e Xi decidiu manter ambigüidade no tema. A ausência de prazos concretos foi lida internacionalmente como uma forma de desinflar as pressões externas, que vinham aumentando com as declarações no Senado do almirante Philip Davidson, comandante da frota estadunidense no Indo-Pacífico, sobre a capacidade da China de invadir Taiwan em poucos anos, também confirmada pelo almirante John Aquilino, para quem a “ameaça chinesa em Taiwan está mais próxima do que pensamos”. Declarações assim vinham acirrando os ânimos em Washington. Xi não quis tratar do tema, como havia feito em janeiro de 2021, assegurando que a China não descartaria nenhum método, inclusive militar, para reincorporar a ilha. Mas atestou que a unificação com Taiwan permaneceu “uma missão histórica e um compromisso inabalável do partido comunista chinês. Ninguém deve subestimar a determinação, a vontade e a capacidade do povo chinês de defender sua soberania nacional e sua integridade territorial”.

Às vésperas da celebração, foi divulgado que os EUA e o Japão conduziram planos de guerra secretos, durante as administrações de Trump e Shinzo Abe, com o objetivo de repelir uma eventual invasão chinesa a Taiwan, local de refúgio do Partido Nacionalista (Kuomintang) depois da derrota na Guerra Civil de 1946-49, que se tornou um protetorado estadunidense, hoje presidido por Tsai Ing-wen, do separatista Partido Democrático Popular, altamente hostil à China. Os EUA e o Japão ficaram alarmados nas últimas semanas, pois a China voou mais caças e bombardeiros para a zona de identificação de defesa aérea de Taiwan, incluindo um recorde de 28 caças no dia 15 de junho. A marinha chinesa, a força aérea e a guarda costeira também se tornaram cada vez mais ativas em torno das disputadas ilhas Senkaku/Diaoyu, que são administrados pelo Japão, mas reivindicados também pela China, que passou a clamar posse das ilhas Ryukyu.

Os eventos desta semana comemorando o centenário do Partido Comunista Chinês foram os primeiros desde o surto da pandemia de coronavírus em Wuhan, 18 meses atrás. O partido saudou seu sucesso em conter a COVID-19 como evidência da "superioridade" de seus sistemas políticos e econômicos em comparação com os das potências imperialistas ocidentais, apesar das evidências de ocultamento de informações no início da pandemia, que levaram à morte o médico Li Wenliang, que havia descoberto o surto.

Da mesma maneira, as celebrações ocorrem dias depois das cúpulas do G7 e da OTAN, em que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, resolveu realinhar seus parceiros transatlânticos tradicionais para uma tentativa de coalizão anti-China. Na questão chinesa, Biden adotou uma postura agressiva e de continuidade com a linha de Trump, sem reverter as sanções econômicas, tecnológicas e comerciais impulsionadas pelo Republicano, e até mesmo incluindo no comunicado conjunto da OTAN – embora países como França e Alemanha não desejem adotar uma mentalidade anti-China para a Organização do Atlântico Norte – a definição do Guia de Segurança Nacional dos EUA, segundo o qual a China é "o único competidor potencialmente capaz de combinar o seu poder econômico, diplomático, militar e tecnológico a fim de opor um desafio sustentado a um sistema internacional aberto e estável” . Biden encontrou-se pessoalmente, depois das cúpulas, com o presidente russo Vladimir Putin, que com Xi Jinping vem travando as melhores relações diplomáticas da história recente sino-russa, a ponto de promover a construção de quatro reatores nucleares para Pequim. Não é impossível que, apesar da continuidade dos atritos entreWashington e Moscou, herdeiros da Guerra Fria, Biden tente manobras para atrapalhar as relações entre os novos “melhores amigos” na Ásia, numa espécie de “1972 ao inverso”, nas palavras do escritor Rafael Poch-de-Feliu (ou seja, aproximar-se da Rússia para isolar a China, da mesma maneira que Nixon e Kissinger se aproximaram da China para isolar a URSS na década de 1970).

Internamente, o Partido Comunista enfrenta ainda divisões, e Xi fez notar sutilmente esse problema em seu discurso. “A frente única patriótica é um meio importante para o Partido unir todos os filhos e filhas da nação chinesa, tanto no país como no exterior, por trás do objetivo do rejuvenescimento nacional”. Em autocracias como a chinesa, os apelos à unidade normalmente revelam dificuldades de alinhamento ao tirano, e Xi Jinping não está disposto a tolerar fissuras diante dos desafios internacionais da China. A imprensa vem chamando esse momento de “fortaleza insegura”. Como diz o periódico britânico The Economist, as campanhas anti-corrupção orquestradas por Xi – que ademais é tão inerente ao capitalismo chinês como ao ocidental – tem sido a mais prolongada desde o início da era das reformas de abertura de Deng Xiaoping, em 1978. Nos primeiros cinco anos de mandato de Xi, investigadores leais ao novo governo entregaram aos promotores uma média de quase 12.000 funcionários anualmente, mais do que o dobro dos cinco anos anteriores. Um número muito maior foi punido de outras formas, como por exemplo, através de demissão.

Esses expurgos internos são habitualmente nomeados como “auto-reforma”, em outras palavras, moldar a burocracia governante à imagem e semelhança de Xi. Tal como disse no discurso celebratório, “Uma marca que distingue o Partido Comunista da China de outros partidos políticos é sua coragem em empreender a auto-reforma”. Isso serve também a determinados capitalistas chineses, que tem a garantia de superlucros desde que cooperem com Xi: Jack Ma, dono da Alibaba, e Wang Xing, fundador da gigante tecnológica Meituan, vem sendo disciplinados por Xi Jinping, para voltarem humildemente ao reduto do PCCh. Outros especialistas, como os sinólogos Richard McGregor e Bruce Dickson, afirmam, entretanto, que a população se sente majoritariamente satisfeita com Xi, cuja governança firme, economia em crescimento e assertividade internacional são eficientes sinais de representação popular. É com esse apoio que Xi conta para renovar seu mandato sem grandes solavancos, para além das diretrizes de “direção coletiva” implementadas por Deng e revogadas pelo atual presidente em 2018.

O Partido Comunista Chinês passou por distintas fases de desenvolvimento, e tem pouca ou nenhuma semealhança com o que era em 1921. Fundado como um partido operário ligado à Terceira Internacional dirigida por Lênin e Trótski, passou por uma mudança de sua base social a partir da derrota da Revolução Chinesa de 1925-27, pela catástrófica política de Stálin. Expulso dos grandes centros operários e perdendo sua ligação com a classe trabalhadora urbana, o PCCh se refugiou no campo, e passou a ser um partido-exército fundado no campesinato chinês, sob a direção de Mao e Zhu De. Vitorioso em 1949, o PCCh retomou à força seu prestígio nas cidades, e emergiu como governo expropriando as conquistas dos trabalhadores e dos camponeses, passando a exercer uma ditadura sobre elas, e apoiando a repressão dos processos de revolução política contra os regimes stalinistas, como na Hungria em 1956. Dirigindo o processo restauracionista na China, no marco da derrota do ascenso de 1968-81, o PCCh passou a integrar empresários - majoritariamente de pequeno porte - às suas fileiras, algo que se incrementou com Jiang Zemin e Hu Jintao, que na década de 2000 multiplicou a entrada de grandes burgueses em postos chave de direção do partido. Xi Jinping chefia um partido que, nas palavras de McGregor, "já não é um partido de trabalhadores e camponeses, é um partido de gerentes e empresários", e que durante décadas administrou a superexploração selvagem de sua força de trabalho em comunhão com as multinacionais ocidentais, sendo gerente máxima do capitalismo chinês em rápida ascensão.

Mas o principal desafio da burocracia antioperária de Pequim pode vir do terreno da luta de classes. Segundo o China Labour Bulletin, houve ao redor de 400 greves operárias nos últimos seis meses, pondo na linha de frente os trabalhadores mais precários dos serviços digitais, que tiveram de trabalhar na pandemia, e que tem escassa representação no Partido Comunista Chinês. A greve dos entregadores da empresa Eleme, em Hefei e em Xangai, assim como as paralisações dos trabalhadores da construção civil em Sichuan e Henan, embora ainda econômicas, se tornam uma pedra no sapata de Xi Jinping, uma vez que a burocracia sindical da Federação dos Sindicatos da China tem menor entrada nesses setores. Os trabalhadores migrantes nas fábricas da costa leste da China também tem pouca representação no PCCh, que tem dificuldade em criar células partidárias nas empresas privadas, que empregam quase 90% da força de trabalho chinesa. Segundo Richard McGregor, dos 2,1 milhões de novos membros que o partido recrutou em 2018, menos de 5.700 eram trabalhadores migrantes, embora tais trabalhadores representem mais de um terço da população em idade de trabalhar da China.

A juventude trabalhadora é também um ponto de interrogação na China, devido ao pouco entusiasmo que demonstra diante da cultura da "agilidade para evoluir, sem questionar", que depende da superexploração do seu trabalho. Isso está criando uma sensação de tensão entre a nova geração de trabalhadores chineses. O questionamento da cultura do excesso de trabalho é uma fonte de fortes contradições de classe (nas fábricas chinesas as horas extras foram consagradas como uma obrigação, porque não se pode sobreviver sem fazer um trabalho extra). The Economist menciona que os trabalhadores das "empresas de tecnologia" estão em um ritmo de protestos contra a "cultura 996" (trabalhar das 9h às 21h, 6 dias por semana), e os trabalhadores migrantes das cidades costeiras da China - o centro de gravidade da classe trabalhadora chinesa desde 1990 - estão protestando sistematicamente (também através de redes sociais) contra o ritmo infernal das fábricas e a precarização dos serviços de entrega.

O “grande rejuvenescimento” do movimento operário na China, destituído do veneno nacionalista, é fundamental para que emerja um ator independente das disputas reacionárias entre EUA e China.




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