Política

CRISE POLÍTICA

No velório de Teori, a vivacidade de disputas políticas clandestinas

Em uma democracia burguesa cada vez mais degradada por falta de representatividade e até mesmo pelo sequestro do voto popular, como foi o impeachment, crescem as formas clandestinas de política, guerras de bastidores, de editoriais elípticos, de nomeações.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

sábado 21 de janeiro de 2017| Edição do dia

A morte de Teori, que evidentemente exige elucidação, entrelaçou disputas políticas que caminham ora em paralelo ora junto: os rumos do governo Temer e a disputa entre alas do regime político pró e anti-Lava Jato. Essa segunda disputa cheia de som e fúria no assunto “Dez Medidas” já tratamos anteriormente como uma disputa entre o “partido da Toga” e “partido da Casta”, grupos políticos e de interesses que atuaram conjuntamente no impeachment. Essa disputa agora se daria em torno da nomeação do novo ministro ao STF e na forma de escolha do novo relator da Lava Jato.

Em uma democracia burguesa cada vez mais degradada por falta de representatividade e até mesmo pelo sequestro do voto popular, como foi o impeachment, crescem as formas clandestinas de política, guerras de bastidores, de editoriais elípticos, de nomeações. Formas sempre presentes, mas que emergem como a política obscurecendo as formas ditas normais de projetos de lei, debates parlamentares, votações. E os atores fundamentais dessa política do bastidor tem algo comum entre si: nenhum voto popular.

Os atores principais do enredo clandestino são: a grande mídia, Temer e o judiciário.

Os sempre influentes tucanos atuam através desses três atores. E vista a penumbra de suas opiniões no presente caso os deixaremos clandestinos na análise da política obscura em Brasília e no funeral em Porto Alegre.

Vejamos as diferentes políticas sobre a nomeação do relator da Lava Jato e o que isso mostra da política de fundo dos atores.

Minutos após a morte de Teori a maior parte dos brasileiros se chocaram com o artigo 38 do regimento interno do STF autorizando Temer, citado 43 vezes na Lava Jato, a indicar não somente um novo ministro à mais alta corte do país, mas também que este seria o relator do caso. Memes, pronunciamentos e uma histriônica campanha em torno do príncipe da República de Curitiba vieram imediatamente à luz. Ninguém sabe a origem das informações e não faltam suspeitas sobre a morte, pululam links de jornais antes desconhecidos com fontes apócrifas sobre novos detalhes do enredo. Essas forças atuam contra a tese “Temer e casta” para favorecer a ala da “toga”, com todo seu conhecido arbítrio, convicções e powerpoints.

Minuto após minuto, setores da grande mídia tiveram que começar a dar voz ao filho de Teori e seu relato das ameaças que seu pai sofria e, mais que isso, a mídia, como partido, precisava dar uma solução ao novo capítulo da crise política. Na TV, como análise e como política, surgiu o artigo 68 do mesmo regimento dando poder a Carmen Lucia de nomear ou sortear novo relator.

Ainda não há claros vencedores, Temer, Renan, Jucá e cia, ou Lava Jato. Aí entra o terreno da disputa.

Temer escalou seu braço direito, Moreira Franco, para vazar à mídia que nomearia “urgentemente” um novo nome. Não queria parecer que estava procrastinando com a Lava Jato e pretendia aproveitar o divino presente que a providência lhe havia dado sobre os rumos da Lava Jato. Ao escalar Moreira Franco e não a si mesmo abria margem a recuos se precisar. E todos grandes meios hoje noticiam que ele estaria propenso a deixar o STF decidir. Temer anda no fio da navalha de baixíssima aprovação popular, sob xeque da Lava Jato e contando com a mídia como porta-voz da elite a mantê-lo no poder para realizar a pesada agenda de ataques proposta e em andamento. Cada passo deve ser medido em torno de manutenção de sua precária “pinguela” como FHC chamou seu governo.

O Globo, antevendo o insucesso da “tese Temer nomeia” adotou ontem um expediente raro e publicou um editorial online no período da tarde, nele advogam pela escolha por Carmen Lúcia e não pelo usual sorteio, como relatamos em matéria ontem. No mesmo dia seu principal articulista, Merval Pereira jogava a idéia que Fachin, amigo de Teori, poderia ser o escolhido. Hoje a ideia de Merval aparece em novo editorial com quase o mesmo título do lançado ontem à tarde: “Prioritária a defesa da Lava-Jato”. O programa da família Marinho, fora continuidade da operação é que “a melhor, mais sensata [definição], até por questão de tempo, parece ser a transferência de alguém da primeira turma para a segunda, de que fazia parte Teori (...) um nome que desponta é o de Edson Fachin. Além de próximo a Teori, tem perfil semelhante ao dele.
Como diziam no editorial de ontem não cabe jogar ao acaso (sorteio) a decisão dos rumos da operação, o Globo tem um escolhido, alguém que não seja nem tão “pacto” como Gilmar nem tão Lava Jato como um Barroso ou Marco Aurélio, outro sulista taciturno que tenha, tal como Teori mostrado críticas a Janot e Moro em alguns casos, mas também mostrado uma boa dose de arbitrariedade e funcionalidade ao golpe. Alguém que possa deixar Cunha solto depois prendê-lo, possa criticar Renan, depois mantê-lo no poder e no meio disso tudo ainda postar-se de neutro algo que os “extremos” da “casta” ou da “toga” dentro do STF não podem.

A Folha no entanto, prefere um sorteio envolvendo os onze ministros. Em editorial de hoje “Desolação e Urgência” ela diz “Sabendo que não haverá solução perfeita, a presidente Carmen Lucia precisará dizer se o acervo de Teori será sorteado entre os membros do STF – nesse caso, o ideal é que todos participem do sorteio – ou repassado ao novo integrante. (...) por outro lado, inevitavelmente existirão reservas em relação a um ministro que seja indicado por Temer, cujo nome é mencionado 43 vezes em uma das delações da Odebrecht (....)
O Estado de São Paulo, por sua vez, traz hoje em seu “O equilíbrio de Teori Zavascki” uma posição favorável a Temer e crítica à Lava Jato e sua ala “da toga”. No artigo, além de meditar sobre o papel tão “neutro” do ministro falecido, descartam categoricamente qualquer ideia conspirativa de que Temer se fortaleceria como uma “teoria estapafúrdia” e ainda criticam os procuradores da Lava Jato e seus pronunciamentos dizendo: “Portanto, dizer que a trágica e sentida morte de Teori Zavascki coloca em risco a própria Lava Jato, como muito se ouviu e leu desde que se confirmou a triste notícia, é um evidente exagero, que, à primeira vista, se prestaria a pressionar o futuro substituto do relator e o próprio Supremo a agir segundo o que esperam certos cruzados da luta contra a corrupção – os mesmos que vêm se notabilizando ultimamente pela intempestividade de métodos e propósitos.” Para o Estadão é falso pensar que um nomeado por Temer controlaria a Lava Jato já que os indicados pelo PT também o condenaram no Mensalão e atuaram agora contra o partido responsável por sua nomeação.

A divergência tática dos três grandes meios de comunicação remonta a outra disparidade de programas entre si. A Folha sempre advogou em prol de eleições antecipadas antes e depois do impeachment, e para isso localiza-se mais próxima dos interesses da Lava Jato e mais próximo portanto de posições “mãos limpas”. O Globo, por sua vez, defensor de priorizar explicitamente os ajustes, busca combinar sua preocupação material com a exploração dos trabalhadores com algum nível de “mais Lava Jato”, atingindo fundamentalmente Lula e o PT, mas também outros partidos e promover certa mudança no regime partidário nacional. Já o Estadão joga pela estabilidade de Temer acima de tudo, para que este promova os ajustes, e desse modo é mais crítico aos “fios desencapados” da toga. O impeachment foi suficiente, uma posição bem similar às atualmente defendidas por Gilmar Mendes.

As diferenças agora expressas em torno do novo ministro e como proceder com a relatoria da Lava Jato revivem o debate de fundo, oculto, clandestino, de forças políticas atuando na política nacional. Nos editoriais, cafezinhos, jantares, ocorre um parlamentarismo oculto, clandestino. Esse é o papo no velório de Teori no dia hoje. Cochichos, sorrisos, pesares, prenhes de política. Uma democracia cada vez mais degradada. Onde sequer a verdade sobre a corrupção e pavorosos acidentes pode-se saber. Uma situação que cada vez mais exige da esquerda uma política independente das distintas alas deste regime político.




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