25J - DIA DA MULHER NEGRA LATINO-AMERICANA E CARIBENHA

Nesse dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha estamos junto com os entregadores!

Esse 25J, Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, coincidiu com a segunda paralisação internacional de entregadores de app. Junto as trabalhadoras da saúde, nós mulheres negras condenadas à faxina como principal fonte de renda, compomos com os entregadores, as categorias mais expostas à COVID 19 pela precarização de nosso trabalho. É preciso fundir nossas bandeiras, com as mulheres negras, ocupando as primeiras fileiras das lutas da nossa classe, contra o machismo, o racismo e o capitalismo.

Grazieli Rodrigues

Professora da rede municipal de São Paulo

sábado 25 de julho| Edição do dia

Dando continuidade à reflexão do texto de Cristina Tristán “Por que é nossa tarefa como Movimento Negro e de Mulheres apoiar o Breque dos App no 25J?”, na luta contra a opressão racial e exploração de nossos corpos negros, as mulheres negras e os trabalhadores precarizados pela uberização via aplicativos, estão profundamente ligados. Coincidentemente esse ano o dia da Mulher Negra, Latino Americana e Caribenha coincidiu com a segunda paralisação dos entregadores de app, ou o mais popularizado “breque dos apps”. Se pudéssemos tomar as ruas como fazemos há anos, hoje, certamente nós mulheres negras marcharíamos ao lado dessa juventude negra, filhos do ventre da nossa classe, de quem, assim como nós, a crise capitalista e a combinação de opressão e exploração segue incansavelmente buscando roubar o futuro.

Quem somos nós mulheres que marchamos no 25J?

No Brasil somos as mulheres negras cuja principal ocupação, passados 132 anos da “abolição” da escravidão, segue sendo o trabalho doméstico; somos um exército de mães solteiras e chefiamos 63,3% dos lares abaixo da linha da pobreza, sendo responsáveis por 7,8 milhões de pessoas em nossos lares segundo o IBGE; também somos nós as vítimas de 73% dos casos de violência contra mulher que aconteceram em 2017; 66% da vítimas de homicídio nesse mesmo ano; e somos 3 em cada 4 mulheres mortas por aborto clandestino no país.

O mesmo Estado que não nos dá direito ao corpo nos rouba o direito à maternidade através das exploração do nosso trabalho, nos impedindo de ver nossos filhos crescerem; isso quando não os mata diariamente nos enfiando goela abaixo uma realidade onde à cada 23 minutos um jovem negro é assassinado, muitas vezes pelas mãos da Polícia genocida.

Junto a classe trabalhadora negra, seguimos pagando as contas crise:

Nós mulheres negras, que chegamos a receber 60% a menos do salário de um homem branco, e em relação aos homens negros, que também tem seus salários menores do que homens brancos, ainda recebem 20,9% a mais do que nós. E junto aos homens pardos e pretos, nós negras compomos 55,8% da população brasileira e 54,9% de toda a força de trabalho de país. Ou seja, somos fundamentalmente essenciais na produção, na manutenção e movimentação de toda riqueza que se faz e circula por esse país, ao mesmo tempo que somos nós, negras e negros que segundo o IBGE compomos 64,2% da população desocupada e 66,1% da população subutilizada.

Já éramos empregadas de forma precária através das terceirização que triplicou durante os anos de governo do PT; posteriormente ao Golpe Institucional estivemos entre as mais afetadas junto a população negra por cada ajuste e ataque econômico dos governos golpistas de Temer e posteriormente de Bolsonaro, que se elegeu com um discurso machista e racista que honra através de suas ações até hoje. Viemos sendo empurradas desde 2016 para uma condição ainda mais precária de trabalho, especialmente nos setores de transportes e alimentação, ligada ao crescimento exponencial da empregabilidade “autônoma” através dos aplicativos e da venda de comida de rua; fora a realidade do trabalho doméstico cada vez mais informal que nos localiza como a maior categoria profissional do país totalizando 6,356 milhões de trabalhadoras – 97% feminina e composta de 82% de negras (os).

Frente a pandemia nossas vidas foram profundamente negligenciadas por Bolsonaro, por Mourão, pelos golpistas do Congresso e do STF, em nome dos lucros dos patrões e nós que somos a maioria entre as trabalhadoras da saúde (85,1% dos trabalhadores de enfermagem são mulheres e 53% negras) as maiores heroínas dessa crise, somos também enquanto domésticas e junto aos entregadores as três categorias profissionais mais expostas à COVID 19.

E quando falamos nos entregadores que frente à essa precária realidade paralisaram dia 1/7 e hoje, no dia da Mulher Negra, Latino Americana e Caribenha, paralisarão seu trabalho novamente, falamos nos nossos filhos que disputamos com o encarceramento e com o genocídio e quando conseguem fugir dessas realidades tem como única alternativa o trabalho precário. Saiba mais sobre o perfil dos entregadores no Observatório da Precarização e da Reestruturação Produtiva organizado por nós no Ideias de Esquerda aqui.

Junto aos entregadores, nesse 25J, não abaixamos nossas bandeiras!

E é por tudo isso que nesse 25J, nós mulheres do Grupo Internacional de Mulheres Pão e Rosas e do Quilombo Vermelho, orgulhosamente estamos com os entregadores contra a precarização do trabalho que nos rouba a vida, na faxina ou nas bikes e motos, e de forma ainda mais intensa durante a pandemia. Nosso grito em defesa da vida e dos nossos direitos enquanto Mulheres Negras, Latino-Americanas e Caribenhas vai de encontro ao grito de “Blacks Lives Matter” que ecoa no mundo graças à fúria negra nos EUA que levantou um profundo questionamento ao racismo e à Polícia, chegando a abalar as bases em torno da possível reeleição de Donald Trump, que tem como representante dos interesses imperialistas no Brasil, Bolsonaro e toda a ala Militar.

E frente à essa crise histórica não daremos nenhum passo atrás na denúncia dessa realidade que nos corta a pele através da histórica negação de direitos, nos localizando como o “outro do outro” como conceitualizou Grada Kilomba e por não nos resignarmos à essa posição seguiremos levantando todas as nossas bandeiras à fim de construir uma sociedade onde não sejamos protagonistas de estatísticas tão barbarizadas pela miséria capitalista.

Mas que tenhamos condições para essas batalhas, depende da concretização de uma série de direitos negados à nos também nesse contexto pandêmico, seja por Bolsonaro ou pelos governadores, como João Doria e Prefeitos como Bruno Covas, que mesmo buscando aparecer como os melhores gestores dessa crise também concentram toda sua energia em nos fazer pagar por essa crise que não fomos nós quem criamos.

Por tudo isso, além de nossas pautas históricas, nesse 25J ao lado dos entregadores como as primeiras fileiras da nossa classe, lutamos também por testes para toda população de modo que não seja nosso povo os que mais morrem pela COVID; por um investimento real no SUS e leitos e respiradores para todos; para que nenhuma mãe preta tenha que fazer dormir seus filhos como única forma de enganar a fome, portanto, lutamos por um auxílio emergencial de no mínimo R$2000 - que é era a média salarial do nosso país – enquanto durar a pandemia; e por quarentena remunerada para todos e todas que não fazem parte dos serviços essenciais. Somente as mulheres negras da nossa e a classe trabalhadora desse país podem botar de pé medidas racionais de gestão da pandemia que não nos façam seguir rifando nosso sonhos e vidas juntos aos filhos e filhas da nossa classe!




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