A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ Nota n.18

Neoliberalismo: por que não resolveu a crise econômica capitalista?

Gilson Dantas

Brasília

domingo 1º de julho| Edição do dia

Os anos 1980 e 1990 são também época de propagação da crise financeira da era neoliberal que, como um todo, reflete a dificuldade do grande capital em reencontrar sua plena rentabilidade na produção e, deste mesmo processo decorre o agigantamento dos elementos parasitários da economia internacional. Que inclui, agora padrão de consumo super-elitizado. E que atravessa o formato de crise da dívida externa, grande afundamento da economia japonesa na metade dos anos 1990, desproporção do setor bélico, narcoeconomia etc.

Medidas de ofensiva do capital
Tomado em escala de mais longo prazo, de décadas, este período de farra creditícia, de bolhas, de ruptura de bolhas, no qual a riqueza especulativa (a alavancagem) cresceu muito mais do que a taxa de acumulação do capital na produção, era previsível que o resultado final fosse não apenas uma crise no crédito, a necessidade de deter a febre financeira, mas sim o horizonte de recessão, depressão, devastação na economia produtiva.

Neste sentido é que se pode afirmar que as medidas neoliberais constituem mais uma fuga para a frente, um processo de ir empurrando a crise e suas contradições para adiante, uma tentativa de adiamento da crise de desvalorização de capitais na produção. Toda essa orgia financeira das décadas de fim do boom do pós-Guerra, representam pouco mais que a ante-sala – do ponto de vista do sistema do capital – da necessária crise que venha para devastar capitais, forças produtivas, economia produtiva.

É certo que com a “empresa neoliberal” houve a já mencionada recuperação da taxa de lucro com a derrubada dos direitos trabalhistas e aumento da exploração do trabalho, mas através deste mesmo processo se desenvolveu achatamento do mercado, estreitamento das bases para as vendas de mercadorias e uma dinâmica de efetiva e ampla valorização do capital.

Além do que, esse processo se dá nos estreitos marcos de uma não-queima de capitais em larga escala. Tanto isso é assim que nem com toda a fúria ofensiva da política neoliberal, a partir de Reagan-Thatcher [já antes com Pinochet]. a economia retomou os níveis nem a persistência do crescimento vistos após a II Guerra.

Além disso, tornaram-se frequentes como nunca as crises financeiras e bancárias em um processo onde, ao se estreitarem as oportunidades de investimentos rentáveis, na produção, o sistema passou a depender crescentemente do crédito, do endividamento, e o capital se lançou à busca de intensa acumulação na esfera financeira (levantando um cada vez maior castelo de cartas, já que riqueza só pode ser gerada na produção).

E quanto às crises bancárias, instalou-se uma temporada similar à do período entre as duas Guerras Mundiais, só que bem mais profunda e qualitativa. Mais que isso: a frequência das crises bancárias, veio a ser maior nas décadas de 70, 80 e 90 de que no total do século XX e, além disso, predominam crises que combinam problemas bancários e de divisas (CHINGO, 2008: 90).

À instabilidade própria da economia mundial capitalista, une-se a ofensiva neoliberal destas décadas para obter lucros a todo custo e em toda esfera, intervindo pesadamente na especulação e ativos financeiros e, por essa via, agravando as contradições do sistema.

Pela via da especulação, os bancos e grandes grupos financeiros ganharam bilhões e bilhões de dólares. Mas o lastro dessa riqueza na economia real é o calcanhar de Aquiles: cresce a desproporção entre os lucros na finança em relação à esfera industrial, esta incapaz de se desenvolver na velocidade necessária para corresponder à necessidade de valorização daquele volume de capital disponível e crescente.

A dinâmica do capital não encontra como se basear principalmente na valorização do capital na produção, e tem que se lançar aos ganhos financeiros.

Segundo o economista Carlos Lessa, apoiando-se em números do Bank for International Settlements, a “economia real, ou seja, a economia que corresponde aos processos que, em última instância, dominam a natureza e multiplicam formas de energia e o fluxo de produtos e bens de serviços, é estimada para todo o mundo entre 57 trilhões e 65 trilhões de dólares. Isso seria a economia real. Sobre ela, existe um patamar chamado ativos financeiros; eu vou sintetizar os ativos financeiros – prossegue Lessa - denominando de dívidas primárias de empresas, de famílias e de governos. Os ativos financeiros andam em torno (...) de 130 a 140 trilhões de dólares. Bem, sobre isso, vêm os derivativos, os produtos, que são de uma engenhosidade e de uma complexidade crescente e estão estimados em 640 trilhões de dólares. Porém, nos Estados Unidos, já há quem fale em um número do qual o Tio Patinhas gostaria muito. Um quatrilhão” (LESSA: 2008).

Nichos, bolhas versus ampliação sustentada da capacidade produtiva
Os investimentos em ativos financeiros – como foi visto - cresceram astronomicamente em relação aos investimentos na produção. Ampliar capacidade produtiva – base histórica da reprodução ampliada do capital – não era tão rentável para as massas acumuladas e centralizadas de capital quanto aplicar em papéis, em privatizações, em empréstimos (papéis da dívida externa e interna). Nunca se perdendo de vista que não se trata de uma escolha, mas antes uma determinação do capital em dificuldade histórica para sua valorização na produção.

Não se trata de um processo generalizado de acumulação do capital fixo e muito menos processo sustentado (mesmo quando alcança taxas altas como no surto de 2003 a 2006, onde a média anual chegou aos excepcionais 5 %), mas sim de nichos de valorização produtiva.

Exemplos destes nichos incluem a China dos anos recentes e, antes, os velhos e novos tigres asiáticos (os NIC e novos NIC ou new industrializated countries), do final dos 60 até a crise da Ásia de 1997; também a nova economia da informática-telecom, de meados dos 90 até os anos 2000. Em meio a tudo isso, a bolha imobiliária centrada nos Estados Unidos, Espanha e Inglaterra, que recém-explodiu desaguando na mais grave crise do sistema em décadas.

Sendo necessário – tema para outra nota – levar em consideração um novo processo internacional, no qual se apoiou o equiibrio instável do sistema, a relação Estados Unidos-China, esta acolhendo o grande capital industrial norte-americano e exportando para mercados internacionais, sobretudo o norte-americano.

Estava em marcha a deslocalização indus¬trial mundial, dos grandes capitais dos países ricos em busca de focos concentrados ou áreas de baixos salários e reduzidos encargos trabalhistas. Na China, Tailândia, Filipinas e Índia, paga-se, por mês trabalhado na indústria não mais que 141 dólares, enquanto que nos Estados Unidos ou Japão paga-se mais de 2600 dólares.

A China adiantou uma casa e, oferecendo mais vantagens comparativas que seus concorrentes, se tornou a meca, o destino principal daqueles capitais deslocalizados.

No entanto, o problema secular ou de fundo da economia capitalista mundial continua sem solução: estreitamento do espaço, em relação à grande massa de capital acumulado, para investimentos lucrativos na produção. Quando se cria um foco ou um nicho – baseado na superexploração do trabalho – para grandes lucros, como foram antes os tigres asiáticos e, mais recentemente, a China [ou até, por um momento, a “economia ponto.com”], os capitais afluem em massa e engendra-se toda uma “pirâmide” ou bolha de ganhos, de especulação financeira, de sobre-acumulação de capitais, de expectativa de lucros que não tem como estender-se por muito tempo. E que conduz rapidamente a uma queda daquela taxa média de lucro que, ali, estava acima da média.

A taxa de acumulação do capital – de investimentos em capital fixo – não cresce como poderia, não encontra espaço para crescer velozmente como em outros tempos.

Em décadas recentes, vale ressaltar que a plena incorporação da China ao mercado mundial, trouxe enormes massas de mais-valia e uma concorrência em vários ramos econômicos que resultou em certo barateamento do capital constante com consequente redução parcial na composição orgânica do capital.

Isto contribuiu para melhora nas taxas de lucro. Um filão que tende a secar mais rápido diante da enorme massa de capitais acumulados em relação à miserável base para sua reprodução acelerada. A grande crise deflagrada em 2008/9 será expressão disso.

CHINGO, Juan, 2008. Crise e contradições do ´capitalismo do século XXI´. In Estratégia Internacional – Brasil n.3, SP, maio 2008, p. 75-144.
LESSA, Carlos, 2008. Entrevista a Carta Maior em 31-10-08. Disponível no site: www.cartamaior.com.br. Acessado em 6/8/2013.




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