Gênero e sexualidade

TRIBUNA ABERTA

"Nem uma a menos" e "Fora Greca" se unem em ato na capital paranaense

O ato feminista em memória às mulheres vítimas de feminicídio contou, também, com encaminhamentos referente à conjuntura política para a luta das mulheres na cidade.

terça-feira 10 de janeiro| Edição do dia

Estavam na casa Isamara Filier, seu filho João Victor, de 8 anos, e mais 10 familiares na virada do ano 2016 para 2017. Era para ser uma noite feliz e de comemoração, como em todas as outras residências da cidade de Campinas (SP), se Sidnei Ramos de Araújo não tivesse pulado o portão, entrado na casa, perseguido, principalmente, as mulheres presentes e começado um disparo em massa que assassinou 12 das 15 pessoas que estavam na festa. Dentre elas, 9 eram mulheres.

Após a chacina, Sidnei matou a si mesmo e deixou uma carta chamando Isamara de “vadia” e também declarando seu ódio generalizado às mulheres. Renata Rodrigues Aureliano teve seu corpo queimado por seu ex na mesma noite e morreu, mas em Campestre (MG). Até o dia 06 de janeiro, 27 mulheres haviam sido mortas neste ano no Brasil vítimas do mesmo crime: feminicídio.

PROTESTO NA BOCA MALDITA

Motivado sobretudo pelos recentes delitos de ódio ao gênero feminino que chocaram a população, movimentos sociais como a frente ampla CWB Contra Temer e os feministas Marcha das Vadias Curitiba e União Brasileira de Mulheres organizaram um ato intitulado “Nem uma a menos - ser vadia é sinônimo de ser livre” no último sábado, dia 07. Com o intuito de protestar contra os crimes de feminicídio, já com taxas crescentes nesses poucos dias de 2017, o evento conseguiu articular a primeira parceria do ano entre diversas organizações que lutam pelos direitos das mulheres. Durante o protesto, o megafone foi aberto e ouviu-se diversos relatos e mensagens de apoio ao movimento pelo fim da violência contra a mulher. Em memória às vítimas, gritou-se o nome de cada uma das 27 mulheres assassinadas, bem como dos homens/meninos que morreram junto com as elas em decorrência do machismo e misoginia.

Recordou-se, ainda, o motivo do emprego da palavra “vadia” para protestar contra a culpabilização de quem sofre com a selvageria histórica dos homens. A ressignificação da palavra foi lembrada já que o assassino misógino de Campinas a usa de forma generalizada nas cartas que escreveu sobre a chacina de sua autoria. Habitualmente, denominam “vadias” aquelas mulheres que não satisfazem os desejos dos homens, ou que andam com a roupa que querem, ou que vivem sua liberdade sexual. Muitas vezes, usam o “vadia” para culpabilizar a vítima de violência, insinuando que foi a mulher que motivou a agressão. Além disso, “vadias” são, também, aquelas mulheres que não se calam diante da brutalidade exercida cotidianamente contra si, que denunciam, que lutam, que agem de alguma forma contra quem as agride e oprime. Ser “vadia” é resistir todos os dias, é ser livre e incomodar com sua liberdade os homens e a sociedade patriarcal a qual fazemos parte.

Homens, mulheres e crianças não orquestrados em movimentos também fizeram coro aos gritos e à marcha relembrando outras pautas comuns ao movimento feminista, como frases de ordem a favor da descriminalização do aborto, contra a violência sexual e contra a LGBTfobia.

O ato, que reuniu cerca de 50 pessoas, caminhou da Boca Maldita para a Praça Santos Andrade, dois tradicionais palcos de manifestações. Durante o trajeto, também foi feito um jogral para explicar a razão da manifestação para a população que estava passando e trabalhando no calçadão. Na Praça, as/os manifestantes fixaram um painel construído colaborativamente durante a concentração com notícias dos casos de feminicídios e frases contra a violência de gênero. Ao final, integrantes dos movimentos presentes concordaram com alguns encaminhamentos relativos aos direitos das mulheres na cidade de Curitiba, bem como a necessidade de aliança ao evento latinoamericano do dia 8 de março - data em que comemora-se o Dia Internacional da Mulher.

ENCAMINHAMENTOS DO ATO - A LUTA NÃO PARA

A conjuntura política atual é desfavorável para as mulheres em esfera regional e nacional. Em 2016, após o processo de impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff (PT) instaurado pelo Senado Federal e a designação do governo interino - e golpista - de Michel Temer (PMDB), o retrocesso dos direitos femininos foi gradativo. A derrubada da primeira mulher eleita para a presidência do país, a inexistência de mulheres nos Ministérios do governo ilegítimo, rachando com um período de 37 anos de representações femininas nos Ministérios e a redução do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos à uma pasta foram algumas demonstrações da falta de compromisso que a atual gestão presidencial tem com as minorias.

De modo semelhante, Curitiba segue caminhando para o retrocesso nas políticas públicas para as mulheres. Ao assumir a prefeitura neste ano, o candidato Rafael Greca (PMN) declarou a extinção da Secretaria Extraordinária da Mulher do Município de Curitiba, uma importante conquista das curitibanas. Essa tomada de decisão pode afetar, por exemplo, o funcionamento da recém-criada Casa da Mulher Brasileira (CMB) que, mesmo fazendo parte do programa nacional “Mulher, Viver Sem Violência” e tendo sido construída com fomento federal, sua gestão é de responsabilidade da prefeitura. A CMB é um órgão que objetiva proporcionar um atendimento humanizado à mulher violentada, oferecendo abrigo, apoio psicológico, jurídico e espaço especial para as crianças, assim como evidencia a necessidade desse tipo de instituição na capital paranaense, pois em seus primeiros 30 dias foram 281 vítimas de violência que buscaram ajuda na Casa.

Por conta disso, ocorreu no “ Nem uma a menos” o primeiro “Fora, Greca”. Para organizar uma movimentação contrária à essa ação da recém-empossada gestão municipal, foi deliberado em assembleia no fim do ato uma reunião entre os movimentos sociais com pauta feminista. O evento no facebook já foi criado (clique aqui) e é aberto para as mulheres que são ou não organizadas. A proposta é unir forças e planejar uma pauta de reivindicações dos movimentos feministas como um todo no que concerne às políticas públicas municipais que envolvem a vida da mulher.

Para se ter um panorama da situação de violência de gênero em Curitiba, só em 2015, de acordo com a Secretaria Municipal da Saúde, foram registrados 1.998 casos de agressão, uma média de 5,5 por dia, e dentre estas ocorrências, 64% aconteceram dentro da casa da vítima. Em 2014, Curitiba foi a 5ª cidade com mais casos de estupro do país, conforme dados do Fórum de Segurança Pública. Segundo o Núcleo de Apoio às Vítimas de Estupro (Naves), do MP-PR, mais de 400 mulheres foram estupradas no ano de 2015.

Analisando os dados é fácil chegar à conclusão de que todos os dias uma mulher é estuprada, assediada ou agredida em Curitiba. É importante ressaltar que essas informações são sectárias e subjetivas, uma vez que não contabilizam a violência contra as mulheres trans e travestis e a maioria dos casos não são registrados por conta do medo em delatar o agressor e expor a situação de violência.


O ano começou com resistência na cidade que se autointitula “República de Curitiba”, e as feministas não irão se calar diante da política e do corpo social que as exclui, marginaliza, violenta. Afinal, “nem recatada e nem do lar, a mulherada está na rua para lutar”.

FOTOS: Valéria K. Lopes‎

*Ana Carolina Spreizner é militante da frente CWB Contra Temer e Marcielly Moresco militante da Marcha das Vadias Curitiba.




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