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"Nem homens, nem mulheres, gente computada": Dzi Croquetes e o teatro de sátira em plenos anos de chumbo da ditadura

Júlia Santana

Imagem: Julia Santana

"Nem homens, nem mulheres, gente computada": Dzi Croquetes e o teatro de sátira em plenos anos de chumbo da ditadura

Júlia Santana

O grupo Dzi Croquettes surgiu em 1972, no Rio de Janeiro, e era formado por treze artistas que, em pleno período da história brasileira conhecido como os Anos de Chumbo da ditadura militar, organizaram os mais ousados e fortes espetáculos, envolvendo dança, música e teatro, sendo parte do movimento de contracultura que foi muito influente na cena artística entre as décadas de 60 e 70.

Neste período entre as décadas de 60 e 70 eclode a discussão sobre identidade sexual e de gênero, impulsionados também pelos eventos do maio de 68, o tropicalismo e a revolta de Stonewall (e aqui já indico desde já os episódios 19 e 53 do podcast Feminismo e Marxismo, sobre Stonewall e Maio de 68, respectivamente). O grupo era composto por Lennie Dale, Wagner Ribeiro de Souza, Cláudio Gaya, Cláudio Tovar, Ciro Barcelos, Reginaldo de Poli, Bayard Tonelli, Rogério de Poli, Paulo Bacellar, Benedictus Lacerda, Carlinhos Machado e Eloy Simões. Entre pêlos, barbas, purpurinas e paetês, os Dzi, através de suas performances artísticas, questionaram o regime de gênero e o estatuto da masculinidade na sociedade brasileira dos anos 70, do século XX.

O grupo revolucionou os palcos cariocas com seus espetáculos andróginos (semelhantes aos do grupo norte americano The Cockettes, famosos pelo visual andrógino e psicodélico). Desobedientes e debochados, decidiram desrespeitar a ordem do regime militar com inteligência. Os sapatos de salto alto e as roupas femininas propositalmente exibiam as pernas cabeludas e a barba cultivada pelos homens do grupo. O primeiro show, em 1972, foi um grande sucesso, apesar de ter sido banido pelo Serviço Nacional de Teatro. A comédia de costumes era um deboche ao sistema de ditadura e à realidade brasileira. O grupo também fez muito sucesso na Europa, especialmente na França, onde levou plateias parisienses à loucura.

Em seus espetáculos, os ritmos caracteristicamente brasileiros eram amalgamados com o jazz, enquanto o carnaval flertava com o cabaré. Era característico dos Dzi Croquettes absorver as estéticas existentes e consideradas conflitantes e fazer com que elas dialogassem entre si, em performances fortes, não se privando de contestarem os costumes e hábitos de um sistema patriarcal, heteronormativo e conservador, com uma linguagem crítica e com humor às instituições convencionais, enfatizando a caracterização de personagens religiosos, políticos e da estrutura familia. Troçavam da força repressiva da ditadura, contestando o controle, censura e repressão que havia a todas as manifestações contrárias aos interesses da burguesia e dos militares, fossem manifestações políticas ou artísticas.

Os anos de atuação do Dzi Croquettes foram parte de um momento na história mundial de muita explosão social, onde havia um enorme questionamento à ordem capitalista, inclusive com a União Soviética, que mesmo burocratizada, estava com o prestígio de ter derrotado o nazismo. Isso não deixou de ser expresso em seus espetáculos, com Cláudio Gaya vestido de Hitler como uma bailarina nazista dançando um bolero (com outro homem, é claro) ao som de “dois pra lá, dois pra cá” na voz de Elis Regina.

Foi uma época de enorme ascensão da luta de classes internacional e de efervescência no movimento operário e na juventude, o que permitiu a explosão também dos questionamentos pela liberação sexual e dos questionamentos mais profundos sobre os padrões de gênero, sobre o que era ser homem ou mulher.

A corporeidade no Dzi Croquettes aparece de forma performática, em que o gênero se torna ambíguo com elementos considerados masculinos e femininos ocupando simultaneamente seus corpos. Não há contradição.

“Nós não somos homens, nem somos mulheres. Nós somos gente, gente computada igual vocês!”, diziam.

Aos espectadores era escancarada pelos integrantes do grupo de forma irônica e sarcástica as fronteiras de gênero e sexualidade vigentes, sendo rompidas ali mesmo, diante dos seus olhos, como o documentário Dzi Croquettes de Tatiana Issa e Raphael Alvarez resgatam.

É uma experiência do corpo estética e política, em que a autonomia do prazer busca extrapolar os controles do sistema capitalista e resistir a uma concepção de sexo biologizante que é mantida para a separação da classe trabalhadora para potenciar a explorar detodos: uma dualidade entre uma masculinidade impassível e aventureira e uma feminilidade dócil e familiar. Os corpos viris se apresentam com barba e pelos, transvestidos com purpurina, paetês, cetim, sutiãs, cílios postiços, etc.

E no atual regime golpista, em que os vários atores políticos divergem por alto, mas se mantém unificados em dilacerar todas as políticas e direitos fundamentais da sociedade, esse debate se torna ainda mais latente. Lateja sob a pele das mulheres que não têm o direito ao aborto reconhecido, sob a pele da população negra que tem seu corpo relegado a alvo da polícia, sob a pele dos trabalhadores que se tornam mera força de trabalho, sob a pele de uma sociedade que tem sua libido contida entre os interesses mercadológicos burgueses…

Os Dzi croquetes não apontam seus sapatos de salto alto com meias de futebol diretamente para a classe trabalhadora, mas é nela que identificamos as amarras de um discurso onde gênero e sexo se tornam ferramentas de separação e enfraquecimento das lutas. Observamos também o aprofundamento desse controle através da criação do racismo a partir da acumulação primitiva de capital, fazendo com que seja a mulher negra e periférica um dos setores mais explorados e oprimidos. Ao mesmo tempo que a ela se dirige uma ideologia dominadora, é também nessa classe, a trabalhadora, que se encontra a força de ser consequente pondo fim à separação alienante entre o labor e o prazer, entre a corporeidade e o intelecto. Conquistando não apenas a liberdade sexual mas a autonomia sobre nossos corpos em todas as dimensões.

Como muito bem disse Virgínia Guitzel em entrevista:

“[Lutamos] Contra todas as normas, todas as imposições, todas as regras que buscam transformar a nossa diversidade e nossas potencialidades sexuais em justificativa para a engrenagem da exploração do trabalho que com suas jornadas de trabalho exaustivas roubam toda nossa energia e nossas possibilidades. [Lutamos] Para libertar toda nossa criatividade, e não para que possamos existir tais como somos hoje, não aprisionadas a uma obrigação de ser feliz individualmente, nas realizações pessoais, de um amor romântico, de inclusão na ordem capitalista.”

Veja aqui o documentário Dzi Croquettes (2009), por Tatiana Issa e Raphael Alvarez.


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Júlia Santana

Representante Estudantil do curso de Artes Visuais na UFMG e militante da Faísca Revolucionária
Representante Estudantil do curso de Artes Visuais na UFMG e militante da Faísca Revolucionária
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