Cultura

CULTURA

Naufrágil: coluna indisciplinada de arte e política

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

terça-feira 10 de janeiro| Edição do dia

Crise I
Muitos trabalhadores terão um ano difícil com os salários achatados, isso porque setores importantes da economia tiveram reajuste abaixo da inflação.

Crise II
Um professor especialista afirma que a classe trabalhadora precisa se sacrificar. "Se o orçamento tá curto, trabalhe nas folgas e nos finais de semana".

Crise III
A burguesia não gostou dos nove feriados previstos no calendário de 2017. Segundo a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (FIRJAN) essa folga toda vai aprofundar ainda mais os problemas do país.

Sulfurica Ilha
Wilhelm Reich, médico, psicanalista e marxista alemão, revolucionou o debate sobre a sexualidade nos anos 1920-1930. Em "O Combate Sexual da Juventude" ele vai afirmar que as sociedades capitalistas produzem e reproduzem uma sexualidade miserável. Para Reich, vivemos entre a monogamia reacionária (castidade) e/ou o consumo desenfreado de corpos (caos sexual). Duas faces sexuais do mesmo vil metal. Casadinhos e/ou "na pista" o que impera são as ideias dominantes. Caveira my friend. Reich defende um "amor camarada" baseado na solidariedade. Será que cola ou a parada é sinistra mesmo e quem puder mais chora menos?

Entrevista com a atriz Camila Mota - Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Camila interpreta Semelle no espetáculo Bacantes, com direção de Zé Celso

Fabio Nunes - O Oficina hoje

Camila Mota - O Teatro Oficina hoje é uma companhia multimídia de artistas que tem a arte teatral como eixo principal. Os espetáculos tem um elenco gigantesco, embora nem todos os artistas envolvidos nas montagens estejam ligados diretamente à todas as atividades da companhia que extrapolam o espaço da Rua Jaceguai, 520.

Somos uma companhia permanentemente instável – existe um núcleo criador – cada vez maior, e artistas que passam pequenas temporadas conosco – sempre bem vindos. Somos patrocinados pela Petrobras, numa parceria que dura já 11 anos e, embora não dê para cobrir os custos de um ano de manutenção do espaço e dos grandes elencos – pois uma multidão custa muito caro, esse patrocínio é fundamental para a perenidade do trabalho.

Companhias permanentes, seja o Teatro Oficina ou a Royal Shakespeare Company, são espaços de formação.
A universidade antropófaga é a nossa prática de transmissão de conhecimento e eu gosto muito dessa idéia como direção para o trabalho, mesmo que não seja um período de chamadas públicas de turmas, mas no nosso dia a dia, num estado permanente de invenção.

Existe um certo obscurecimento dos artistas da companhia – o público que não frequenta o teatro e não conhece nosso trabalho, acha que existe Zé Celso e os atores que trabalham pra ele.
Mas nós trabalhamos com ele, criamos juntos. Sim, ele é o gênio, e é maravilhoso ter um gênio na companhia – não se encontram gênios em toda esquina…além disso, Zé é o único que esteve presente em todas as décadas e fases do oficina desde 1958, e esse é mais um motivo para termos a Universidade Antropófaga como eixo de trabalho, pois é preciso um time forte pra contracenar com ele, pra criar junto com ele.

Acho que a projeção dos diversos artistas do Teatro Oficina hoje é um desafio importante, é essencial inclusive para a manutenção econômica do time. pois nosso orçamento anual, se visto da perspectiva de uma companhia de um homem só, o valor realmente parece monumental. mas se for compreendido da perspectiva de um grande time de artistas criadores, é bastante coerente.

Fabio Nunes – Por que Bacantes?

Camila Mota - Bacantes é uma peça muito desejada pela companhia. Algumas pessoas, desde o início de 2016, queriam fazer a peça pra comemorar os 20 anos da estreia no teatro e também porque a maior parte do time ainda não tinha feito esse espetáculo. Realmente é uma peça muito importante pra formação e fortalecimento do coro – pela dramaturgia e pela relação direta com o público que nossa montagem exige. Mas, a decisão de fazer tomou força justamente com a sucessão de Penteus emergindo no cenário político; com a perspectiva de austeridade; de um estado policialesco; do machistério… Então se tornou necessário fazer Bacantes como vudu – praticar ritos de estraçalhamento de Penteus. Transformar um espetáculo em rito é projetar perspectivas. Colocamos em cena uma perspectiva antropófaga de contracenar com o inimigo. Na montagem atual, não basta estraçalhar Penteu, o coro báquico deseja comer esse inimigo, reconhece sua força, se alimenta dela. Não é um desejo de aniquilação, de extermínio, é uma experiência metafísica.

Fabio Nunes – Qual o papel da arte neste cenário tão nocivo?

Camila Mota - A arte é um canal de interpretação da vida. O teatro é um espaço onde o humano se coloca diante do humano. Pode ser uma experiência muito profunda assistir a um espetáculo e se deixar projetar no que é encenado. Eu concordo bastante com a Camila Amado que diz que trabalha em teatro pra aprender a viver. Vivo assim também ao absorver os pontos de vista das personagens, felizmente muitas vezes diversos dos meus. O fascismo hoje está presente na direita e na esquerda – no desejo de aniquilação das diferenças, das conquistas de territórios… volto à necessidade da antropofagia como filosofia política, como experiência de contracenação, como destampador de antolhos para que se possa ver até o antagonista com olhos livres.

Já deu a dramaturgia de bem versus mal, mocinho e bandido… independente de ser contra ou a favor, há que se reconhecer que o processo de impeachment foi construído a partir de uma narrativa de novela, onde o costume é ter um vilão ou vilã responsável por toda a maldade daquela trama. Mesmo com os gigantescos avanços do Ministério da Cultura na gestão Gilberto Gil e Juca Ferreira, o governo petista cometeu uma falha trágica ao não colocar a cultura como estrutura política – o aumento do consumo de tvs foi proporcionalmente desmedido em relação ao acesso à narrativas mais complexas. A produção independente e descentralizada do eixo Sul-Sudeste não chegou à multidão. E quando falo do acesso à narrativas mais complexas não me refiro somente às classes que ascenderam, temos uma elite econômica também muito dominada pela lógica binária da novela. A arte traz a possibilidade de outras interpretações, até contraditórias, e a partir dessas interpretações, são inventados novos paradigmas. Voltaremos em cartaz a partir de 11 de fevereiro, pois estar em cena é fundamental pra existir.

Lagoa Azul é o caralho
Alô Brasil! Alô América do Sul e do Sol! Quem nasceu boca aberta nunca vai virar um Rogério Sganzerla. Determinismo? Não, detergente.

Sinal Fechado
Com direção de Fauzi Arap, "A Cena Muda" (1974) é um dos grandes álbuns ao vivo de Maria Bethânia e um dos espetáculos musicais mais ousados feito no Brasil. O tema da obra é a relação do artista com o sucesso, neste caso, numa época de intensa repressão e censura no país. Bethânia canta o ouro e a lama no reino da mercadoria. Midas, o rei que transforma tudo em bosta ou o alquimista reluzente na sociedade do espetáculo? Com músicas de Chico Buarque, Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Sueli Costa, Caetano Veloso e Gonzaguinha, "A Cena Muda" é uma pedrada maravilhosa.

Vigia Maluco
Um olho no baseado e o outro no isqueiro.

A COMPANHIA DO MIOLO APRESENTA O ESPETÁCULO: LUZEIROS

O que fazer quando a dureza da realidade nos impede de vislumbrar um
horizonte?

O novo espetáculo de rua da Cia constrói uma instalação/narrativa que trata do conflito entre esgotamento e utopia. Uma menina e uma mulher sobreviventes de guerra percorrem uma cidade em ruínas na busca por sepultar os mortos. Neste trajeto revelam memórias de tempos e cidades que se esgotaram em meio à exploração, ganância, pobreza e atentados.

Nos últimos quatro anos a Cia do Miolo desenvolveu uma pesquisa sobre esgotamento e utopia na cidade, que deram fruto aos espetáculos "Taiô", "Em Caso de Emergência Quebre o Vidro" e "Casa de Tolerância" e que agora culmina no novo trabalho - "Luzeiros", obra que reflete a trajetória do grupo frente às experiências diversas das ruas.

Ficha Técnica:
Atrizes Criadoras: Edi Cardoso e Renata Lemes
Direção: Iarlei Rangel
Assistente de direção: Ranieri Guerra
Dramaturgia: Rudinei Borges
Direção Musical: Charles Raszl
Preparação Corporal: Juliana Pardo
Cenografia e figurinos: Eliseu Weide
Desenho de luz: Tulio Pezzoni
Criação e confecção de bonecas: Elizabeth Garavito e Dayana Gonzáles
Produção: Izabela Pimentel e Cia do Miolo
Assistente de produção: Rafael Procópio
Estúdio de gravação: Rafael Agra
Técnico de Áudio e sonorização: Gabriel Kavanji
Assessoria de Imprensa: Luciana Gandelini
Fotos: Arô Ribeiro
Designer Gráfico: Elaine Alves

Entrevista com a atriz Edi Cardoso - Cia do Miolo

Fabio Nunes - Fale um pouco sobre a Companhia do Miolo

Edi Cardoso - A trajetória artística da Companhia do Miolo vem sendo, desde sua fundação, norteada pelo desejo de provocar o encontro. Foi a partir desta necessidade que surgiu a decisão
primeira: a opção pela Rua. Para nós, o teatro carece de intervir no espaço da vida real, afetando e deixando-se afetar pela vida dos espaços coletivos da cidade. Compreendemos a Rua como o espaço
público fértil e propício para o encontro, tanto estética quanto politicamente. O espaço público não somente possibilita o acesso, como também oferece a cidade como cenário e agente esteta. Os diversos espaços públicos da cidade são para a Companhia o canal mais propício para o encontro contemporâneo. Neste sentido, entendemos que o teatro pode criar fissuras, nestas ruas “de passagem”, gerar ações de resistência que
estabeleçam seu sentido de encontro, reflexão, sensibilização, troca e expressão. Ao longo de 13 anos de existência, aprofundamos em nossas pesquisas um treinamento específico para um corpo criativo no espaço urbano, debatemos e investigamos campos dramatúrgicos, de formação crítica e poética com a cidade, no intuito de afirmar o espaço público da rua como espaço de disputa de um imaginário coletivo e de construção de uma outra cidade.

Fabio Nunes - Por que o espetáculo Luzeiros?

Edi Cardoso - Luzeiros, assim mesmo no plural, porque não queremos passar a ideia de uma única luz salvadora, Luzeiros, se revela para nós da Cia do Miolo como múltiplas possibilidades de se vislumbrar uma existência potente. Na iminência do total esgotamento o espetáculo nos apresenta a necessidade de nos levantarmos como se levantam as cidades acima das trincheiras. Ele nasce do nosso desejo de olhar para além da terra devastada , como as gentes de diversas partes do mundo que todos os dias seguem em travessia na busca de um horizonte possível. A imagem de milhares de pessoas que se arriscam em pequenas embarcações nas temerosas àguas do mar à procura de outras cidades e países nos permitiu vislumbrar que, para além dos cemitérios e das ruínas, também é preciso avistar pela primeira vez ver o mar! Nalgum lugar as multidões se erguem tomadas de valentia! Precisamos seguir adiante!

Fabio Nunes - Utopia numa terra em transe. Luzeiros numa terra devastada. Fale um pouco sobre fazer arte num país que atravessa uma forte crise econômica-política.

Edi Cardoso - Esta é uma questão bastante complexa, mas tentarei responder da maneira mais
objetiva possível. Pensamos o nosso fazer artístico como nossa ferramenta de luta e construção de afetos, é através dele e com ele que também vislumbramos um outro modo de vida possível,mais justo e igualitário. Temos enfrentado momentos muito delicados, política e economicamente, momentos de cortes, rupturas, intolerância, desrespeito e hostilidade.“Tentam” vender a imagem de que artista é vagabundo transgressor e que arte no país é “perfumaria”, são inúmeras as tentativas de se privatizar a cultura, e de colocar os interesses privados acima dos interesses públicos, vemos isto todos os dias, sabemos o que significa, a disputa é pelo simbólico, pela construção de imaginários, e é justamente por isso que não pensamos em recuar, e é justamente por isso que vamos às ruas com nossos espetáculos, que investimos em ações de formação de público, vínculo e pertencimento.
A luta dos trabalhadores e trabalhadoras da cultura é árdua e o desafio é não deixar que se destruam as poucas conquistas que tivemos ao longo de anos. Fazer arte é o modo que escolhemos para existir em potência.

Faremos uma curta temporada do espetáculo Luzeiros de 10 a 13 de janeiro de 2017 com apresentações às 17h e às 19h no Largo do Paissandu (centro de São Paulo). Esta ação é parte do projeto Ocupações Teatrais- Esgotamento e Utopia, contemplado na 27ª edição de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.

Aventura Abismal
Emygdio de Barros nasceu em 1895, no Rio de Janeiro. Teve uma infância triste. Jovem, fez o curso técnico de torneiro mecânico e ingressou no Arsenal da Marinha. Foi designado para fazer um curso na França onde permaneceu durante dois anos. Logo após a sua volta ao Brasil (1924) abandonou o emprego e passou a perambular sem destino pelas ruas.

Foi internado no Hospital da Praia Vermelha. Foi Transferido para o Hospital de Engenho de Dentro no início de 1944. Em 1947 começou à frequentar o ateliê da Seção de Terapêutica Ocupacional desta instituição. Revelou-se imediatamente um grande artista. Produziu regularmente no Museu de Imagens do Inconsciente, onde pintou até o seu falecimento, em 1986, aos 92 anos.

Segundo o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar, Emygdio é talvez o único gênio da pintura brasileira, um artista que ultrapassa as medidas e as categorias. Para Mário Pedrosa, outro importante crítico de arte, se denota em sua pintura "uma força poética, um lirismo, um vigor metafísico, um humor, um expressionismo moderado de um verdadeiro artista".




Tópicos relacionados

Artes Visuais   /    Psicanálise   /    Teatro   /    Cultura

Comentários

Comentar